Opinião

Um cargo vital

Quero em primeiro lugar felicitar muito calorosamente o engenheiro António Guterres pela sua eleição como secretário-geral da ONU. É uma grande e merecida honra para ele e é também uma importante distinção para o nosso país.

Logo no início do meu primeiro mandato como presidente da Comissão Europeia, tive a oportunidade de apoiar, nomeadamente junto do então secretário-geral da ONU Kofi Annan, a candidatura de António Guterres a alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Fi-lo não apenas por um sentimento patriótico, mas porque sabia que António Guterres desempenharia o cargo com grande competência e dedicação. E foi o que aconteceu. É pois com muita satisfação que vejo agora serem reconhecidas as suas qualidades pessoais e devidamente valorizada a sua experiência política internacional.

Desafia-me agora o PÚBLICO a brevemente elaborar sobre o significado deste cargo, tendo em vista a minha experiência na Comissão Europeia. O secretário-geral da ONU é inevitavelmente uma das mais importantes posições da vida pública internacional. Para além das funções executivas que advêm do facto de liderar o conjunto do sistema das Nações Unidas, o cargo permite grande visibilidade e confere enorme projecção política e diplomática ao seu detentor. A autoridade do cargo depende em larga medida do modo como ele for exercido. E estou certo de que António Guterres tem as qualidades para minimizar as inevitáveis dificuldades do mesmo (pois hoje o secretário-geral vê-se confrontado com um Conselho de Segurança muitas vezes paralisado e ineficaz) ao mesmo tempo que dele pode retirar todas as suas virtualidades: e, destas, a magistratura da moral e da influência é certamente uma das mais relevantes.

O cargo de secretário-geral dá também acesso, para além do próprio sistema das Nações Unidas, à participação de importantes fora internacionais. É disto exemplo o G20, onde durante vários anos tive a honra de participar, e que é hoje sem dúvida o mais importante fórum de decisão a nível económico no plano global, tendo aliás vindo a afirmar-se crescentemente na própria esfera da decisão política.

Há quem se interrogue acerca da importância que tem para o nosso país o exercício de cargos como este. Ora, o próprio exemplo do G20 dá-nos a resposta. Portugal não está como tal representado neste que é hoje o mais importante fórum de decisão mundial, mas termos um português a participar nessas reuniões é desde logo uma manifestação da nossa presença. E de um modo geral, mesmo que as funções desempenhadas sejam de natureza supranacional e intergovernamental, a verdade é que os detentores de cargos como o secretário-geral da ONU ou presidente da Comissão Europeia trazem sempre consigo a sua bandeira nacional sem necessidade de estar constantemente a desfraldá-la em público. E quando os outros na comunidade internacional olham para os titulares desses cargos vêem também o país de onde são originários. Estou pois seguro de que o mundo vai ver também em António Guterres uma certa forma de Portugal estar presente na vida internacional. E espero que António Guterres exerça o cargo com as qualidades tão portuguesas do equilíbrio, da moderação, da recusa dos extremos, da procura dos consensos e do gosto pelo compromisso.

Por isto devemos todos, como portugueses, congratularmo-nos por esta eleição. Quero nesta ocasião endossar também as minhas sinceras felicitações a todos os que contribuíram para que ela fosse possível, desde o Presidente da República ao primeiro-ministro e ao ministro dos Negócios Estrangeiros, e a toda a diplomacia portuguesa, com uma palavra especial também para o embaixador, representante de Portugal junto das Nações Unidas em Nova Iorque, doutor Álvaro Mendonça e Moura.

Que Portugal se congratule pois e que desejemos a António Guterres as melhores felicidades no exercício do cargo onde vai continuar a prestigiar o nosso país.

Ex-presidente da Comissão Europeia