A cidade de Lisboa vista pela ciência

Teses ou artigos científicos podem conter várias histórias sobre a capital. Mas nem sempre são acessíveis a toda a gente. Agora há um novo site que reúne a investigação científica de uma das faculdades da Universidade Nova de Lisboa.

Projecto também trará roteiros científicos sobre Lisboa
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Projecto também trará roteiros científicos sobre Lisboa Daniel Rocha

Lisboa é das capitais mais antigas da Europa e andar pela cidade e observar o que nos reserva pode ser revelador de muitos segredos. Em poucos quilómetros, podem percorrer-se muitos séculos; convivências que se vão transformando com o tempo. E se isso se aliasse ao conhecimento científico? Foi o que aconteceu com o lançamento nesta segunda-feira do site FCSH + Lisboa, que reúne pequenos textos sobre teses de mestrado e de doutoramento, artigos científicos, livros e projectos de investigação desde o início da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa. Tudo sobre Lisboa, para todas as idades. 

Até agora, estão reunidos no site cerca de 100 textos sobre trabalhos científicos desenvolvidos na FCSH, 50 textos institucionais sobre a própria faculdade, 120 pontos georreferenciados em Lisboa e três roteiros para andar a pé (Catedrais do Cinema, Subindo as Avenidas Novas e Descendo as Avenidas Novas).

Tudo começou em 2014, quando a FCSH comemorava os 40 anos do 25 de Abril de 1974. Houve uma série de conferências e a faculdade tinha-se “virado para fora” e queria continuar assim, conta a coordenadora do projecto, Cristina Ponte, professora do Departamento de Ciências da Comunicação. “A ideia surgiu do interesse de comunicar as ciências sociais e humanas neste tempo tão importante. Depois, surgiu-nos o tema ‘Lisboa.’”

Em Maio deste ano deu-se finalmente o clique. Houve uma conferência sobre o projecto Utopia 2016, do King’s College de Londres, para celebrar os 500 anos do livro de Thomas More (a instituição tinha associado o conhecimento científico à capital londrina). Estava encontrada a inspiração. “Mas como iríamos fazer a ‘tradução’ dos trabalhos científicos?”, diz Cristina Ponte, referindo-se à comunicação dos trabalhos numa linguagem corrente.

Dora Santos Silva, docente na FCSH, juntou-se a Cristina Ponte e é a autora da maioria dos textos hoje no site, que depois remetem para os próprios trabalhos científicos. “Neste momento, temos uma base de dados de 500 obras originais, que estamos a trabalhar para obter os pequenos textos que fazem a ligação entre o investigador e público”, conta Dora Santos Silva. “Não é fácil levar para fora da academia esses trabalhos. Os próprios investigadores não têm, por vezes, as ferramentas adequadas ou capacidades de comunicação de ciência.”

O site pode ser visitado de três formas. Há a opção Conhecer, que contém os tais textos curtos, como se fosse uma porta de entrada para a investigação científica sobre a cidade. Depois há a opção Intervir, que tem conteúdos sobre a faculdade (por exemplo, conferências). Por fim, há a opção Explorar, que inclui roteiros temáticos pela cidade.

E que cidade se pode descobrir? Lisboa desde a antiguidade até ao século XXI. “Tanto temos uma peça sobre as ruínas do Teatro Romano de Lisboa, construído na época do imperador Augusto, ou sobre lucernas (lâmpadas) encontradas em escavações arqueológicas, datadas dos séculos I e III d.C., como temos peças sobre a análise etnomusicológica do transformismo numa discoteca do século XXI (o Finalmente)”, exemplifica Dora Santos Silva.

Lisboa na literatura, no cinema ou na Idade Média, de tudo um pouco se encontra. Entre tantos séculos de histórias e quilómetros percorridos, há lugar para todas as idades explorarem o site. “É completamente transgeracional, a idade não importa”, sublinha Cristina Ponte. “Há muitas ‘entradas’ para as crianças”, acrescenta, dizendo que até podem ser os mais novos a incentivar os pais a conhecer o site.

A tradução para inglês é um dos próximos passos, até para que o site seja também visitado por turistas. E mais irá surgindo sobre Lisboa: além de conteúdos, mais roteiros e galerias de imagens serão desenvolvidos vídeos em 360º.

Já depois desta quinta-feira, às 14h30, o projecto FCSH + Lisboa promove um passeio pelo roteiro Descendo as Avenidas Novas. O percurso terá de ser descarregado no smartphone e, durante uma hora e meia, cada um pode ir descobrindo a cidade.

Além do convívio, Cristina Ponte defende que esta transmissão de conhecimento é uma forma de chamar à atenção para a importância das humanidades e de como podem ser um pilar de decisões. “O passado pode fazer a diferença nas decisões tomadas no presente.”