Uma sala, um biógrafo, 35 anos de GNR

Onde nem a Beladona Cresce é a história dos 35 anos de uma banda histórica. A história dos GNR, dos concertos em tractores aos estádios, do arrojo no boom à vontade de permanecer relevantes sem olhar para trás. Escreveu-a o jornalista Hugo Torres.

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e Tóli César Machado, o núcleo duro das últimas três décadas, são os guias da viagem por onde passa também o guitarrista Zézé Garcia (de pé)

Havia uma salinha na Porto Editora cheia de caixotes com dossiers, recortes de jornais, em resumo, papelada. Papelada importante. Ora muita e desorganizada, “com coisas repetidas e tudo” – eram o arquivo de Tóli César Machado –, ora em forma de álbum “mesmo bonito, todo direitinho, podia ser editado directamente dali, era digitalizar e estava pronto” – era o álbum que o pai de Rui Reininho foi criando com o que saía sobre o filho nos jornais e revistas. Toda a história estava ali, à espera de ser organizada, contextualizada, contada.

Desde 1981 até 2016 são 35 anos bem medidos. Os anos dos GNR, o Grupo Novo Rock que irrompeu boom do rock português dentro a olhar para o futuro – Portugal na CEE, cantaram em 1981 –, que manifestou a sua singularidade com o gosto ímpar pelas acrobacias e boas tropelias com as palavras de Rui Reininho e com as boas "avarias” sónicas nascidas em regime de Independança. Os anos do GNR, prossigamos que a história é longa, que se tornaram fenómeno de popularidade enquanto continuavam as acrobacias e boas tropelias com a língua e enquanto a música se aproximava de uma pop mais escorreita, mas longe de facilitismos – gostar das massas não tem, nunca teve, que equivaler a baixar a guarda da criatividade e descer ao mínimo denominador comum (e sai daí um Psicopátria, lá longe em 1986, e venha daí Caixa Negra, fresquinho de 2015).

Os GNR: decanos do rock cá da terra, homens ainda desejosos do que aí vem passados todos estes anos. “Nas perguntas sobre o passado eles estavam sempre a despachar porque é realmente uma coisa que não lhes interessa muito”, dirá Hugo Torres, jornalista do Público que assinou Onde Nem a Beladona Cresce, biografia editada pela Porto Editora para coincidir com a data redonda. Este mês, chegaram os concertos de celebração. O primeiro foi dia 5, no Multiusos de Guimarães, o segundo terá lugar no Campo Pequeno, este Sábado, com a presença dos convidados Isabel Silvestre, a voz de Pronúncia do Norte, Javier Andreu, o homem do dueto com Reininho em Sangue Oculto e Rita Redshoes, que ouvimos numa nova versão de Dançar sós, canção de Caixa Negra. O registo de ambos os concertos resultará na edição de um DVD. Mas voltemos à salinha na Porto Editora.

Foi a partir dali que Hugo Torres construiu Onde nem a Beladona Cresce – que é um verso de Ao Soldado Desconfiado. “Queria ser factual e contar a história da banda. É uma biografia oficial e isso fazia parte das regras do jogo”, explica. Daí que, falando no presente, reflectindo sobre os anos que foram passando, surja apenas aquele que é o núcleo duro da banda há cerca de três décadas, Rui Reininho, Tóli Cesar Machado e Jorge Romão. Para além deles, podia ter abordado, por exemplo, pessoas bem informadas sobre todo o percurso que alinhassem nesse olhar retrospectivo. Optou por não o fazer. “Há jornalistas que sei que gostam agora dos GNR e que olham com carinho para eles tal como são agora, mas, atrás no tempo, não foi bem assim. Eram críticos deles e faziam entrevistas acutilantes e agressivas. Se fosse falar hoje com essas pessoas”, diz, “iriam olhar para eles de uma forma muito linear". É por isso que a tal salinha se tornou tão central.

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Ali se contava a história iniciada em 1980 à volta de um núcleo formado por Tóli César Machado, Alexandre Soares e Vitor Rua (Rui Reininho chegaria um ano depois; Jorge Romão um ano depois dele). Uma história de voltas e contravoltas, de arrufos públicos (o longo mantido com Vitor Rua, por exemplo, vivido na imprensa da época, tal como relatado na biografia, como em moderna notificação de Facebook) e de vitórias estéticas (Independança, Os Homens Não se Querem Bonitos ou Psicopátria são clássicos indiscutíveis da música portuguesa). De sucessos retumbantes (In Vivo, Rock in Rio Douro) e de pedras no sapato que continuam a incomodar (“foram aos Estados Unidos, foram ao Brasil mais que uma vez, foram a Espanha ou França, investiram mesmo na internacionalização e a frustração foi muito grande quando perceberam que não dava”, conta Hugo Torres).

Humildes injustiçados

Em Julho de 2014, o autor de Onde nem a Beladona Cresce assinou uma crónica no PÚBLICO online dedicada a Reininho. Um excerto: “Vamos aos factos: o Reininho é o maior. O Reininho está-se nas tintas. O Reininho podia ser poeta, mas é letrista. O Reininho publicou na &etc. O Reininho declarou a morte ao Sol (ao “Sol”, percebem?)” – e assim continuava, elencando, à Hugo Torres possuído pelo espírito de Reininho, digamos, elogios sem freio ao vocalista dos GNR. Nascido na Póvoa de Varzim em 1984, é fã da banda desde que se lembra. Mergulhar na história da banda permitiu-lhe porém, descobrir os GNR de outra forma. Surpreendeu-o “a diversidade musical, as diferentes abordagens que têm à música ao longo de 35 anos”, diz. Mais: “[Durante a escrita do livro] encontrei-me a fazer as viagens todas. A ir para trás, a voltar à frente, a absorver a obra como todo um universo. Se ouvirmos o Independanças (álbum de estreia, 1982) e passarmos directamente para o Rock In Rio Douro (1992), parecerá estranho, mas toda essa estrada faz sentido”.

“Por outro lado”, prossegue, “surpreendeu-me perceber que arriscaram sempre um passo maior que perna. Percebiam que a perna estava lá para apoiar, mas só posteriormente”. Fala daquilo que hoje é banal, mas que à época foi um verdadeiro acontecimento, como a decisão de actuar no Coliseu dos Recreios, visto até então como palco exclusivo, no que à música em língua portuguesa diz respeita, da MPB e da música de intervenção – a imprensa musical exultou com a “conquista” que, gravado o concerto, resultaria no célebre In Vivo. Fala do caos, que poucos meses depois, chegaria com a actuação ao ar livre na Fonte Luminosa, Alameda, Lisboa, para o qual eram esperadas 10 mil pessoas, mas que multiplicou por várias vezes os números previstos pela organização. O resultado foi um caos absoluto e assustador. “Quando falava com eles sobre o tema, a cara dos três ficava instintivamente tensa. Ainda hoje”. Hugo Torres fala desses acontecimentos, fala da chegada aos estádios, no que foi uma estreia para uma banda portuguesa: aconteceu no de Alvalade, no auge da popularidade, em 1992.  

É com aquele episódio em mente que releva um dado “curioso” sobre os três GNR. “Por um lado, sentem-se injustiçados e acham que tiveram sempre que trabalhar mais que os outros, porque eram do Porto, porque estavam de fora, para se imporem. Olham para si mesmos como uma banda grande e capaz, que esteve na vanguarda e que teve uma importância histórica séria, mas, por outro, parece que fazem aquilo como se fossem miúdos. Sacar-lhes histórias de Alvalade, por exemplo, foi uma coisa… Percebem a importância que têm, mas por outro lado, olham para ela de uma forma ultra-modesta”.

A história de Onde nem a Beladona Cresce é a história de uma banda que se fez um dos faróis de modernidade e arrojo estético num país que, viu Hugo Torres mergulhado nos arquivos, “parecia uma coisa muito rural, muito rudimentar, muito desligada dos diferentes centros” – exemplo anedótico: “Há histórias de concertos dados em cima das pás dos tractores”. Depois, essa banda transformou-se num dos grande fenómenos de popularidade da cultura pop portuguesa e continuou a atravessar os tempos sem olhar para trás. “Tiveram sempre uma abordagem pop no sentido estético do termo, tanto na abordagem à música, como na forma como viviam as coisas. Depois, têm um percurso que os põe em momentos centrais da música portuguesa. Estão no início do boom, estão no momento alienígena que é o [António] Variações [o álbum de estreia, Anjo da Guarda, tem como banda suporte os GNR], têm a ousadia de fazer o Avarias [o tema experimental que ocupava todo o lado B do álbum de estreia], o que acho absolutamente extraordinário para uns tipos que tinham acabado de editar umas músicas meio punk que tinham vendido muito [Portugal na CEE e Sê um GNR]”, comenta Hugo Torres. “Acho que não há nenhuma outra banda que tenha permanecido relevante ao longo dos tempos, que tenha interagido de forma interessante com elementos chave da música nacional. E que, 34 anos depois, tenha feito um Caixa Negra, a que me fartei de voltar [enquanto escrevia]. Esse álbum acabou por ser uma espécie de rotunda para mim”, afirma.

Ei-los agora: Caixa Negra recebido como álbum a celebrar enquanto celebram 35 anos. Tóli o compositor, o homem profissional que é "a terra" que lhes dá chão. Reininho com "todo o seu universo, com um estilo próprio que já não vem de lado nenhum". E Jorge Romão a saltar com o baixo, "a curtir a dele". 1981-2016. Tudo o que está no meio, fica agora registado. Onde Nem a Beladona Cresce nasceu uma biografia.