China lançou satélite “quântico”, uma estreia mundial

Aparelho irá testar comunicações encriptadas que utilizam os fotões.

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Descolagem do foguetão que pôs no espaço o satélite chinês STR/AFP

A China lançou o primeiro satélite de comunicações quânticas a nível mundial, um avanço tecnológico do país, que ambiciona construir um sistema inviolável de comunicações encriptadas.

A descolagem ocorreu no Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan, localizado no deserto de Gobi, no Noroeste da província de Gansu, à 1h40 locais (18h40 de segunda-feira em Lisboa), anunciou a agência noticiosa oficial Xinhua. Este lançamento surge numa altura em que os Estados Unidos, o Japão e outros países sonham também em afirmar-se através desta tecnologia, que está em desenvolvimento.

A China investiu muitos recursos financeiros nesta maratona tecnológica – um dos seus numerosos investimentos em investigação científica de ponta, que vão deste a exploração de minério nos asteróides até à manipulação genética. Este satélite é o último avanço no ambicioso programa espacial da China, uma das suas prioridades, ou não tivesse o Presidente chinês Xi Jinping incentivado o país a estabelecer-se como potência espacial. Para lá das ambições civis ligadas ao espaço, a China já testou mísseis anti-satélites.

Baptizado Mo-Tsé, em homenagem ao filósofo chinês do século V a.C., o satélite será utilizado para demonstrar o interesse da tecnologia quântica nas comunicações de longa distância. A diferença em relação aos métodos clássicos de transmissões seguras de mensagens é que este sistema utiliza os próprios fotões – que se comportam como ondas e partículas de luz – para enviar as chaves de encriptação necessárias para a descodificação da informação. Os dados contidos nestes fotões são impossíveis de interceptar: todas as tentativas de espionagem provocarão a sua autodestruição, explica a agência de notícias chinesa.

“Numa missão de dois anos, o satélite está concebido para estabelecer comunicações quânticas à prova de piratas informáticos através da transmissão de chaves invioláveis do espaço para o solo”, especificou a Xinhua, citada por sua vez pela agência Reuters. “As comunicações quânticas terão uma segurança ultra-elevada, uma vez que não se pode separar nem duplicar um fotão”, acrescentou. “Por isso, é impossível espiar, interceptar ou descodificar a informação transmitida através dele.”

Os cientistas já demonstraram a eficácia desta tecnologia na transmissão de mensagens em distâncias curtas: o recorde actual aproxima-se dos 300 quilómetros, segundo um artigo na revista científica Nature. Mas os obstáculos técnicos tornam, por agora, as comunicações de longa distância difíceis de alcançar. O satélite chinês tentará enviar mensagens encriptadas entre Pequim e Urumqi, a capital da região de Xinjiang (no Noroeste do país), ao longo de uma distância de quase 2500 quilómetros.

Esta operação requer que o satélite esteja orientado de maneira extremamente precisa em direcção às estações de recepção em terra, explica ainda a agência chinesa. “Será como lançar uma moeda de um avião a 100 quilómetros de altitude e esperar que venha acertar na ranhura de um mealheiro em rotação”, explicou Wang Jiany, um dos responsáveis do projecto.

O desenvolvimento da tecnologia quântica é encarado como crucial para a China, que a incluiu no seu último plano quinquenal publicado em Março deste ano e já declarou que é uma das suas prioridades nacionais.

“Este satélite marca uma viragem no papel da China – de seguidor em matéria de desenvolvimento de tecnologias de informação a líder que levará a sucessos futuros no sector”, sublinhou Pan Jianwei, responsável pelo satélite. A China “espera criar uma rede mundial de comunicações quânticas em 2030”, acrescentou.

As revelações do antigo consultor Edward Snowden sobre as operações de espionagem da Agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA) reforçaram os esforços chineses de desenvolvimento tecnologias à prova de pirataria. Na realidade, as comunicações quânticas oferecem “perspectivas enormes” na área da Defesa, frisou ainda Pan Jianwei. A China tem insistido que o seu programa espacial tem fins pacíficos, mas o Departamento de Defesa dos Estados Unidos já sublinhou que as capacidades espaciais chinesas são crescentes e que as suas actividades se destinam a evitar que os adversários usem os recursos espaciais em situação de crise.

A China faz igualmente parte do grupo de alguns países que trabalham na criação do primeiro computador quântico do mundo. Uma máquina dessas, graças às propriedades das partículas subatómicas, poderá efectuar cálculos a velocidades fulgurantes, bastante mais rápidas do que as tecnologias actuais.

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