Cirurgia pioneira do linfedema do braço com transplante de gânglios linfáticos

Uma das complicações frequentes da mastectomia é o inchaço do braço. Mas também pode ocorrer noutras doenças e nas pernas.

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ENRIC VIVES-RUBIO

O Serviço de Cirurgia Plástica e Unidade de Microcirurgia do Hospital Gaia/Espinho realizou esta segunda-feira uma cirurgia pioneira no país para o tratamento do linfedema do braço, uma doença que afecta cerca de 50% das mulheres submetidas a mastectomia (remoção completa da mama).

“É uma cirurgia que permite a reconstrução do sistema linfático que é lesionado durante a cirurgia de mastectomia, em doentes com cancro da mama”, explicou o cirurgião Gustavo Coelho, que introduziu esta técnica em Portugal.

O tratamento consiste no transplante de gânglios linfáticos do pescoço (zona cervical) para o punho, recorrendo a técnicas microcirúrgicas, explica este especialista.

O linfedema do membro superior é a complicação mais frequente após a mastectomia, com uma prevalência elevada, podendo atingir cerca de 50% das doentes submetidas a mastectomia. Frequentemente, os doentes submetidos a mastectomia são também submetidos à excisão dos gânglios linfáticos Este procedimento torna-se necessário porque existe a possibilidade de algumas células cancerosas poderem ficar alojadas nesses gânglios. Essa remoção vai tornar o processo de retorno da linfa (fluído linfático) ao sistema circulatório mais lento, o que pode conduzir a um inchaço (edema) no braço.

“Já sinto melhoras”

A segunda cirurgia com esta nova técnica, a que a Lusa assistiu, foi realizada esta segunda-feira. Mas a primeira doente operada, em Outubro, Rosa Carvalho, de 52 anos, que se deslocou ao hospital para curativos, explicou que “as melhoras já são muitas, o braço desinchou e o peso e as dores são muito menores”.

Rosa Carvalho apresentava um linfedema grave do braço esquerdo após a realização de uma mastectomia por cancro da mama, realizada há cinco anos. “O médico explicou-me que ia ficar com o braço mais leve, mais magrinho, mas que a recuperação será gradual. Já sinto melhoras”, contou Rosa Carvalho. “O peso era de tal forma que já não conseguia comer de faca e garfo, tinha de pousar o braço na mesa. Hoje já o consigo fazer, embora ainda sinta a tendência de pousar o braço”, acrescentou.

“Do ponto de vista estético, temos um membro com um volume duas a quatro vezes maior, mas também do ponto de vista funcional as doentes têm uma limitação muito grande”, esclareceu Gustavo Coelho.

O linfedema é muitas vezes associado ao cancro da mama, mas também pode acontecer por outro tipo de patologias, nos membros superiores e inferiores. A maioria dos linfedemas dos membros superiores desenvolve-se entre o primeiro e o segundo ano após a cirurgia oncológica, havendo no entanto observações clínicas de aparecimento tardio, mais de dez anos após a terapêutica inicial.

“Associado ao cancro da mama, a prevalência é muito alta. Pensa-se que cerca de 50% das cerca de seis mil mulheres que são mastectomizadas e submetidas à excisão dos gânglios linfáticos vão desenvolver linfedema do braço. Isto faz com que existam cerca de três mil novos casos de linfedema por ano em Portugal”, frisou Gustavo Coelho.

“Os benefícios desta técnica são óbvios, com uma franca melhoria dos sintomas como dor, melhoria significativa e duradoura da deformidade do membro afectado, mobilidade e um retorno da qualidade de vida que, infelizmente, estes doentes perdem com a progressão desta doença”, disse ainda o cirurgião.

O Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho afirma ser pioneiro em Portugal no tratamento do linfedema dos membros superiores com a técnica de transferência de gânglios linfáticos vascularizados submentoneanos (cervicais). O centro refere ainda que até agora o tratamento para o linfedema tem sido, maioritariamente, paliativo, com o objectivo de prevenir a progressão da doença e aliviar os sintomas. “As opções cirúrgicas disponíveis são muito limitadas e com resultados muitas vezes não satisfatórios.” Com a aplicação desta técnica, o Serviço de Cirurgia Plástica pretende tornar-se um centro de referenciação no tratamento desta patologia.

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