E pela segunda vez aterrámos num cometa

A sonda Roseta pousou no cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko. Chegou ao fim uma missão que galvanizou pessoas de todo o mundo. Mas a investigação do cometa continuará.

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O cometa 67P fotografado pela sonda Roseta ESA
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Imagem obtida pela sonda Roseta a 1,2 quilómetros da superfície do cometa ESA
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O cometa 67P fotografado pela sonda Roseta ESA

A fotografia está desfocada. Sem haver uma escala, a paisagem que se vê pode ser um pedaço de areia com cascalho ou então um grande terreno cheio de pedregulhos. Só a aridez é inquestionável. São as palavras a acompanhar a imagem a preto e branco que lhe emprestam nitidez, significado e emoção: “Do 67P com amor: uma última imagem, obtida a 51 metros antes da aterragem no cometa. Missão cumprida.” A frase original, em inglês, tem as particularidades da escrita do Twitter: poucas dezenas de caracteres, três hashtag, zero pontos finais, ideias concisas. Mas esta entrada da conta da sonda Roseta naquela rede social diz-nos tudo. O tempo de vida do aparelho da Agência Espacial Europeia (ESA) terminou esta sexta-feira. A Roseta aterrou no cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko e adormeceu, para sempre.

O 67P continuará a dar voltas ao sistema solar. Desde Agosto de 2014, quando a Roseta se encontrou com ele, passámos a conhecer este cometa com um pormenor inédito. Nunca um aparelho humano se agarrou à gravidade de um cometa para o estudar. Visto como um todo, o 67P tem dois lóbulos – um maior e outro menor –, que lhe dão um ar de pato de borracha e uma cova na ponta. Mais de perto, a superfície do cometa é agreste, feita de cortes, com desfiladeiros, ravinas, mas também planícies, onde há rochas com metros de diâmetro.   

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A última imagem obtida pela Roseta, a 51 metros da superfície do 67P ESA

Com os seus 11 instrumentos científicos, a Roseta ajudou-nos a compreender essa paisagem complexa, longínqua e misteriosa. Até ao fim da sua vida, a sonda enviou fotografias e outros dados científicos sobre o cometa. A imagem final divulgada no Twitter, apesar de ter pouca qualidade, também simboliza esse diálogo com a Terra. Os seus frutos estão agora nas mãos dos astrofísicos da ESA e de outras organizações, que poderão estudar com profundidade o 67P e tentar encontrar respostas sobre a história do sistema solar e do nosso planeta.

“A Roseta entrou de novo nos livros de história”, disse Johann-Dietrich Wörner, director-geral da ESA, num comunicado divulgado esta sexta-feira pela ESA, pouco depois de ter chegado o sinal de que a sonda tinha fechado os olhos. “Hoje celebramos o sucesso de uma missão que mudou a forma de fazer as coisas, uma missão que ultrapassou todos os nossos sonhos e expectativas.” E que também fez sonhar, tornando-se uma das mais emblemáticas missões espaciais.

Palmas e abraços

Desde que saiu da Terra, a 2 de Março de 2004, a Roseta já percorreu 7900 milhões de quilómetros. Parte deles com o cometa (cuja órbita se situa entre Júpiter e um ponto entre a Terra e Marte), acompanhando-o na sua aproximação ao ponto mais próximo do Sol, o periélio, em Agosto de 2015.

Colado à Roseta, com 2900 quilos, veio o File, um robô de 100 quilos. O File protagonizou em Novembro de 2014 a conquista inédita (e atribulada) de aterrar no cometa 67P. O robô, que entretanto já adormeceu no mesmo lóbulo pequeno em que agora descansa a Roseta, tinha dez instrumentos científicos e usou com sucesso a maioria deles durante as cerca de 60 horas que se manteve activo, escondido nas sombras junto de uma ravina.

Os dados dos dois aparelhos permitiram descobrir que o 67P é um objecto feito de pó, minerais, moléculas orgânicas e gelo. Os dois lóbulos formaram-se independentemente, há cerca de 4600 milhões de anos, numa região fria e longínqua do sistema solar, quando o nosso canto do Universo estava no seu início de vida. Os lóbulos juntaram-se algum tempo depois. A água do cometa é de um tipo diferente da que existe na Terra, o que significa que a água na Terra não provém deste tipo de cometas.

A decisão de fazer colidir o aparelho no cometa é uma sequência natural do carácter científico da missão. Durante os últimos quilómetros da descida, a sonda foi comandada para medir a temperatura à superfície, a densidade do gás à volta do cometa, a aceleração das partículas que estão a ser projectadas para fora do 67P, o plasma, entre outros aspectos.     

Na quinta-feira, às 21h50 (hora de Lisboa), um comando accionou a sonda para a manobra de descida, a 19 quilómetros de altitude. A região de Ma’at, no lóbulo pequeno do cometa, foi a escolhida para alvo. Durante a descida, a Roseta foi divulgando fotografias e “falando” connosco. “Tão perto do cometa 67P… Agora sei exactamente como é que o File se terá sentido!”, lia-se no Twitter da sonda Roseta, por volta das 12h08, minutos antes do fim.

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Cientistas e engenheiros celebram o fim da missão no Centro de Operações Espaciais Europeu, em Darmstadt, na Alemanha DANIEL ROLAND/AFP

Às 12h19 desta sexta-feira, no Centro de Operações Espaciais Europeu, em Darmstadt, na Alemanha, o sinal electrónico da Roseta desapareceu. A sonda deixou de enviar sinais, calando-se para sempre. Houve palmas e abraços entre os vários técnicos e cientistas da missão. Pela segunda vez na história da exploração espacial, uma sonda aterrou num cometa.

“Estamos apenas a dizer adeus à sonda”, disse Matt Taylor, astrofísico da ESA que faz a ligação entre a equipa científica e a equipa de operações desta missão, ao PÚBLICO. “A ciência da missão continuará por muitos anos. É nisso que nos vamos concentrar a partir de agora. Foi por isso que, em primeiro lugar, elaborámos esta missão.”