Pedro Neves filma por necessidade, contra o esquecimento

Com Tarrafal, apresentado a concurso no Porto/Post/Doc, o realizador conta uma mão-cheia de histórias do Porto que é a sua cidade adoptiva

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Pedro Neves precisa de tempo para chegar ao âmago das histórias que quer contar ADRIANO MIRANDA

“Nunca fico ansioso com estreias, mas nesta fiquei,” confessa Pedro Neves ao recordar o momento da primeira exibição pública da sua longa Tarrafal, no Rivoli. Foi na noite da passada terça-feira, frente a muitos dos antigos habitantes do bairro portuense de São João de Deus, conhecido como Tarrafal, que haviam contado as suas histórias de vida frente à câmara do realizador. “Sabia o que eles me tinham dado, que eram histórias muito difíceis.” E foi só perante a reacção entusiástica da plateia ao olhar “à altura de homem” de Tarrafal que voltou a respirar de alívio.

É o passo mais recente num percurso que, ao longo da última década, tem visto Pedro Neves (n. 1971) tornar-se numa espécie de “documentarista residente” da Invicta, com títulos como Hospedaria (2014, sobre as histórias esquecidas de uma hospedaria abandonada em plena Baixa) ou Bairrismos (2015, sobre os bairros municipais da cidade). Uma coisa que o próprio cineasta vê não sem ironia, sendo natural de... Leiria. “É verdade que o Porto é a cidade onde eu vivo, e as histórias acabam por acontecer naturalmente à nossa volta,” sorri Neves. “Há sempre muitas histórias para contar, e aquelas que por norma não se contam são as que mais me interessam. O Porto está cheio delas.”

Neves recorda, no entanto, que já filmou noutros locais, como em A Praia (rodado em Cascais e Sintra) ou A Raposa da Deserta (na Ilha Deserta). “E grande parte dos filmes que fiz aqui podiam ter sido feitos noutros sítios. Acima das Nossas Possibilidades” – a sua média de 2014 sobre gente atirada para a pobreza pela recessão económica – “podia ter sido feito em Lisboa, em Leiria ou em Coimbra. Acabou por ser aqui, porque aqui o meu contacto com a realidade é mais simples. Acredito muito no tempo que tens de passar com as pessoas.”

Isto tem qualquer coisa de paradoxal. Pedro Neves fala da necessidade de ter tempo para chegar ao âmago das histórias que quer contar, para ganhar a confiança dos seus sujeitos, mas ao mesmo tempo produz com uma rapidez extraordinária – uma dezena de filmes (de vários tamanhos, dos 15 aos 90 minutos) desde 2009, mais séries para o Canal 180, telediscos ou spots institucionais. Essa rapidez deriva em parte do modo de “auto-produção” de Neves - “a maioria dos filmes sou eu a fazê-los quase sozinho, e tem sido por isso que os consigo fazer,” explica. “Os financiamentos são tão parcos e tão poucos que ou sou só eu ou o filme não se faz.” É certo que muitos dos seus temas ganham com essa equipa despojada, como Acima das Nossas Possibilidades, “que pedia para ser feito sozinho”. Mas acima de tudo, filmar é para Neves uma “necessidade brutal”. “É ter sempre coisas na cabeça e não conseguir desligar. Às vezes estou a filmar duas, três, quatro coisas ao mesmo tempo. Não tenho preocupação em fazer um filme por ano, ou dois, mas sinto uma necessidade de ir fazendo as coisas. E vou fazendo…”

Essa necessidade não depende apenas da urgência das questões sociais, de discriminação ou de exclusão que são, desde o início, os temas de muitos dos seus filmes (logo em 2009 Neves chamava a um dos seus primeiros títulos Os Esquecidos). Deriva também, e assumidamente, do trabalho de memória que o realizador sente ser essencial num país como o nosso, para contrariar uma tendência para as coisas irem sendo esquecidas, ficando pelo caminho. “Somos feitos de memória,” explica. “E se não tivermos memórias não somos nada. Uma sociedade e um país fazem-se dessa nossa relação com a memória, e vemos hoje, com os jornais, as televisões, que há um constante refazer dessa memória, que ela é tratada de um modo muito efémero. Quando constróis um condomínio de luxo numa sede da PIDE, isso é uma destruição brutal de memória. Se não houver um registo, as coisas perdem-se e de repente andamos aqui sem entender nada do passado. E se não entendermos nada do passado não entendemos nada do presente e não preparamos o futuro. Parece uma frase muito feita, mas acredito que é verdade. E por isso sim, os meus filmes são filmes para combater o esquecimento.” E isso é algo de que Pedro Neves não quer abrir mão. “Há aí mais uma carrada de histórias para contar. Não quero ficar por aqui.”