Cortázar, Lorca e Lou Reed ao compasso do flamenco no Festival de Lisboa

A companhia Columna Flamenca, formada por artistas portugueses, espanhóis e marroquinos, estreia a sua primeira criação, Corpo Sonoro, no Festival Flamenco de Lisboa.

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Juantxin Osaba, guitarrista e director musical de Corpo Sonoro DR
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Francisco Carvajal, criador e encenador de Corpo Sonoro DR
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“El Carpeta”, o mais novo bailaor da dinastia de “Los Farruco” DR

O nome, Columna Flamenca, é já uma declaração de princípios. Destacamento artístico criado por Francisco Carvajal, curador do Festival Flamenco de Lisboa desde a sua primeira edição, em 2008, é composto por oito elementos (portugueses, espanhóis e marroquinos) e estreia agora no festival a sua primeira criação, Corpo Sonoro. Que se anuncia como “um tríptico intimista de baile flamenco, inspirado no texto Rayuela do escritor Júlio Cortázar, nos poemas de Federico García Lorca e no álbum Street Hassle de Lou Reed, gravado em 1978”.

Produtor musical e teatral, nascido em Madrid em 1948, Francisco Carvajal justifica desta forma o título da companhia que ele próprio criou: “Chamei-lhe Columna Flamenca, no sentido republicano (foi na Coluna dos 8 mil que morreu o meu avô) mas também no sentido geométrico e arquitectónico. É uma coluna de oito pontas, que eu sou um homem de octógonos, uma coluna consistente para que não se desfaça ao primeiro embate. E vamos andar por Portugal e Espanha, por onde nos contratem. Já temos duas ou três actuações marcadas no estrangeiro, em França e na Holanda.”

Flamenco é flamenco

As razões que o levaram a criar a companhia vêm bem de trás, da sua experiência madrilena. “Nos meus 21 anos à frente de dois teatros (o Martin e o Alfil, de Madrid) relacionei-me com pessoas como Pedro Almodóvar e aprendi muito. Sempre tive muito interesse em conhecer o outro lado, dirigir obras, co-dirigir, colaborar, produzir artistas. Fi-lo, com muito medo e muito respeito, e algumas coisas resultaram interessantes. Em Portugal, há dez anos que luto contra ventos adversos e essa luta transformou-se numa certa paz. Começo a sentir-me lisboeta.”

Porém, apesar desse sentimento, foi a situação actual das salas e respectiva programação, com alguma confusão na apresentação de géneros musicais, que o impeliu a formar a sua Columna. “Pensei: vou criar, dentro da nossa estrutura, uma companhia que vá aos lugares onde nunca vamos, que vá aonde nunca vai o flamenco. Mas que vá como flamenco, a compás. E quis fazê-la com músicos portugueses, com músicos espanhóis e, neste caso, com músicos marroquinos. O trance sufi, vamos trabalhá-lo por bulerías de Jerez, e os marroquinos estão preparados para isso, com as suas darbukas. E pensei ainda: vou politizar um pouco, vou meter ideologia no flamenco, que nunca a tem – só Enrique Morente era um homem político, um cantaor de flamenco que dizia ‘sou um trabalhador das liberdades e um artista’ e não precisava de dizer mais nada.”

“Busca da felicidade”

Encenada por Francisco Carvajal, com direcção musical de Juantxin Osba e concepção do espaço cénico de Sandra Battaglia, a primeira criação da Columna Flamenca, Corpo Sonoro, divide-se em três actos: La Rayuela, Dónde está Federico e Street Hassle. “A mim, Cortázar sempre me interessou. E vamos trabalhar com uma base filosófica de Cortázar que é a busca da felicidade”, diz Francisco Carvajal. Isto com soleá, rumba, bulerías e verdiales. A parte dedicada a Federico García Lorca será um baile por seguirilla. E Street Hassle, que Lou Reed compôs em 1986 inspirado na peça de teatro Lulu (1937), do dramaturgo alemão Frank Wedekind (1864-1918): “Vamos fazer uma interpretação livre dessa pequena obra sinfónica de Lou Reed por bulerías, com instrumentos marroquinos, cajones flamencos, gitanos, e com um violoncelista.”

Juantxin Osaba, guitarrista e director musical, formou-se em guitarra clássica no conservatório de Bilbao, integrando coro do conservatório de música barroca. Teve o primeiro contacto com a guitarra aos nove anos e tocou com Diego del Morao, Pepe del Morao, Diego Carrasco, Tomasito ou Maloko Soto. Realce-se ainda a participação, neste espectáculo, de Bastian Blanco (guitarra, percussão), Diego el Gavi (cante) e Martin Meléndez (violoncelo). Este último, nascido em Moscovo, em 1992, de pais cubanos, vive hoje em Barcelona e é membro da companhia de Carlos Saura Flamenco e do Aupa Quartet. O estilo que desenvolveu no violoncelo deve-se ao gosto pelo improviso e a uma mescla de influências: jazz, música cubana, funk e flamenco.

“El Carpeta”, a dinastia Farruco

Depois da abertura, no dia 25 de Outubro, com o jovem guitarrista flamenco Javier Conde, o espectáculo de baile a compás da Columna Flamenca é o segundo da edição de 2016 (a nona) do Festival Flamenco de Lisboa, no palco do Teatro da Trindade: sexta-feira, dia 25, pelas 21h30.

No dia 26, à mesma hora, o palco do Trindade ficará por conta do bailaor Manuel Fernández Montoya, “El Carpeta”, da dinastia de “Los Farruco” e irmão mais novo de Farruquito, que foi a estrela principal do Festival Flamenco de Lisboa em 2014. “O Flamenco corre-lhe no sangue e na raça mas conseguiu criar o seu espaço com a alma aberta e a sua forma de bailar o Flamenco”, garantem os organizadores. “Uma noite onde se apresentará o presente e o futuro do novo baile flamenco.” Paralelamente, haverá no Espaço Flamenco Atlântico aulas de Baile, dia 26, às 18h.

Desde que foi criado, em 2008, já passaram pelo Festival Flamenco de Lisboa nomes tão relevantes nesta arte quanto Enrique Morente, Miguel Poveda, Carmen Linares, Miguel de Tena, Juan Manuel Cañizares, Pepe Habichuela, Estrella Morente, Farruquito, Fuensanta La Moneta ou Amós Lora.