Jobim e Carminho sentaram-se à mesma mesa

O mesmo Brasil que já lhe dera liberdade deu-lhe uma grande responsabilidade. Carminho aceitou-a e gravou um disco só com canções de Tom Jobim, que chega hoje à lojas. Com ela, cantam Maria Bethânia, Chico Buarque e Marisa Monte.

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Paulo Jobim, filho de Tom, com Carminho em Lisboa: “Ela é uma cantora maravilhosa, emocionante, é uma coisa nova para nós” RUI GAUDÊNCIO

Começou num jantar, como se fosse brincadeira. Foi no Rio de Janeiro, cantaram-se canções de Tom Jobim e ela foi acompanhando, com entusiasmo. Mas esse "alegre momento" de convívio deu lugar a algo maior, quando Paulo Jobim, filho de Tom, convidou Carminho para gravar um disco com canções do pai. O desafio concretizou-se, foi uma experiência exaltante para todos os envolvidos e o disco chega hoje às lojas portuguesas.

Carminho Canta Tom Jobim foi gravado nos estúdios da editora Biscoito Fino e com Carminho esteve a Banda Nova, a última formação que acompanhou Tom Jobim, e de que fazem parte o seu filho e neto, respectivamente Paulo (violão) e Daniel Jobim (piano), Jaques Morelenbaum (violoncelo) e Paulo Braga (bateria). Além disso, participaram como convidados Marisa Monte, com quem Carminho partilhou no Verão passado o palco do CoolJazz, em Oeiras, em Estrada do sol, Maria Bethânia em Modinha e Chico Buarque em Falando de amor. A actriz Fernanda Montenegro, de 87 anos, tem uma participação especial no tema Sabiá, declamando um excerto do poema de Gonçalves Dias Canção do exílio (escrito em Coimbra, e no qual Jobim se inspirou para compôr Sabiá).

"Uma miúda grande"

Em Lisboa, ao lado da cantora, Paulo Jobim justifica assim o convite: "Porque ela é uma cantora maravilhosa, emocionante, é uma coisa nova para nós. Uma portuguesa cantando em português, acho que isso deu até aos poemas do Vinicius uma força, uma integridade maior. O meu pai gostava muito de poesia, e eu tinha um tio que também gostava. Esse meu tio recitava Fernando Pessoa, mas com sotaque português, porque tinha gravações do João Villaret. Então aquilo tomava uma importância maior. E eu senti um pouco isso, agora. Ela tem, com a letra, a atitude de se concentrar nas palavras." Ele ouviu-a pela primeira vez no Rio, num espectáculo onde também tinha tocado. "Já estava sentado na coxia quando ela entrou para cantar. Fiquei ali, olhando de perto, e fiquei muito impressionado com ela. Eu e o Brasil inteiro." Essa impressão ajudou a que Paulo desse depois corpo à ideia que terá ficado a pairar depois do tal jantar no Leblon, onde estavam Ana Jobim (viúva de Tom), Kati de Almeida Braga, da Biscoito Fino, e Vinicius França. "Depois dei essa sugestão de fazer um disco com ela, que resultou maravilhoso. Cada música é uma surpresa, a interpretação dela." Hesita e diz: "É uma miúda grande!"

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A "miúda grande" quase não coube no adjectivo, de espanto e contentamento. "Era difícil imaginar que isso fosse possível, parecia só um entusiasmo, um alegre momento que se dá. Mas quando eu me encontrei com o Paulinho de verdade, quando ele me entrega um calhamaço com todas as canções que a filha dele catalogou e que ele organizou em cancioneiro, num trabalho incrível de documentar tudo, aí eu acreditei. E senti-me com uma responsabilidade, uma honra e um entusiasmo gigantes. Porque são canções que, em parte, eu já conhecia, das novelas, dos meus discos, dos encontros com músicos no Brasil, e intuía como gostaria de as interpretar."

"Foi crescendo um personagem dentro de mim, com a soma de todas as maravilhas que eles iam contando e cantando. Com a ajuda deles fui escolhendo o repertório, mas no final fui eu que tive de decidir o que é quer cantava. Primeiro, houve o critério da língua, com o sotaque português. A eles não fazia muita confusão eu cantar com o meu sotaque, mas dizer ‘você’, para mim, sim." Por isso, por causa desse "você", a canção Por causa de você, parceria de Tom com Dolores Duran, entrou no disco na versão inglesa, a que cantou Frank Sinatra: Don’t ever go again.

Directas ao coração

Houve também o critério de diversificar as parcerias de Tom com outros músicos. "Também me deu imensa alegria, procurar um repertório que não fosse tão óbvio." Assim, a par da parceria com Vinicius de Moraes, a mais constante na obra de Tom, entraram no disco canções que ele compôs em colaboração com Chico Buarque, Aloísio de Oliveira, Dolores Duran ou Newton Mendonça. Na escolha das canções, Carminho deixou também algo da sua marca. "Tem a ver com algo pessoal, com que eu me identifico. Coisas que vão directas ao meu coração. É um processo solitário de procura. Mais do que serem letras bonitas ou que eu tenha capacidade de entender, conta saber aonde é que eu vou poder dar o máximo de mim para que a canção seja maior do que eu. Porque a canção é que é a personagem principal e eu tenho de conseguir servi-la da melhor maneira."

Para isto resultar, os músicos não tiveram de fazer alterações significativas, diz Paulo Jobim: "Mudámos andamentos, coisas assim, mas o básico da música está lá. Quando ela cantou com Bethânia eram dois tons diferentes." Carminho acrescenta: "Esta banda, que acompanhou Tom Jobim, tem interiorizado estas canções desde há muitos anos. Por isso os arranjos foram muito à ‘cor’ Jobim. Muito pontualmente, atrevi-me a fazer uma sugestão, em três ou quatro canções, de mudar o arranjo completamente e de o tornar outra coisa. Por exemplo, haver uma canção só voz e violoncelo com o Jaques Morelenbaum. Isso foi algo que me deu um prazer imenso e eu sabia que me ia trazer uma emoção muito parecida com aquela que se consegue com a linguagem que trago." Mesmo assim, em harmonia. "Nenhum deles abdicou da linguagem Brasil e sobretudo da linguagem Tom Jobim, mas eu também queria não abdicar da minha linguagem e da formação que me trouxe até aqui. O fado ensinou-me a cantar, não só fado como a interpretar várias canções. A abraçar as canções, as letras. E com um poema de Vinícius a tarefa fica facilitada."

Coisas da escola do fado

Paulo Jobim: "Acho muito natural a maneira como ela cantou. Ela nasceu no fado, dentro do fado. Então aquilo fica arreigado na mente, no corpo, na voz. E é lógico que quando ela vai cantar uma canção mais lenta, aquilo vai ficar próximo do fado. Agora um sambinha é mais difícil." Logo no início, em A felicidade, é notória a diferença entre a forma como Carminho canta a palavra (que se ouve como "f’lecidade") e a forma brasileira, naturalmente mais soletrada. "Isso", diz ela, "tem a ver com a minha escola do fado. A minha grande mentora, a Beatriz da Conceição, uma Nana Caymmi dos fados, dizia-me: ‘Carminho, diz as palavras como elas são, faladas. Não quebres as palavras a meio!’ E eu chorava na casa de banho mas depois mais tarde percebi."

Eles não ouviram logo o disco, depois de gravado. Mas quando chegaram as misturas finais, Paulo Jobim foi ouvi-lo. "Fiquei muito emocionado. Aqui estava um pouco desfasado na minha cabeça mas veio como uma coisa nova, com um som equilibrado, a voz dela, maravilhosa, pungente. E fiquei muito feliz." Carminho: "Também fiquei muito emocionada. Primeiro há a emoção de aquilo ser uma realidade. Depois, lembrar os momentos que tive com estes mestres no estúdio, da generosidade deles ao deixarem-me ser o que eu sou. E de me deixarem livre a interpretar uma obra que poderiam legitimamente considerar sua. Nem sempre é comum esta relação entre músicos, entre artistas, é algo que trago do Brasil e não me canso de falar nisso."