Grupo de Visegrado já tem estratégia de bloco para cimeira de Bratislava

Vai discutir-se o futuro da UE e os populistas Orbán e Kaczynski querem uma "revolução cultural": mudança nas estruturas e no processo de decisões e devolução de poder aos parlamentos nacionais.

Orbán é uma das vozes mais críticas dentro dos Estados-membros
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Orbán é uma das vozes mais críticas dentro dos Estados-membros LASZLO BALOGH/Reuters

Os quatro países do Grupo de Visegrado, Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia, vão apresentar uma posição conjunta na cimeira europeia que se realiza na próxima semana e onde será discutido o futuro da União Europeia depois da saída do Reino Unido.

Os quatro países, que fazem todos parte da UE desde 2004, formam um bloco dominado por partidos nacionalistas no Centro/Leste da Europa e argumentam que o resultado do referendo no Reino Unido, que determinou a saída deste país, mostra que os cidadãos se distanciaram da união. E expressaram a vontade de endurecer a sua posição perante a Comissão Europeia nos temas que já motivaram choques com Bruxelas, nomeadamente imigração e direitos humanos.

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, que tem estado na linha da frente desta linha dura, disse na reunião que o grupo realizou na quarta-feira na Polónia que o "Brexit" "oferece a oportunidade de corrigir os erros da UE", que descreveu como uma organização "rica mas fraca".

O primeiro-ministro eslovaco, Roberto Fico — cujo país detém a presidência rotativa da UE e por isso a cimeira informal realiza-se em Bratislava — disse que a 16 de Setembro será "lançado um mega projecto, um diagnóstico da saúde da UE", e "definido o remédio para a curar".

Na análise do Financial Times, o encontro confirma um cenário que já se delineava — os países da união estão a apurar a sua organização por grupos, tendo a faixa das ideologias mais conservadoras já traçado a sua estratégia. Na sexta-feira, os países do Sul vão reunir-se na Grécia para encontrar também um entendimento comum.

À margem da reunião do Grupo de Visegrado, Orbán, e o polaco Jaroslaw Kaczynski (o homem forte da Polónia, apesar de não pertencer ao Governo) alargaram a sua visão sobre o que deve ser a UE e que reformas devem ser feitas. Consideram que o "Brexit" abriu a oportunidade para uma "contra-revolução cultural" na União Europeia. Para ambos os líderes populistas e anti-imigração, este é o momento de reexaminar a UE.

"Gosto de falar com o secretário-geral Kaczynski porque os políticos europeus têm vistas curtas. Mas nós não", disse Orbán. Os dois condenaram a imigração, que "elimina as identidades históricas", criticaram o "capital internacional" e exigiram uma nova e diferente visão da UE.

"Há um ditado na Hugria que diz que se confiamos mesmo numa pessoa podemos roubar cavalos juntos", disse Orbán, que governa o país desde 2010, quando seu partido Fidez venceu as legislativas. "Há alguns estábulos onde podemos roubar cavalos com os húngaros, em especial um grande estábulo chamado União Europeia", respondeu Kaczynski, líder do Partido Lei e Justiça (Beata Szydlo é a primeira-ministra).

Kaczynski pôs em prática na Polónia o modelo que diz admirar na Hungria e a que chama "democracia não liberal" — o Estado controla os media, o aparelho judicial foi enfraquecido perante o poder político e foram realizadas nacionalizações em indústrias chave e na banca, resume o FT.

"O Brexit é uma oportunidade fantástica para nós. Estamos num momento cultural histórico", disse Orbán. "Existe a possibilidade de realizar uma contra-revolução cultural neste momento". "Devemos esperar pela iniciativa dos outros, ou devemos tomar nós a iniciativa", perguntou, respondendo que devem tomar a iniciativa.

Esta revolução significa, na opinião dos dois dirigentes, mudar a estruturas da UE, o processo de decisões e devolver mais poder aos parlamentos nacionais.