Opinião

A Itália assusta a União Europeia

Matteo Renzi acabou por ficar numa situação algo similar à de David Cameron no Reino Unido. E teve uma derrota política estrondosa.

1. Se Matteo Renzi tivesse a arte política preconizada por outro florentino — Maquiavel em O Príncipe —, não teria deixado transformar o referendo de 4/12 em Itália num plebiscito a si próprio, nem teria de demitir-se do cargo de Presidente do Conselho de Ministros. Provavelmente, nem teria também avançado com a ideia de um referendo sobre um tema tão delicado como as alterações à Constituição italiana, para diminuição drástica dos membros do Senado (de 315 para 100). Isto com o consequente impacto negativo na representatividade e poder das diferentes regiões italianas. Importa notar que os senadores actualmente são eleitos numa base regional, sendo o número proporcional à população de cada região. Matteo Renzi quis reforçar o seu poder e livrar-se dos adversários políticos que o acossavam, à direita e à esquerda, especialmente do Movimento Cinco Estrelas criado por Beppe Grillo, o humorista transformado em político populista que ameaça o establishment. Acabou por ficar numa situação algo similar à de David Cameron no Reino Unido, após o referendo britânico de 23/6 que abriu caminho ao Brexit. Teve uma derrota política estrondosa — 59,1% “Não” contra 40, 9% “Sim” — a qual, em vez de bloquear a ascensão das forças populistas, lhes pode abrir o caminho para a chegada ao poder governamental.

2. Para Renzi e os seus apoiantes a proposta de alteração constitucional iria abrir caminho às reformas mais importantes desde a II Guerra Mundial, pondo fim à crónica instabilidade política. Em Itália os governos sucedem-se praticamente ao mesmo ritmo dos anos de democracia. Aparentemente, Renzi pretendia um lugar na história, ao lado de Alcide De Gasperi, o político que maior influência teve na reconfiguração democrática da Itália pós-fascista. No poder entre 1945 e 1953, Gasperi está para a Itália do pós-guerra como Konrad Adenauer está para Alemanha democrática que emergiu, nessa mesma altura, sobre as cinzas no nazismo. Ambos eram políticos democratas-cristãos. Ambos tinham bem marcada a memória trágica das guerras que devastaram a Europa na primeira metade do século XX e os excessos nacionalistas. (Gasperi nasceu ainda súbdito do Império Austro-Húngaro, na actual região do Trentino-Alto Adige, na altura parte desse império). Mas essa era a geração dos “pais fundadores” das Comunidades Europeias nos anos 1950. Renzi, apesar de vir dos meios católicos e ser europeísta, não é Gasperi. Não tem a memória da guerra. Nem o seu Partido Democrático — um partido de centro ou de centro-esquerda —, tem a foça política e prestígio que o partido da Democracia Cristã tinha no pós-guerra.

3. A instabilidade política na Itália não é nova. Provavelmente é tão antiga quanto a própria unificação de 1861. Como Estado soberano moderno surgiu sob o domínio político e económico do Norte, o qual se impôs a toda a Península Itálica, Sicília e Sardenha incluídas. O Reino do Piemonte — Turim foi a primeira capital da Itália unificada devido aos Estados Pontifícios, com sede em Roma, se terem mantido independentes até 1870 —, foi o grande unificador e dominador. Antes de 1861, a península estava dividida em múltiplas unidades políticas soberanas, algumas sob a dependência de monarcas estrangeiros. Essa era uma tradição política de governo fortemente enraizada, a qual perdurou um longuíssimo período histórico (grosso modo desde desagregação do Império Romano até à segunda metade século XIX). As sequelas são ainda hoje visíveis. As regiões a Norte (Vale d’Aosta, Lombardia, Trento, Bolzano, etc.), estão claramente acima da média europeia em PIB per capita. Já a Sul de Roma — no chamado Mezzogiorno, essencialmente as regiões do antigo Reino das Duas Sicíliasa realidade é outra: o PIB per capita é, em média, inferior a 30% da média europeia. Após seis décadas de integração europeia (a Itália é um Estado fundador) o Mezzogiorno continua o seu crónico atraso, não obstante ser das áreas que há mais tempo beneficia de fundos europeus para o desenvolvimento regional.

4. Pelos particularismos da história italiana, reduzir a composição e poder do Senado — a câmara do parlamento que assegura a representatividade das regiões dispondo de um poder paritário ao da Câmara dos Deputados —, seria um assunto fracturante em qualquer circunstância política. Ecoa tentativas de centralização pelo governo de Roma, as quais fazem lembrar o período autoritário do Estado fascista criado por Mussolini nos anos 1920. O ressentimento é amplificado pela já referida longuíssima tradição que a Itália tem de unidades políticas autónomas, em muitos casos próximas da lógica da cidade-estado. E pelos contrastes de riqueza e também culturais, entre o Norte e o Sul da península. A lógica autonomista, sob a forma federalista — ou até independentista para os mais radicais —, ressurgiu nos anos 1990. Está no cerne das reivindicações políticas da Liga do Norte, fundada por Umberto Bossi (um aliado político tradicional de Berlusconi). A sua base de apoio encontra-se fundamentalmente no Vale de Aosta, Piemonte, Ligúria, Lombardia, Trentino-Alto Adige, Veneto, Friuli-Venezia Giulia e Emília-Romana — o cerne da chamada Padânia, a região do rio Pó, Padus, em latim. Não é por acaso que, a par do Movimento Cinco Estrelas, veio daí uma das oposições mais ferozes às propostas de alteração constitucional de Matteo Renzi, submetidas a referendo em 4/12.

5. Na Itália tudo tem uma longa história, incluindo os bancos. No centro da crise financeira actual está a Banca Monte dei Paschi di Siena. Nascida em 1472 é normalmente considerada a instituição bancária mais antiga do mundo ainda em funcionamento, sendo uma das maiores do país em termos de activos. Nos últimos meses tem estado sob pressão de uma urgente recapitalização. Aponta-se um valor que poderá atingir os cinco mil milhões de euros, devido ao seu elevado volume de crédito malparado. Com o resultado do referendo de 4/12 e a turbulência política que este desencadeou, o receio é que o processo de recapitalização em curso seja uma vítima colateral. O receio, também, é que uma crise bancária reabra a crise da Zona Euro, que entrou em acalmia com o acordo com a Grécia em 2015. Ironicamente, nesta altura, quer a instabilidade — vista pelo establishment italiano e europeu como ameaçada pelos populistas do Movimento Cinco Estrelas de Beppe Grillo —, quer a estabilidade da Zona Euro, estão ambas em mãos italianas. Cabe a Mario Draghi enquanto Presidente do BCE — outro italiano, banqueiro e antigo quadro do Goldman Sachs —, zelar pela estabilidade financeira da Zona Euro. Por último, veremos ainda se “para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.” Esta é uma frase memorável do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, objecto de uma inesquecível adaptação cinematográfica de Luchino Visconti, em O Leopardo (1963). Passado nos finais do Reino das Duas Sicílias, captava o ambiente da formação do Estado italiano nos anos 1860. Talvez seja ainda útil para compreender a Itália do século XXI que assusta a União Europeia.