Morreu Maria Isabel Barreno, que “foi mais do que uma das 'Três Marias'"

Foi uma das autoras de Novas Cartas Portuguesas, uma das obras mais perseguidas pela ditadura e que abriu caminho para o debate sobre a igualdade de género.

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Maria Isabel Barreno, fotografada em 2006 Luís Ramos
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Maria Teresa Horta (à esquerda) e Maria Isabel Barreno (à direita), em 2010 Daniel Rocha

A investigadora e escritora Maria Isabel Barreno, que foi uma das "Três Marias" juntamente com Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, morreu este sábado, aos 77 anos. A notícia foi avançada pelo Expresso e confirmada ao PÚBLICO por uma amiga. A cerimónia de cremação está marcada para este domingo, às 16h, no cemitério dos Olivais.

Apesar da sua obra prévia, foi com as Novas Cartas Portuguesas, que escreveu a seis mãos com com Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, em 1972, que Maria Isabel Barreno se tornou um nome incontornável da literatura portuguesa. O livro, acusado de pornografia e perseguido pelo Estado Novo, viria a estar no centro do processo que ficou conhecido como as "Três Marias". O julgamento durou dois anos e foi seguido de perto pela imprensa e pelos movimentos feministas internacionais, que organizaram manifestações de protesto juntos às embaixadas e consulados portugueses em Londres, Paris e Nova Iorque. A conclusão do caso ocorreu já depois da Revolução de 25 de Abril de 1974 e as três escritoras foram absolvidas.

"Quando escrevemos as Novas Cartas Portuguesas, sabíamos que a obra em si já era uma ousadia, independentemente do vocabulário que viéssemos a usar – mas era o que nos interessava escrever naquela altura e por isso fomos para diante", recordava Maria Isabel Barreno ao PÚBLICO em 2009. A ideia de o livro acabar em tribunal, no entanto, não lhe passara pela cabeça: "Nunca pensei que o regime – até porque estávamos em pleno marcelismo e havia a ideia de que a abertura era outra – caísse na asneira de nos levar a tribunal. O destino mais comum dos livros era serem apreendidos, e até havia livrarias especializadas em livros proibidos, ninguém imaginava que o regime voltasse a cometer o erro que tinha cometido anos antes com a Natália Correia [condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, em 1966]."

“Nas novas cartas que as três Marias escreveram anonimamente, diversas vozes falam da condição da mulher, da sua submissão à ordem patriarcal e burguesa, de violência doméstica e de género, de aborto, violação, incesto, pobreza, censura, e de expressão sexual feminina”, escreveu o PÚBLICO em 2010, a propósito da reedição da obra em Portugal.

As Novas Cartas Portuguesas adquiriram o estatuto de tratado sobre os direitos das mulheres em Portugal, mas acabaram por extravasar essa intenção inicial. “É um libelo contra todas as formas de opressão”, dizia ao PÚBLICO a académica e escritora Ana Luísa Amaral, autora das anotações à obra na reedição de 2010.

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As Três Marias, durante o julgamento DR

Já depois da notícia da morte da escritora, Ana Luísa Amaral quis lembrar que “o contributo que Maria Isabel Barreno traz para as Novas Cartas Portuguesas tem mais a ver com a dimensão ensaística, que no caso dela é notável”, e terá sido muito importante para o diálogo que se foi gerando entre as três escritoras, “o que não quer dizer que tenha sido ela a escrever os textos de cariz mais ensaístico no livro”. Perceber as razões da tradicional inferiorização das mulheres face aos homens foi uma questão que a ocupou ao longo da vida, diz também Ana Luísa Amaral, mas a sua preocupação era sobretudo com o humano e ficou espelhada em O falso neutro: um estudo sobre a discriminação sexual no ensino (1985). “Os ensaios dela estão muito esquecidos e deviam ser reeditados", recomenda. 

Mas do ponto de vista do feminismo, que Maria Isabel Barreno inscreveu insistentemente na sua obra literária, a autora tem uma outra obra de referência: A Morte da Mãe. Escrito ao longo da década de 1970, e publicado em 1979 pela Moraes, é um importante estudo sociológico e filosófico sobre a evolução histórica da situação da mulher na sociedade. O editor da Caminho, Zeferino Coelho, considera que é o melhor da escritora, merecendo "figurar numa biblioteca do século XX”, disse ao PÚBLICO. É um “livro extenso e muito inteligente sobre a condição da mulher”, onde Maria Isabel Barreno faz “uma revisão de toda a problemática da mulher com muita inteligência” e com “uma escrita que serve essa inteligência”. Foi isso que mais impressionou o editor que o reeditou em 1989. 

Também o editor João Rodrigues, da Sextante, que em 2009 publicou aquele que viria a ser o último romance da autora, Vozes do Vento, sublinha que Maria Isabel Barreno “foi mais do que uma das 'Três Marias'": "Era uma ficcionista com uma voz própria muitíssimo interessante, de uma sobriedade enorme. O romance e os contos são excepcionalmente bons”, disse ao PÚBLICO.

Maria Teresa Horta, ainda em choque pela morte da amiga, lembrou-a à agência Lusa, como "uma mulher excepcional, inteligentíssima, muito culta e muito leal", e recordou A Morte da Mãe como uma obra muito importante que devia ser reeditada rapidamente. "Foram muitos anos desde que nos encontrámos a primeira vez e que eu lhe fiz uma entrevista para o jornal A Capital, para o suplemento literário, que era coordenado por mim", acrescentou. "Não é só um escritor, é um escritor com quem eu escrevi, e uma pessoa quando escreve com alguém é para sempre, é eterno, não há nada a fazer. A nossa eternidade é que, pelos vistos, como se vê pela Isabel, é muito curta", concluiu.

Juntas, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno fundaram também o Movimento de Libertação das Mulheres.

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Numa nota de pesar enviada às redacções, o ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes destacou a "voz activa" de Maria Isabel Barreno na defesa dos direitos das mulheres, acrescentando que "a riqueza do seu pensamento e o rigor dos seus princípios em muito contribuíram para termos hoje uma sociedade mais justa, livre e igualitária".

Também o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, destacou que a obra de Isabel Barreno vai muito além das Cartas", apontando os romances, as novelas e os contos da autora que "procuram sempre uma forma de conhecimento da realidade portuguesa": "Conhecimento psicológico e sociológico, empírico e filosófico, em contexto quotidiano e doméstico ou em registo fantástico. E é esse conhecimento que fundamenta a recusa da dominação das mulheres e da submissão aos 'legítimos superiores'", diz uma nota publicada no site da Presidência.

Entre a filosofia e a ficção

Maria Isabel Barreno nasceu em Lisboa em 1939. Estudou num colégio de freiras, o Colégio do Sagrado Coração de Maria. A leitura foi, como dizia, uma paixão precoce, motivada por uma doença aos seis anos. Começou por escrever poemas, que nunca publicou. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Industrial, foi jornalista (chegou a ser chefe de redacção da edição portuguesa da revista Marie Claire, lugar para o qual foi convidada por Maria Elisa) e conselheira na área cultural da embaixada portuguesa em Paris (a convite de  Ana Benavente, em 1997), onde se radicou, tendo terminado funções com o Governo de Durão Barroso numa época em que enfrentou muitos problemas pessoais e morreu o seu filho mais novo.

A sua geração literária, situa ao PÚBLICO Miguel Real, é a da década de 60, a mesma de que emergiram Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Almeida Faria ou David Mourão-Ferreira enquanto contista. E esta foi uma geração muito desconstrutivista: “Os romances de Maria Isabel Barreno desconstroem toda a estrutura clássica do romance anterior”, aponta o escritor e crítico literário, repetindo que além das Novas Cartas Portuguesas Maria Isabel Barreno escreveu “um dos hinos feministas do romance em Portugal, A Morte da Mãe", em que opera uma ligação contínua entre filosofia e literatura. “É uma desconstrução de todas as instituições da família através do pai e da mãe, da escola através do professor, da política através da subversão do político; este romance-ensaio é um dos principais da obra dela”, frisa Real.

Para o escritor, o outro romance nuclear da obra de Maria Isabel Barreno é O Senhor das Ilhas, de 1994, segundo volume da trilogia iniciada dois anos antes com O Chão Salgado. A autora já abdicara então de fazer "filosofia dentro do romance” e centra-se na história de um antepassado do seu pai que foi povoar o Sal, no arquipélago de Cabo Verde, introduzindo a exploração do sal numa ilha que até ali era uma colónia penal. “Aqui, embora fragmentariamente, aceita as narrativas clássicas: o tempo, o espaço, a acção e o contar uma história", nota Miguel Real. 

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Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, as três Marias DR

A obra de Maria Isabel Barreno vai da Sociologia (publicou Adaptação do Trabalhador de Origem Rural ao Meio Industrial Urbano em 1966; em 1968 foi co-autora do volume A Condição da Mulher Portuguesa, dirigido por Urbano Tavares Rodrigues) ao romance e ao conto e estende-se ao longo de 20 títulos. De noite as árvores são negras, de 1968, foi o primeiro romance, a que se seguiu, em 1970, Os Outros Legítimos Superiores (Folhetim de Ficção Filosófica), também publicado pela Europa-América. O seu livro de contos Os Sensos Incomuns (1993) recebeu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco e o galardão do Pen Club; dois anos antes, o romance Crónica do Tempo venceu o Prémio Fernando Namora.

Em 1998 publicou A Ponte com o pseudónimo de Ricardo Caeiro na Dom Quixote de Nelson de Matos, livro que em 2004 foi reeditado. Nessa altura, deu uma entrevista ao JL - Jornal de Letras em que explicava que quis fazer um jogo, tal como Doris Lessing em Inglaterra. "A ideia era saber se, com um nome desconhecido na capa, as pessoas conseguiam adivinhar de quem era o texto", dizia Maria Isabel Barreno à jornalista Maria Leonor Nunes. O livro que tinha uma cinta onde se dizia que era de um autor conhecido não teve grande repercussão. A académica Maria Alzira Seixo escreveu um texto sobre ele e, na altura, contava a escritora nessa entrevista, só uma pessoa tinha adivinhado de quem era o livro: "Inês Pedrosa, que nem conheço muito bem. Há pessoas  que conheço melhor, que tinham obrigação de conhecer a minha escrita, e não adivinharam. De resto, as pessoas colaram-se à personagem-autora e tentaram imaginar um escritor, homem...", dizia.

O seu derradeiro romance, Vozes do Vento, publicado após uma pausa de 15 anos na escrita, aprofundaria a matéria biográfica que já havia abordado no anterior O Senhor das Ilhas (1994), ampliando a panorâmica não só sobre essa saga familiar, pessoal, como sobre a aventura colonial, com todas as suas violências e disfunções, e o nascimento de uma nação. Em 2010, editou ainda o livro de contos Corredores Secretos.

Com Catarina Gomes e Inês Nadais

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