O pianista do Hermitage abre a porta

Entre a arte e a política, o retrato impressionista de Oleg y las Raras Artes faz a abertura oficial do Doclisboa.

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Que a noite de abertura de um festival lhe sirva de cartão de visita é perfeitamente normal. Que a primeira noite do Doclisboa retrate a edição de 2016 com tal precisão – viajando da intensidade confrontacional de Peter Watkins, o cineasta inglês alvo de uma das duas retrospectivas deste ano (Cinemateca, 19h e 21h30), e do falecido pugilista Muhammad Ali filmado por William Klein (Culturgest, 21h45), ao testemunho da secretária de Goebbels em A German Life (São Jorge, 21h30) e à revolução rítmica das novas músicas de África em Fonko (São Jorge, 21h45) – já o é menos. E não é também por acaso que a sessão oficial de abertura (Culturgest, 21h30) propõe um filme propositadamente “entre” categorias: nem retrato biográfico nem documentário de tema, Oleg y las Raras Artes vê o venezuelano radicado em Espanha Andrés Duque ir à Rússia filmar um artista que foi mal-amado nos tempos comunistas e que, mesmo hoje, parece ter ficado esquecido pelos recantos daquele enorme país.

À imagem da música do seu retratado, o pianista e compositor Oleg Karavaychuk (1927-2016), Oleg y las Raras Artes é um filme impressionista pensado como carta de amor, registo histórico e rendição boquiaberta a esta figura excêntrica, com qualquer coisa de andrógino, demasiado “visível” para o conformismo exigido na URSS. O “compositor maluco”, como era conhecido entre os vizinhos, escreveu muito para filmes (de Sergei Paradjanov ou Kira Muratova) e produções de palco, alegadamente por serem das poucas actividades que não lhe criavam problemas com as autoridades, mas – à imagem de muitos nomes talentosos cuja arte não procurava apenas servir o aparelho – só após a Perestroika o seu nome e as suas performances multi-disciplinares atravessaram o Cáucaso.

Nada disto, contudo, é directamente referenciado no filme de Andrés Duque, que se concentra em deixar Karavaychuk falar por si – ou antes tocar por si, em cenas rodadas no interior do museu Hermitage, em São Petersburgo, onde o pianista ora improvisa ora ensaia frente às câmaras num piano que pertenceu ao czar Nicolau II. O corpo frágil e a aparência remediada desaparecem para deixar apenas o fogo emocional da arte, a ideia de uma força da natureza libertada face às teclas, um arrebatamento impetuoso e impulsivo. Oleg y las Raras Artes encontra nesses momentos a sua “função” de celebração quase catártica, de reconhecimento da arte como algo que transcende a política mesmo quando não consegue escapar às limitações que lhe coloca – porque toda a arte é também política, não apenas por aquilo que revela, também por aquilo que esconde. Quando Andrés Duque filma Oleg Karavaychuk nas datchas de Komarovo, onde a elite soviética tinha as suas casas de fim-de-semana, ou no Hermitage comentando a boçalidade daqueles que não têm sensibilidade para as artes, está também a falar da história de um país e de uma cultura. E Cíntia Gil, directora do Doclisboa, já explicava a escolha de Oleg y las Raras Artes para a abertura do Doc por esse duplo estatuto de celebração das artes com retrato sociopolítico nas entrelinhas. É, também por isso, uma abertura representativa da intersecção criativa onde o Doclisboa quer estar.

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