Editorial

O caminho que se fez na Matemática

Boas notícias na frente educativa: Portugal deu um salto assinalável nos resultados dos alunos do 4.º ano a Matemática nos testes internacionais que avaliam o desempenho à disciplina. Em duas décadas, fomos mesmo os que mais progredimos e ocupamos agora um honroso 13.º lugar numa lista de 49 países. Aumentámos a percentagem de alunos nos níveis de desempenho mais elevados e reduzimos a proporção de alunos nos níveis mais baixos. E — surpresa! — ultrapassámos a mítica Finlândia, o país-modelo que é a medida de todas as coisas no que à excelência educativa diz respeito.

Aqui chegados, a pergunta é inevitável: o que explica o “milagre” numa disciplina em que estávamos votados ao fracasso? Na hora de colher os louros do sucesso, assistimos à procissão do costume, com os ministros da 5 de Outubro e os partidos que os apoiaram a chamar a si os principais méritos da conquista. Maria de Lurdes Rodrigues (Governo PS) lembrou o seu Plano de Acção para a Matemática e as horas investidas a formar professores, ignorando porém que foi com ela no poder que 100 mil docentes pediram a sua cabeça nas ruas; Nuno Crato (PSD-CDS/PP) valorizou o rigor das novas metas curriculares e a exigência da avaliação externa, omitindo porém os cortes drásticos na Educação e o esmagamento da rede do 1.º ciclo a que assistimos no seu consulado; e João Costa, o actual secretário de Estado da Educação (novamente PS), elogiou a primeira e evocou o segundo, mas neste caso fundamentalmente para lembrar que o processo de reversão está em curso com o fim das provas finais obrigatórias no 4.º ano (já implementado) e a flexibilização (em curso) de programas e metas nos vários ciclos de ensino.

Excluindo o Português, a verdade é que não há disciplina que tenha merecido mais atenção dos sucessivos governos do que a Matemática, cujos resultados se transformaram no principal barómetro de avaliação das políticas educativas no país. Isso traduziu-se num reforço dos meios ao dispor das escolas, na libertação dos professores para um trabalho efectivo em contexto de sala de aula e no aumento da carga lectiva à disciplina, ao ponto de Portugal ser hoje o país europeu que mais horas semanais dedica ao ensino da Matemática.

Sobretudo o que os bons resultados nos provam é que uma avaliação só é eficaz se houver um trabalho de proximidade com os alunos. A Matemática, parte do caminho está feito. Agora venha o resto.