Análise

De olhos postos em Roma e Viena

No próximo domingo, a Europa enfrenta mais dois testes à "vaga populista": o referendo constitucional italiano e a "terceira volta" das presidenciais austríacas. É cedo para falar em influência "trumpiana". São processos que começaram muito antes das presidenciais americanas. Neste texto ocupamo-nos da Itália, mas é necessário fazer a distinção entre os dois casos, muito diferentes.

Na Áustria, está em jogo a possibilidade de um país eleger na Europa, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, um Presidente da República de extrema-direita, Norbert Hofer, do Partido Liberal (FPÖ). O simbolismo político é enorme. Para mais, o FPÖ nasceu sob o signo de alguma nostalgia pelo III Reich. Passou entretanto pela "máquina de lavar" mas a mancha persiste. Temas mobilizadores: a saturação pelas sete décadas de monopólio do poder por sociais-democratas e democratas-cristãos e, obviamente, a imigração. O seu líder, Heinz-Christian Strache, qualificou Angela Merkel como "a mulher mais perigosa da Europa" pela sua "criminosa" política migratória.

Na Itália está em jogo a estabilidade política. O primeiro-ministro Matteo Renzi associou o seu futuro ao "sim" no referendo, ameaçando "voltar para casa" se vencesse o "não". As sondagens de Abril garantiam-lhe ampla vitória. Hoje, a maioria dos italianos dispõe-se a votar não sobre as propostas de revisão constitucional, que teriam uma concordância maioritária, mas antes sobre Renzi e o governo. O Movimento 5 Estrelas (populista), de Beppe Grillo, e a Liga Norte (extrema-direita), de Matteo Salvini, transformaram o voto numa operação "Todos contra Renzi". Uma minoria da esquerda e muitos eleitores da Força Itália (de Berlusconi) apostam nessa ideia. Ao fazer do referendo uma espécie de "plebiscito" sobre a sua liderança, Renzi preparou a armadilha em que caiu e que lançou o alarme na Europa.

"As bodas do caos"

Muitos analistas traçaram um quadro negro quando o "sim" começou a descer nas sondagens. Se Renzi se demitir, abre-se um período de vazio político e de incerteza nos "mercados", com o risco de lançar a Itália numa nova crise financeira que abalará a UE. O jornalista Wolfgang Münchau, do Financial Times foi mais longe: admitiu a abertura de uma crise que poderia levar a Itália a sair da moeda única, o que provocaria "o colapso da zona euro num período curto".

O alarme decorre da combinação entre o referendo e a nova lei eleitoral, dita Italicum, que prevê uma segunda volta nas legislativas entre os dois primeiros partidos para atribuição do "prémio de maioria", que garante ao vencedor 54% dos deputados. Para Renzi, era a garantia de estabilidade e de eficácia governativa. Mas os adversários repetiriam o esquema "Todos contra Renzi". Nas sondagens, o movimento de Grillo, segunda força política, venceria as prováveis legislativas pós-referendo, graças ao apoio da Liga e da direita berlusconiana.

Foi este cenário que levou o jornalista Ezio Mauro a escrever no La Repubblica que o M5S e a Liga se preparam para celebrar as "bodas do caos", lançando a Itália numa situação catastrófica (ver Público de 5 Novembro).

Renzi e o Italicum

Até domingo passado (último dia com sondagens) o "não" estava em superioridade perante o "sim" e com tendência para subir. Havia muitos indecisos. Os analistas diziam que o resultado em muito dependeria da afluência às urnas, que beneficiaria o "sim". Entretanto, logo após a vitória de Trump, Renzi lançou uma ofensiva de "contra-populismo", assumindo-se como o verdadeiro adversário da "casta política" e o único capaz de mudar "o sistema". Foi, aliás, o tema com que entrou na política nacional. Os efeitos são desconhecidos.

Esta semana foi marcada por uma escalada de radicalização verbal mas também por alguns sinais de desdramatização. Em primeiro lugar, Renzi reconheceu que a sua lei eleitoral tem de ser rapidamente revogada e substituída, para impedir o pesadelo de Grillo conquistar a maioria absoluta na Câmara de Deputados. Este simples facto ameniza o clima.

O segundo sinal é falar-se muito nos cenários pós-referendo, isto é, no que acontecerá se o "não" vencer. Que fará Renzi? Como reagirão os partidos? Os "mercados" permanecem nervosos. Que decidirá o Presidente Sergio Mattarella? A única coisa certa é que não haverá eleições com Italicum. E que, se perder, Renzi demite-se mas não vai para casa.