A tragédia “roubou” o arraial à Senhora do Monte

As festas de uma das mais populares romarias da Madeira foram canceladas devido aos incêndios. Neste fim-de-semana apenas se realizam as cerimónias religiosas. Populares agradecem à santa não ter havido uma tragédia ainda maior.

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Este ano a Romaria de Nossa Senhora do Monte não se realiza. A romaria, que se calcula ter lugar há mais de 400 anos, devia começar na noite deste sábado, mas foi cancelada devido à tragédia que os incêndios do início da semana causaram na Madeira.

A Freguesia do Monte, bem no cimo da encosta que desce até ao Funchal, foi uma das mais atingidas pelas chamas. Na zona foram destruídas ou atingidas pelas chamas 56 das 150 casas afectadas em toda a ilha. “A tragédia foi muito grande, não fazia nenhum sentido estar a fazer a festa”, explicou ao PÚBLICO Idalina Silva, presidente da Junta de Freguesia do Monte.

A decisão não foi fácil, diz a autarca. O arraial de homenagem à padroeira da Madeira é um dos mais tradicionais da região e leva à freguesia todos os anos, entre 14 e 15 de Agosto, milhares de pessoas que enchem dezenas de barracas de comes e bebes.

“Agora temos de olhar é para as muitas pessoas que estão em dificuldades, para os desalojados e começar rapidamente as obras de recuperação”, diz Idalina. Por isso, após acordo com o pároco local, pediu à Câmara do Funchal que cancelasse o arraial popular. Manteve, porém, todas as cerimónias religiosas. As novenas, que começaram no dia 5, só foram interrompidas na passada quarta-feira, para limpeza da igreja, que ficou cheia de cinzas trazidas pelo vento, e, neste domingo, a procissão voltará a sair às ruas.

A presidente da junta admite que o cancelamento dos festejos não “agradou a todos”, especialmente aos cerca de 100 comerciantes que já tinham obtido licença para o negócio, mas diz saber que a população em geral está de acordo com a sua decisão. “Peço às pessoas que vão participar nas cerimónias religiosas que este ano façam a tradicional homenagem à Senhora do Monte, mas que nas suas orações façam também uma homenagem aos muitos que sofreram com os incêndios”, pede a autarca.

A igreja não deixou por isso de ser engalanada. Ao início da tarde desta sexta-feira alguns fiéis ainda enfeitavam os altares com centenas de flores. No interior e no exterior do local de culto, moradores cruzavam-se com dezenas de turistas que continuam a visitar a freguesia. Agora, a atenção dos visitantes, os seus telemóveis e camaras fotográficas focam-se mais na serra e nas casas ardidas do que na magnífica paisagem que desce até ao Funchal.

Vestígios da "noite do terror"

À entrada da igreja, Margarida Pires, 68 anos, coloca três velas junto a outras dezenas que já ardem num pequeno altar. Agradece à Senhora do Monte ter “salvo” a sua casa e a saúde do filho, da nora e da neta de seis anos. A sua fé fá-la acreditar que a santa “ajudou a que a tragédia não fosse ainda maior”.

José, 83 anos, e Maria Abreu, com 75, também falam no “milagre que salvou” a sua casa. A habitação tinha sido levada pelas águas nas enxurradas de Fevereiro de 2010, agora ardeu tudo em redor da casa reconstruída, mas esta salvou-se das chamas. O casal teve a sorte de a sua casa ficar por baixo da base do teleférico e dos funcionários do transporte que liga o alto da serra à baixa do Funchal terem “despejado muita água sobre o telhado. “Valeu-nos a Nossa Senhora do Monte”, acredita Maria.

Menos sorte teve Francisco Gama, de 72 anos. Na madrugada de terça-feira teve de abandonar a casa à pressa. Os bombeiros salvaram a habitação, mas não conseguiram poupar a garagem, onde arderam os seus dois carros, e a fazenda que rodeia a habitação. “Eram dois Mercedes, um comprado recentemente para oferecer à minha filha”, lamenta.

Com as feridas causadas pelo fogo ainda vivas no rosto, Francisco recorda “a noite de terror”. “Fugi serra acima pelo meio do fogo. Crianças e idosos fugiam como podiam. Ainda salvei uma velhota que caiu na estrada e não se conseguia mexer. Levei a senhora às costas até chegar a carrinha da polícia que nos salvou”, conta.

 A dimensão da tragédia que atingiu a Madeira é visível de forma clara na viagem na cabine do teleférico da Madeira que sobe até ao cimo da freguesia do Monte. O fogo desceu do cimo da serra até ao Funchal, mesmo por baixo das torres que sustentam os cabos de aço do teleférico. As chamas galgaram estradas em pontes deixando uma imensa mancha negra do cimo da encosta até à cidade grande. São visíveis muitas casas e edifícios queimados, mas na grande maioria estão intactas, embora rodeadas por mato queimado.

A presidente da Junta de Freguesia diz que “não arderam mais habitações graças ao trabalho extraordinário dos bombeiros e dos populares, que tudo fizeram para salvar os bens das pessoas”.

Casas roubadas após os fogos

Além da reconstrução da freguesia, Idalina Silva tem tido por estes dias outra preocupação: os munícipes fizeram-lhe chegar relatos de furtos a casas que foram abandonadas à pressa devido aos incêndios. “Os roubos parecem ter acabado agora, porque a polícia está mais atenta, mas nos dias a seguir ao incêndio [terça e quarta-feira] chegaram notícias de casas saqueadas. Há sempre bandidos oportunistas que aproveitam as desgraças dos outros”, lamenta.

Por isso, Idalina Silva pede à população que ficou na freguesia que “se mantenha atenta” e não deixe de comunicar às autoridades “pessoas suspeitas que rondem as casas abandonadas”.

Para já, a sua intenção e dos funcionários da junta, em colaboração com o Instituto da Habitação, é fazer o mapa de todas as casas destruídas ou afectadas pelos incêndios e começar a sua recuperação o mais depressa possível.

“Há muito para fazer, os estragos são muitos, mas não se pode perder tempo. Esta gente não pode sofrer mais. O povo da Madeira não pode sofrer mais”, conclui a autarca.