Crítica

Melingo, sedutor do coração ao osso

No Misty Fest, na estreia portuguesa de Anda, Melingo deu em Lisboa um espectáculo glorioso no seu negrume. Perderam os que não estiveram no Tivoli BBVA, na noite de dia 4.

Foto
Melingo ao vivo, numa das suas passagens por Portugal PEDRO CUNHA

Dos espectáculos que Melingo nos deu a ver em Portugal, este foi o mais conseguido. Talvez por ser o mais conciso, o mais apurado na síntese, o mais desentranhado e febril. Cantor, mimo, actor, personagem tragicómica do coração ao osso (para citar uma canção sua), Melingo é ainda um sedutor nato que no seu Linyera (personagem que inventou no seu último disco e que ampliou no recém-lançado Anda) lembra Chaplin mas também um boémio caldeado no negrume do tango.

Mais uma vez, o excelente nível do espectáculo foi inversamente proporcional à afluência de público (tal como já sucedera na estreia de Linyera no CCB, em Abril de 2014, numa sala apenas semi-lotada), mas Melingo fez das ausências força e levou a assistência a render-se à sua arte. Dividido em duas partes, a primeira foi dedicada inteiramente ao novo disco (Anda, 2016) e a segunda juntou dois temas de cada um dos quatro discos anteriores (ao todo, ele já gravou oito), Santa Milonga (2004), Maldito Tango (2008), Corazón & Hueso (2011) e Linyera (2014). Esta sequência permitiu um olhar mais claro sobre o seu trabalho e os seus propósitos. Às histórias do vagabundo que ele encarna com fulgor e ironia, somaram-se outras inspiradas nas margens, nos territórios sombrios onde misérias várias andam a par com a celebração de uma vida sem rédeas.

Se viene el dos mil, instrumental que abre o disco, abriu também o espectáculo, com os músicos em cena: Lalo Zanelli (piano), Patricio Cotella (contrabaixo), Facundo Torres (bandonéon) e Muhammad Habibi (guitarra eléctrica). Depois entrou Melingo e desenrolou-se o “filme” de Anda. Primeiro com o popularíssimo e contagiante En un bosque de la China (o vídeo oficial lembra  um filme de Kusturica), depois com Sol tropical, Igualito que el tango, A lo megata, Intoxicated man (de Serge Gainsbourg, uma notável versão), Espiral, o instrumental Gnossienne (de Erik Satie) e, a terminar, o tema-título, Anda.

Por uns momentos, Melingo deixou o palco entregue aos músicos e estes entregues à feérica e irresistível Candonga. Vieram depois as outras histórias, sem que Melingo abandonasse as vestes negras de Linyera (leia-se ‘lindjéra’, como dizem na Argentina): Sin Luna (reconhecido aos primeiros acordes e logo aplaudido), Corazón & hueso e Julepe en la tierra (também aplaudido de início). Depois veio a impagável representação de Muleta de borracho, com Melingo a desatar os atacadores do sapato esquerdo, a descalçar-se, a tirar a meia, a cheirá-la, metendo-a no bolso e arregaçando nessa perna a calça até quase ao joelho. “Tengo una piedra en el zapato y me molesta/ Tengo un piedra no me deja caminhar/ La gente pasa ni siquiera me saluda/ Hasta me empujan y se rien al passar.” No fim, atirou a meia pelo ar, aterrando na segunda fila da plateia. Um delírio. Mas as pedras nos sapatos continuam, por mais ironias que as cubram. Na fila para chegar estava ainda Lucio, el anarquista, personagem arrancada a Corazón & hueso. Depois dele, o saudoso e melancólico En un bondi color humo e a exuberante La canción del linyera. Pelo meio, Melingo desmultiplicou-se: tocou clarinete e um bouzouki de caixa pequena, cantou sem microfone (quando este se “desfez” em irritantes feed-backs ou pura e simplesmente se estatelou no chão), andou pela plateia ou pela beira do palco em curtas e divertidas incursões e, com um sorriso suado pelo esforço da representação e do canto, arrancou à audiência merecidas palmas.

O final, um único encore que valeu por muitos, fez-se com Ayer (de Santa Milonga), que já fechara o espectáculo de há dois anos: “Del barrio me voy, del barrio me fui/ Triste melodía que oigo al partir/ Voy dejando atrás/ Todo el arrabal en mi recuerdo/ Rota la ilusión de mi esperanza/ Toda la razón de mi existir/ Este corazón se quedó solo también/ Buscando su consuelo en el ayer.” E assim, numa vénia, em várias vénias, se despediu Melingo e se despediram os seus músicos. Há-de voltar, será sempre bem-vindo.