Com Inimi Cicatrizate, Radu Jude assina um dos grandes filmes do concurso de Locarno

Tem o mesmo perfume de fim do mundo do Navio de Fellini e revela-se com a mesma majestade. Como quem navega no Titanic e não acredita no icebergue.

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O filme é uma confirmação de um cineasta que tem optado por escapar à “fórmula realista” que identificamos com a nova vaga romena

Às vezes ouvem-se coisas destas nos festivais, ditas em jeito de boutade mas que acabam por ter alguma coisa de profético ou de significativo. No domingo ouviu-se assim: “Hoje vamos ver o Leopardo de Ouro”. Falariam do Ornitólogo de João Pedro Rodrigues ou de Inimi Cicatrizate do romeno Radu Jude? Pouco importa, ambos estavam já bem cotados como dois dos filmes mais aguardados da competição internacional; preferir um ao outro já tem mais a ver com questões de opinião pessoal, porque em ambos os casos falamos de óptimos filmes que em tudo se relacionam com a obra prévia dos seus realizadores mas que ascendem ao patamar seguinte.

No caso do romeno, cujas três primeiras obras nunca chegaram ao circuito comercial português mas foram vistas no IndieLisboa (onde Aferim!, que já recebera o prémio do júri em Berlim, venceu o prémio máximo em 2015), Inimi Cicatrizate é também a confirmação de um cineasta que tem optado por escapar à “fórmula realista” que identificamos com a nova vaga romena. Aferim! era uma espécie de western a preto-e-branco na Roménia do século XVIII, e Inimi Cicatrizate, rodado no formato 1.33:1 do cinema clássico pré-guerra, passa-se em 1937, num sanatório à beira-mar para onde um jovem universitário vai tratar a sua tuberculose vertebral.

Não podíamos estar mais longe do tom truculento do filme anterior nem das sátiras escarninhas e amargas em roda livre de The Happiest Girl in the World (2009) e Everybody in Our Family (2012). Inimi Cicatrizate (que se traduz como “corações cicatrizados”) é sombrio, fatalista, espécie de retrato dos últimos dias de liberdade antes do fim das férias – não esquecer que estamos em 1937, a Segunda Guerra Mundial desenha-se já no horizonte, pelas conversas dos jovens internados vamos sentindo o fascismo no ar, a intolerância anti-semita.

Manu, que estuda química e tem uma cultura livresca, gravita naturalmente para os outros internados da sua idade, com quem bebe vinho, ouve música, discute literatura, recita poesia e experimenta sexualmente num sanatório que mais parece um campo de férias ou uma pálida imitação de um hotel de luxo  como quem procura afastar a morte celebrando a vida. Mas esta dança à beira do vulcão, espécie de Morte em Veneza cruzada de Montanha Mágica de um romantismo mórbido e desesperado, adaptada do romance autobiográfico do surrealista romeno Max Blecher (1909-1938), não pode durar para sempre. E Jude, que já usara Aferim! para falar de atavismos, de história e cultura, volta a filmar o passado como espelho do presente – perguntando-se se a entrega à simples arte de viver apesar de tudo, a tentativa de fazer a arte e a beleza contarem para alguma coisa no meio de uma realidade tão negra, vale sequer a pena.

No seu aspecto de “última bebida antes de fechar o bar” e no modo estilizado como Jude encena tudo, em planos fixos de cenários cujo detalhe imutável sugere um pequeno teatro do desespero, Inimi Cicatrizate tem o mesmo perfume de fim do mundo do Navio de Fellini, e revela-se com a mesma majestade. Como quem navega no Titanic e não acredita no icebergue.