Opinião

Quem muda a escola?

Se a escola precisa de mudar quem é quem assume o ónus, o projeto, a responsabilidade desta mudança? Frequentemente assiste-se ao lusitaníssimo “jogo do empurra”.

Antes de responder a esta pergunta, há uma outra que precisa de ser respondida: “A escola precisa de mudar?”.  Nem todos estaremos de acordo sobre a premência desta mudança. Para muitas pessoas o problema da escola é que ela se tornou demasiado permissiva, indisciplinada, laxista e facilitista.  Para estas pessoas, nada estaria errado com a escola se – tal como nos “bons velhos tempos” – a escola fosse exigente e disciplinada. Acrescentando um toque na atualização dos conteúdos, tudo estaria certo. A corroborar esta ideia perfilam-se diversos agentes: os pais que muitas vezes clamam por uma escola que fosse igual àquela em que estudaram, gestores e professores que  suspiram por viver numa escola cujos valores lhes são familiares e óbvios e – pasmem !  -  mesmo os alunos.  Há pouco tempo falava com uma professora que me contou que quando desenvolveu um trabalho mais inovador na escola – um trabalho em que os alunos estudavam uma parte da matéria e depois a apresentavam e discutiam com os colegas – recebeu por parte dos alunos uma forte oposição.  Diziam eles: “Mas não é assim que se dá aulas!”.  Quer dizer que até estes jovens, que frequentemente nós imaginamos como sedentos de inovação e liberdade, estranharam que as aulas, afinal, não fossem transmissivas e tradicionais como eles esperavam.  No entanto, a escola apesar de encontrar esta oposição - por vezes poderosa e “lógica” – precisa sim de mudar.  Hoje falaria para as pessoas - que desejo sejam a maioria dos meus leitores – que acham, como eu acho, que a escola precisa urgentemente de mudar.

Se a escola precisa de mudar quem é quem assume o ónus, o projeto, a responsabilidade desta mudança?  Frequentemente assiste-se ao lusitaníssimo “jogo do empurra”. Ouvimos as escolas dizerem que é ao Ministério é que cabe legislar para mudar as escolas, outras vezes se diz que é aos professores a quem compete fazer esta mudança e esta inovação nas práticas e mentalidades.  Outras vezes ainda, há opiniões que nos asseguram que todo o esforço de mudança da escola é inútil enquanto não mudar a sociedade.  Enfim, encontramos um rol imenso de responsáveis que apontam para outros responsáveis, como se toda a responsabilidade lhes fosse alheia.

Qualquer processo de modificação de uma estrutura tão rotineiramente organizada como é a escola, precisa certamente de uma confluência de ações dos seus intervenientes. Conhece-se a interminável discussão sobre a eficácia comparada dos modelos de inovação uns que atuam “de cima para baixo” outros que atuam ”de baixo para cima”.  Talvez em Educação precisemos de uma sinergia dos dois. 

Num sistema com o português seria muita ingenuidade menosprezar o papel que o Ministério da Educação tem nesta mudança.  Ao Ministério compete antes de mais assumir a desadequação do nosso modelo educacional – concebido antes do século XIX para alfabetizar futuros operários – para educar os alunos do século XXI. Hoje sabemos que é imprescindível a um bom modelo educativo fomentar a cooperação, a interação entre os alunos, a sua motivação para projetos. Sabemos que ao mesmo tempo que adquirem competências  e aprendem conteúdos, se devem tornar responsáveis, autónomos e solidários.  Precisamos por exemplo, que se legisle rapidamente para criar Áreas de Projeto nas escolas - áreas transversais - que diminuam o impacto do conhecimento hierárquico e transmitido em compartimentos estanques aos alunos.  Muitas outras matérias poderão ser legisladas: a valorização para efeitos de avaliação das escolas dos resultados dos alunos mais frágeis, a ligação da escola à comunidade, os projetos de adequação e diversificação curricular, etc. etc. etc.

Precisamos também de valorizar as mudanças que são provenientes do quotidiano das escolas, as mudanças que vêm “de baixo para cima”. Apesar de estarem muito sobrecarregadas com tarefas de que era urgente liberta-las, as escolas continuam a ser estruturas muito criativas.  Daqui nascem e se desenvolvem projetos que valorizam a equidade, a inclusão, a participação das famílias, a ligação à comunidade, novos modelos de pesquisa, novas formas de interação com o conhecimento.   O problema é que muitas vezes estes esforços são como um caudaloso rio que se esvai num árido deserto.  Quer dizer: muito deste trabalho não é sustentado, não é continuado e, de certa forma, a escola assume-se como uma estrutura de insucesso: é incapaz de reter de forma segura e consistente aquilo que aprendeu.  Que isto dizer que por vezes não são só os alunos que têm dificuldades de aprendizagem: as escolas também…

Quem muda a escola?  São todos os seus atores: mais uns do que outros.  Uns com mais responsabilidade do que os outros.  Certamente na primeira linha o Ministério, as gestões das escolas e os professores. Mas há algo que, sem duvida, é fundamental: se a responsabilidade da iniciativa é restrita, a responsabilidade da atuação e da inovação é partilhada por toda a comunidade escolar.  Uns apercebendo-me mais depressa do que outros, uns de uma maneira outros de outra. É assim na vida, é assim na inovação, é assim na Educação.