Um terço dos alunos do profissional abandona os cursos antes do fim

O retrato do ensino em Portugal elaborado pelo Conselho Nacional de Educação apresenta o ensino secundário como "uma antecâmara" do abandono escolar.

Cerca ded 23% dos alunos do ensino regular terminam o secundário com pelo menos um ano de atraso
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Cerca de 23% dos alunos do ensino regular terminam o secundário com pelo menos um ano de atraso Adriano Miranda

A modalidade de ensino que o Governo quer privilegiar em Portugal é por agora a que regista uma maior percentagem de abandono: em 2014/2015, último ano com dados, 34% dos alunos que estavam em cursos profissionais desistiram. Uma das metas do Governo PS, também definida pelo anterior Executivo PSD/CDS, é o de ter pelo menos 50% dos alunos do ensino secundário a frequentar cursos profissionais.

Mas o panorama oferecido por estes cursos está longe de ser animador. À elevada percentagem de abandono, revelada no relatório sobre o Estado da Educação 2015, que será apresentado nesta segunda-feira, junta-se outro dado divulgado recentemente pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência: apenas 16% dos diplomados com cursos profissionais prosseguem para uma universidade ou politécnico. Já o mesmo acontece com 80% dos jovens dos chamados cursos científico-humanísticos.

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Entre estes últimos, segundo os dados divulgados no relatório do Conselho Nacional de Educação (CNE), apenas 12,6% abandonam esta modalidade de ensino antes da sua conclusão. Mas para além dos que desistem, há outros 22,8% que concluíram o secundário nos cursos científico-humanísticos com pelo menos um ano de atraso em relação à idade esperada.

"Elevadas taxas de retenção"

Para o presidente do CNE, David Justino, as elevadas taxas de retenção registadas no secundário fazem com que este ciclo de ensino funcione “como uma antecâmara do abandono” escolar. É o que escreve na introdução ao Estado da Educação. Apesar dos chumbos terem diminuído, pela primeira vez, em todos os ciclos de ensino, em 2014/2015, Portugal continua a ter “uma das mais elevadas taxas de retenção escolar da Europa”, frisa David Justino.

“Um pouco mais de um terço dos alunos com 15 anos tem já no seu trajecto pelo menos uma retenção. Mas se analisarmos os dados referentes aos alunos que estão a frequentar o ensino de nível secundário, essa proporção aumenta para mais de 40% e o número médio de retenções ultrapassa os dois anos, uma situação que é comum quer aos cursos gerais quer aos profissionalizantes”, alerta o presidente do CNE.

E, no entanto, apesar deste persistente insucesso escolar, os alunos portugueses registaram um dos maiores progressos dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) nos testes internacionais que são realizados de três em três anos para avaliar a literacia dos jovens com 15 anos de idade. Entre 2000 e 2012, registaram um aumento de 8% nos resultados dos testes PISA, o que se deveu sobretudo, frisa-se no Estado da Educação, à redução da proporção dos alunos mais fracos e também da percentagem de escolas, inseridas em meios desfavoráveis cujos alunos obtiveram resultados acima da média, cuja percentagem passou de 19% para 34%.

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“Porque é que essa evolução não se expressou nos testes nacionais?”, questiona David Justino, para acrescentar que estamos perante “duas tendências que não são compatíveis”. No relatório não se apresentam explicações para esta discrepância, mas o presidente do CNE deixa esta questão: será que “estamos a tratar bem” os nossos alunos?

A maioria destes, por seu lado, diz-se feliz na escola. Com base nos inquéritos realizados durante os testes PISA, reproduzidos também no relatório do CNE, fica-se aliás a saber que, “em 2012, os alunos portugueses foram os que mais consideraram ter um bom relacionamento com os professores (86%”), o que para 25% destes é uma das razões para se sentirem felizes na escola.