Guterres quer pôr a “dignidade humana” no centro do trabalho da ONU

Tudo lhe pediram e ele respondeu lembrando os "problemas e os limites" da organização que em breve irá liderar. Confirmado por aclamação, sublinhou que "o sonho dos fundadores da ONU permanece por cumprir".

Guterres, depois da confirmação, no momento em que fez umas curtas declarações aos jornalistas
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Guterres, depois da confirmação, no momento em que fez umas curtas declarações aos jornalistas Drew Angerer/AFP

Quem falou antes de António Guterres na sessão em que o português foi confirmado por aclamação como novo secretário-geral pediu-lhe uma “liderança forte e independente”, “comprometimento com os valores da ONU“ ou “as urgentes reformas” por fazer nas estruturas das Nações Unidas. Pediram-lhe, em resumo, tudo. O português respondeu que está “absolutamente consciente dos problemas e dos limites” da ONU e do seu futuro cargo.

Os representantes regionais que falaram para confirmar o apoio de cada grupo de países à escolha do sucessor de Ban Ki-moon, que termina o seu mandato a 31 de Dezembro, não foram hesitantes nos elogios a Guterres. Todos sublinharam o “processo de candidatura aberto e exemplar” que culminou nesta confirmação, depois da recomendação formal do seu nome para o cargo por parte do Conselho de Segurança.

Nas palavras de Samantha Powell, embaixadora dos Estados Unidos, Guterres é “um candidato supremamente qualificado, que tem a paixão para usar este cargo para promover a paz e aliviar o sofrimento”. A sua escolha, começou por dizer Powell, responde “aos pedidos crescentes do mundo para uma ONU mais forte”. Na mesma linha falou o embaixador britânico, para quem “o mundo precisa de umas Nações Unidas fortes e ele é o melhor líder possível para garantir essa liderança”.

Matthew Rycroft acredita ainda em Guterres para “fazer avançar as muito necessárias reformas para permitir à ONU enfrentar os desafios deste século". O representante do Chile, Christian Barros, que falou em nome dos países da América Latina e das Caraíbas, também afirmou confiar que Guterres vai assegurar “uma liderança comprometida e independente”.

Ban Ki-moon, muito criticado precisamente por não ser considerado um líder forte nos seus dez anos à frente da organização que reúne 193 países, elogiou o português que bem conhece, com o seu mandato de secretário-geral a coincidir com o de Guterres à frente do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados. O seu sucessor, disse, “é talvez mais conhecido onde mais conta, nas linhas da frente dos conflitos armados e do sofrimento humano”.

Guterres foi primeiro-ministro de Portugal entre 1995 e 2002, algo que também foi lembrado como importante para garantir os seus “instintos políticos” e “a experiência necessária”. Tem 67 anos e substitui o diplomata sul-coreano, de 72. Escolheu três palavras para descrever o que têm sido as suas sensações: “gratidão e humildade”, desde que se soube nomeado; “responsabilidade”, agora que foi confirmado.

Guerras só com derrotados

Saltando do inglês para o francês e passando pelo espanhol antes de regressar ao inglês para agradecer a Ban “pela dedicação sem fim à paz mundial” e terminando, finalmente, em francês e em português (“le chemin est long”, “muito obrigado”), Guterres lembrou as viagens que fez nos últimos anos e perguntou: “O que é que nos aconteceu para ficarmos imunes a tanto sofrimento?” O secretário-geral designado, como será referido até tomar posse, a 1 de Janeiro de 2017 (o mandato dura até 2021), prometeu “fazer da dignidade humana o centro” do seu trabalho “e dos nossos esforços comuns”.

“A paz está em grande parte ausente do nosso mundo hoje”, afirmou. “A ONU tem o dever moral e a obrigação de garantir a busca da paz através da diplomacia, uma diplomacia que defenda a diversidade, uma diplomacia capaz de promover a resolução pacífica de disputas.” Lembrando o entusiasmo com que acompanhava, ainda no liceu, as aulas de História, Guterres disse que nessas aulas “no fim de cada guerra, havia sempre um vencedor” quando “nos conflitos de hoje só há derrotados”.

Guterres agradeceu aos funcionários das Nações Unidas, tendo sido ele próprio “um funcionário”, e aos “capacetes azuis” (as posições mais importantes do secretariado são os Assuntos Políticos, os Assuntos Humanitários e as Missões de Paz, disputadas por pesos-pesados, como a Rússia ou a China). "O sonho dos fundadores da ONU permanece por cumprir", disse ainda, antes de terminar. Segue-se um longo aplauso, com todos os presentes de pé.

Numa curtíssima conferência de imprensa, antes da longa fila de cumprimentos, Guterres respondeu a uma pergunta sobre a Síria, o conflito que concentra as grandes expectativas do arranque do seu mandato, tendo-se envolvido muito nele por causa dos refugiados (os sírios são quase 5 milhões, o maior grupo de refugiados do mundo).

“Ver os sírios a sofrerem tanto parte-me o coração”, disse, lembrando a “profunda solidariedade” de um povo que recebeu milhões de palestinianos e, depois, milhões de iraquianos em fuga da guerra. “Travar o sofrimento dos sírios é uma obrigação moral.”