Esta sexta-feira, escreve-se o último capítulo da história da Adega de S. Martinho

Uma das mais típicas tascas da cidade do Porto fecha esta sexta-feira. O edifício que a albergou durante 46 anos vai dar lugar a um hotel.

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Nélson Garrido
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Nélson Garrido

Na Adega de S. Martinho, no Porto, os objectos estão a ser retirados das prateleiras e enfiados dentro dos caixotes, denunciando o fim anunciado de um espaço que vai deixar saudades. As portas azuis e brancas que ali sempre estiveram abertas nos últimos 46 anos vão fechar, para sempre, esta sexta-feira. 

A hora é má para falar com Maria Teresa Teixeira. Teresinha, assim é chamada, tem de pôr o almoço na mesa para os fregueses que estão a chegar. Os 71 anos não lhe tiraram a genica de outros tempos. “Ó menina, deixe-me ir pôr as só umas batatas a andar”. Há batatinhas com lombo para os “três que vão estar até à última”. Esses clientes, como todos os outros, vão ter que arranjar outro “taleigo” para ir almoçar. 

No dia 3 de Janeiro de 1970, Teresinha entrou pela primeira vez naquela que se ia transformar na sua segunda casa. “O meu marido trabalhava nos serviços de transporte e passava aqui muitas vezes. Depois calou-se muito caladinho e veio cá ver. Ele não gostava muito que eu trabalhasse na fábrica de fibrocimento e andou, andou, até que viemos para aqui os dois”, conta ao PÚBLICO. 

E aqui foi ficando até que, em Fevereiro, lhe disseram que ia ter de sair daquele prédio na rua D. João IV que foi vendido para a construção de um hotel. “Chegaram aqui e disseram-nos que tínhamos de sair, que lá em cima estava tudo muito degradado, e assim e assado. Para cima, nos outros andares, já todos saíram. E eu vou sair amanhã”, lamenta. Se no início da conversa a voz era firme e determinada, agora treme ao falar do fim iminente. “Já se sabe que deixa pena”, diz com emoção. "Vim para aqui novinha, criei aqui a minha filha. O meu marido aqui faleceu e depois eu cá continuei. Mas agora acabou”. 

A conversa é interrompida por um cliente que entra e que é imediatamente atendido porque, afinal, não se deixa um freguês à espera. Um moscatel do Douro é servido com água com gás. O cliente não precisa de dizer nada. Teresinha já sabe o que a casa gasta. “Eu ontem fiquei a dever dois copos”, diz-lhe. “Então o de ontem fica assim”, responde Teresinha, ao mesmo tempo que faz as contas em escudos e as escreve no balcão de mármore branco.

José Nogueira, 65 anos, começou a lá ir lanchar há coisa de dez anos. Vai entrando e saindo da Adega S. Martinho, transportando os caixotes onde se amontoam os objectos que vão sendo retirados das prateleiras. “Estou aqui a ajudar a retirar algumas coisas para o stress não ser tão pesado amanhã”, conta. “Eu só soube há um mês e nem queria acreditar que era possível deixarem fechar uma casa tão antiga como esta. Isto faz parte do património da cidade do Porto”, adverte. O semblante carregado é o de quem se prepara para perder uma segunda casa. Recordam-se momentos e companheiros já idos como o Serafim Bombeiro que ali “fazia uns truques de magia e entretinha quem chegava”. 

Uma família

A televisão está ligada nos programas da manhã, lê-se o jornal e bebe-se uma cerveja enquanto se espera pelo almoço. As conversas cruzam-se em torno do assunto do dia: os incêndios que devastam o Norte do país. As cadeiras distribuem-se num círculo como se se estivesse numa praça. As mesas, recolhidas na parede, descem-se sempre que alguém chega para almoçar. É o caso de Agostinho Rocha, 46 anos, mecânico de motas que ali entra "há 22 anos, 22 dias por mês", diz. "A comida é caseira. Isto é acolhedor, já somos uma família. Agora, vou fazer como muita gente faz e trazer a comida de casa e aquecer no microondas", vaticina.  

Numa das paredes, um letreiro afixado diz: “Não meter moedas”. O velho quadro de mealheiros está agora vazio. “Também vai embora amanhã”, diz Teresinha. “Tinha ali uma porta que não era utilizada para nada e então os fregueses lembraram-se de fazer um mealheiro. Iam-se 'botando' as moedas durante o ano e, depois, uma semana antes do São João e outra antes do Natal abria-se e cada qual vinha buscar o seu”, explica. 

Ao longo dos anos, Teresinha faz questão de relembrar as “histórias boas” que teve com os fregueses. “Sempre houve boa convivência. E nunca houve aqui nada de barulho. Nunca cá veio a polícia. É tudo uma família, tudo muito respeitável”, recorda. 

Guillermo Alonso, 41 anos, e Raquel Alonso, 35 anos, vieram de Zamora, Espanha, passar férias no Porto. Os dois turistas passavam, por um acaso, ali na rua quando decidiram entrar por terem reconhecido as portas e Teresinha de uma notícia do jornal. “Isto é incrível. Nunca tínhamos visitado um sítio igual, tão autêntico”, diz Guillermo.

Mas se se pode pensar que a Adega S. Martinho passa ao lado dos mais jovens, Filipa e Rui, de 21 anos, dissipam essa dúvida quando entram e se sentam à espera que Teresinha os atenda. “Eu costumo vir aqui, ele é a primeira vez”, diz a futura engenheira. O espaço costuma ser frequentado por grupos de estudantes, principalmente na Queima das Fitas. “Conheci o espaço quando fui caloira, porque é normal o pessoal do curso juntar-se aqui”, refere. Já Rui, novato por ali, considera que “é uma pena” o espaço fechar. “Parece que se está em casa. É muito acolhedor. Não há aqui nenhuma barreira entre o cliente e a Dona Teresa”, afirma o também estudante de engenharia. 

“Nós gostamos de conversar neste ambiente ao qual a nossa geração não está tão habituada. É o único sítio que eu conheço assim. E as coisas são muito baratas e é aqui no centro", destaca Filipa. O espaço fica ligado à vida académica da jovem e às tradições como o rally pelas tascas que começa sempre com o bagaço que se bebe ali, na Dona Teresa. 

Na última semana, muitos têm visitado a Adega de S. Martinho para um último copo e para a despedida de um local que faz parte do roteiro das tascas mais típicas da cidade. A distinção é atestada por um diploma, que orgulhosamente permanece afixado na parede, passado pela Direcção do Grupo dos Amigos das Adegas e Tascos do Porto, à qual pertence, por exemplo, o historiador portuense Hélder Pacheco. Também Manuel Pizarro, vereador com o pelouro da Habitação e Acção Social da Câmara do Porto, já ali esteve a “fazer discurso”, conta Teresinha. 

José Nogueira vai arrumando mais coisas das prateleiras. “Gostava de lhe oferecer um cafezinho mas a máquina já foi”, diz Teresinha ao mesmo tempo que encolhe os ombros, conformada. “Tem andado para aí tudo triste, a dizer que é injusto, que é injusto. Mas tem que ser”, desabafa. E agora? “Agora vou apanhar Pokémons. Se anda tudo nisso, eu vou também", brinca. 

Texto editado por Ana Fernandes