Larry King na folha de pagamentos do bloco pró-russo da Ucrânia

Jornalista veterano norte-americano terá recebido 200 mil euros para entrevistar o então primeiro-ministro ucraniano. Dinheiro proveio de saco azul ligado ao ex-director de campanha de Donald Trump.

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King mantém dois programas na estação russa Russia Today, depois de se ter desvinculado da CNN, em 2012 Radovan Stoklasa/Reuters

É um potencial caso de corrupção jornalística que envolve um dos principais rostos da televisão mundial e é mais um capítulo de um escândalo que também estará na base da demissão, na sexta-feira, do director de campanha de Donald Trump.

Larry King, o veterano jornalista norte-americano que foi um dos principais nomes da CNN, é acusado de ter recebido 200 mil euros em 2011 pela participação numa operação de lavagem de imagem do então primeiro-ministro ucraniano Mykola Azarov, figura maior do regime de Viktor Ianukovich. O nome de King e o referido valor aparecem numa folha de pagamentos de um saco azul do Partido das Regiões, pró-russo, que é alvo de uma investigação da agência ucraniana de luta contra a corrupção. Os dados foram divulgados pelo jornalista Serhiy Leschenko, que também é deputado pelo partido do Presidente Petro Porochenko, e citados pelo jornal britânico The Guardian.

O pagamento não declarado está a ser ligado a uma entrevista conduzida em Kiev numa altura em que os Estados Unidos e a União Europeia apelavam à libertação de Iulia Timochenko, à data a maior adversária de Ianukovich e Azarov, detida no âmbito de um processo por corrupção que, para a então oposição ucraniana e os aliados ocidentais, teve motivações políticas. A prisão de Timochenko, no entanto, foi apenas mencionada indirectamente numa conversa de teor amigável entre King e Azarov. “Do que é que gosta mais no seu trabalho?” ou “Como está a sua saúde?” foram algumas das perguntas colocadas pelo jornalista. Após a entrevista, foram públicos os elogios de King a Azarov, com o jornalista a declarar que o ucraniano era “uma pessoa frontal e honesta” e que teria sido “um político de sucesso nos Estados Unidos”, comparando-o a Jimmy Carter.

Em 2014, perante uma inédita onda de revolta popular, Azarov e Ianukovich acabariam por fugir para a Rússia, que ocuparia parte do país vizinho. O antigo Presidente é agora acusado de corrupção, de desvios de fundos e da morte de uma centena de civis durante os protestos de Kiev. Azarov é também alvo de um mandado internacional de captura.

A entrevista seria uma das peças de uma campanha mais vasta do Partido das Regiões para influenciar a opinião pública internacional, e em particular a norte-americana, a favor de Ianukovich. Outro dos nomes ligados ao saco azul é o de Paul Manafort, que até sexta-feira era director de campanha de Donald Trump. O estratega norte-americano é acusado de ter recebido ilicitamente cerca de 11 milhões de euros que, em parte, e segundo a Associated Press, terão sido canalizados para operações de lobby político nos Estados Unidos. A forma como estas operações foram conduzidas, ocultando a tentativa de um regime estrangeiro de influenciar a política de Washington, podem constituir um crime punível com uma pena de prisão de até cinco anos, refere a agência noticiosa.

Manafort, que nega ter participado em qualquer actividade ilícita, abandonou a campanha de Trump numa altura em que o candidato republicano à Casa Branca cai nas sondagens. O mau desempenho da campanha e as dificuldades de relacionamento de Trump com a equipa de Manafort foram apresentados pelo campo republicano como o motivo para o afastamento do estratega. No entanto, existe uma coincidência temporal entre a saída de Manafort e as notícias vindas da Ucrânia.

As ligações de Manafort ao círculo político e pessoal de Ianukovich são apresentadas pela campanha da democrata Hillary Clinton como um dos indícios do ascendente do Presidente russo Vladimir Putin sobre Trump. Durante a campanha, o candidato republicano fez elogios ao líder russo e desafiou Moscovo a aceder ilicitamente aos sistemas informáticos da sua adversária.

Em Julho, Clinton acusou os serviços secretos russos de terem acedido aos servidores do Partido Democrata. Os ficheiros e emails roubados seriam divulgados através do site de denúncias Wikileaks em vésperas da convenção democrata, revelando suspeitas do favorecimento da campanha de Clinton pelo partido, em detrimento do rival Bernie Sanders. Na altura, o activista australiano Julian Assange, fundador do Wikileaks, recusou revelar a fonte da fuga de informação.

Assange, que se encontra exilado na embaixada do Equador em Londres desde 2012, foi nesse ano um dos rostos do canal Russia Today (RT). Também King mantém dois programas na estação russa, depois de se ter desvinculado da CNN naquele ano.

A transferência de King para o RT foi então recebida com surpresa. Dois dos principais instrumentos de propaganda internacional de Moscovo, o canal e o respectivo site, fundados e financiados pelo Kremlin, têm sido criticados por uma abordagem sensacionalista e por veicularem teorias da conspiração antiocidentais. No Reino Unido, em 2015, a Ofcom, o órgão regulador da comunicação social, considerou enganosas ou parciais várias peças sobre os conflitos na Síria (onde a BBC era acusada de encenar um ataque químico) e na Ucrânia (onde o Governo de Kiev era condenado pelo “genocídio” da minoria russa), obrigando a estação a emitir uma rectificação.

Vários jornalistas estrangeiros têm abandonado o canal russo em protesto contra a linha editorial. Sara Firth, correspondente em Londres, demitiu-se em reacção à cobertura da queda do voo MH17 da Malaysia Airlines, que o RT atribuiu às forças militares ucranianas. Liz Wahl, correspondente nos Estados Unidos, demitiu-se em directo perante o que considerou ser o “branqueamento das acções de Putin” na Ucrânia.