Editorial

Cinco anos não são dois meses

Cinco anos é muito tempo, não são os dois meses. E essa é outra provável diferença entre José de Matos e António Domingues. A julgar pelo ambiente criado à volta do actual presidente da CGD, ninguém pode garantir quem será o líder do banco público daqui a cinco anos. Ou daqui a dois meses

José Agostinho Martins de Matos. O nome dirá pouco à maioria dos portugueses. É apenas o nome de quem dirigiu a Caixa Geral de Depósitos (CGD) entre Julho de 2011 a Agosto de 2016.

José de Matos, como é conhecido, tinha um vencimento muito acima da média nacional, mas que representava metade do salário do actual presidente da Caixa. Enquanto dirigiu a CGD, o banco público estava sujeito às regras do Estatuto do Gestor Público, e como tal, do que é conhecido, José de Matos entregou todas as declarações a que estava obrigado, designadamente, no Tribunal Constitucional.

Hoje serão poucos os que se lembram do nome, apesar dos cinco anos em que liderou a Caixa. Porque foi um presidente discreto, como se diz que devem ser os banqueiros. Porque o actual presidente da Caixa, António Domingues, nos dois meses que leva de mandato, inundou a comunicação social com o seu nome.

Mas não são estas as únicas diferenças entre o mandato de um e outro.

José de Matos chegou à Caixa em 2011 e aceitou uma equipa de gestão que lhe foi imposta pelo accionista Estado, então representado por Pedro Passos Coelho.

Portugal vivia em ambiente de ajuda externa, os bancos em profunda crise e, em 2012, o Estado foi obrigado a socorrer os bancos.

A Caixa recebeu 1650 milhões de euros: um aumento de capital de 750 milhões de euros e mais 900 milhões via obrigações contingentes, as chamadas CoCo’s. O BCP recebeu 3000 milhões de euros do Estado em CoCo’s e o BPI 1500 milhões. Depois disso, tanto o BCP como o BPI fizeram aumentos de capital. Ou seja, os seus accionistas privados voltaram a por dinheiro nos bancos. A Caixa, zero. Nada. E o seu presidente teve de se aguentar com o que tinha, e que não era famoso. Pelo meio, o então primeiro-ministro mostrava preocupação pública por o banco não devolver as CoCo’s, que renderam ao Estado mais de 300 milhões em juros.

José de Matos garante que limpou mais de 5000 milhões de euros em imparidades. Os prejuízos foram, obviamente, muitos e nunca houve capacidade para devolver o que quer que fosse ao Estado. Nos restantes bancos, os prejuízos também foram enormes, mas conseguiram devolver os Coco’s ao Estado: o BPI na totalidade, o BCP ainda tem 750 milhões de euros para devolver.

António Domingues tem tido uma entrada diferente. Escolheu a equipa que quis. Nas condições que quis. E com a garantia de um gigante plano de recapitalização: não tem de devolver as Coco’s, o Estado entra com mais 2700 milhões de euros, o banco tem de garantir no mercado outros 1000 milhões e ainda recebe 500 milhões da Parcaixa. Tudo somado são 5100 milhões de euros.

E fica com outra grande diferença: sem a necessidade de proceder a uma limpeza de imparidades da magnitude do seu antecessor. A menos que haja surpresas. Mas essa hipótese é remota porque a Caixa mantém em 2016 o mesmo auditor que teve nos últimos anos e que certificou as contas, a Deloitte.

Terá sido, aliás, com base nesta convicção que José de Matos antes de sair disse que “quem estiver aqui [na CGD] daqui a cinco anos não terá de fazer as imparidades que nós tivemos de fazer. Garanto-vos“.

Cinco anos é muito tempo, não são os dois meses. E essa é outra provável diferença entre o mandato de José de Matos e António Domingues. A julgar pelo ambiente criado à volta do actual presidente da CGD, ninguém pode garantir quem será o líder do banco público daqui a cinco anos. Ou daqui a dois meses.