Isabelle, Blanche, Valeria e o amor em estado de graça

À frente e por trás das câmaras, duas actrizes francesas trazem o amor e a sua redenção a Locarno

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As actrizes Bulle Ogier, Manon Combes e Isabelle Huppert Festival del Film Locarno/Pablo Gianinazzi
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Les Fausses Confidences dr
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Valeria Bruni Tedeschi, realizadora de Une Jeune Fille de 90 Ans Festival del Film Locarno/Pablo Gianinazzi
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Une Jeune Fille de 90 Ans dr

O amor é uma coisa estranha, já filósofos, escritores, poetas e cineastas o dizem desde sempre. O amor que nasce inteiro e honesto dos equívocos ou das ilusões tem sido tema recorrente do cinema francês que temos visto em Locarno este ano, a começar pela comédia romântica clássica muito ligeiramente transformada de Axelle Ropert, La Prunelle de mes yeux. Mas foram precisas duas actrizes, à frente e por trás das câmaras, bem como dois homens, um coreógrafo e um encenador, para o ver como ele é, louco, cruel e transcendentemente redentor. 

À frente da câmara está ela. A única, a insubstituível, provavelmente a maior actriz em actividade hoje em dia: Isabelle Huppert, entregando-se a um texto clássico de Marivaux sob a direcção do falecido encenador Luc Bondy (1948-2015). Bondy encenou Les fausses confidences em 2014 no teatro parisiense do Odéon, fazendo dela a melancólica mas compacta comédia de enganos para acabar com todas as comédias de enganos, onde uma dama rica (Huppert) e um jovem arrivista (Louis Garrel), manipulados de todos os lados, acabam por se apaixonar verdadeiramente um pelo outro. 

Luminosa, radiante, Huppert é a "cola" da versão cinematográfica de Les fausses confidences (fora de concurso), que Bondy já não conseguiu terminar e que foi completada segundo as suas indicações pelo produtor Pierre-Olivier Bardet e pela viúva Marie-Louise Bischofberger. Nas  palavras de Huppert, que apresentou o filme antes da projecção a par das actrizes Bulle Ogier e Manon Combes, Bondy não quis fazer um mero registo da produção de palco, mas sim um filme de corpo inteiro, rodado em paralelo à temporada de Les fausses confidences, com o mesmo elenco. 

Enquanto à noite se representava a peça em palco em figurinos de época, durante o dia o encenador filmava o texto no próprio edifício do Odéon com os actores com roupas modernas, usando bastidores, foyers, escadarias, camarins como cenários, transformando o próprio teatro em palco dos jogos ora galantes ora interesseiros de Marivaux. Como se o amor fosse ele próprio um imenso teatro e os apaixonados os seus actores principais a tentar encontrar uma maneira de se esconderem e escapar ao olhar público. 

Já não há muito mais a dizer da Huppert, a não ser que ela se  entrega de alma e coração a estes jogos como se nunca tivesse feito outra coisa na vida - e se isso não bastasse, há que ver como todo o elenco, de um Garrel discreto a uma Bulle Ogier imperial, é transportado para uma espécie de estado de graça que só o amor - ao teatro, à palavra, ao amor enfim - consegue cristalizar. 

Estado de graça é também aquilo que Valeria Bruni Tedeschi, aqui por trás da câmara, consegue registar em Une Jeune Fille de 90 ans (fora de concurso), documentário que a actriz e realizadora co-dirigiu com o seu director de casting habitual, Yann Coridian. É o estado de graça a que as visitas do coreógrafo Thierry Thieu Niang leva Blanche Moreau, 92 anos, uma das internadas no serviço de geriatria do hospital Charles Foix de Ivry. Niang visita regularmente o hospital para exercícios de movimento que devolvem a estes idosos a dignidade e a humanidade que merecem e que muitas vezes se perde pelos corredores do hospital. 

 O coreógrafo não se limita a convidar os internados a dançar ou apenas a mover-se com ele; fá-lo com uma genuinidade interessada não pela doença nem pelas limitações mas sim pelas pessoas que eles são e pela vida que levaram. Trata-os sempre à altura de homem, olhos nos olhos, e é esse olhar sem condescendência nem piedade, que procura encontrar a verdade que está escondida ali por trás, que Bruni Tedeschi e Coridian registam. Une Jeune Fille de 90 ans é um filme que, mais do que olhar, vê as pessoas que filma,  tem amor por elas e partilha esse amor connosco - concentrando-se no caso específico da "menina de 90 anos" do título, Blanche, que a presença e o incentivo de Niang levam da apatia mais completa ao tal "estado de graça". Blanche, ela própria, diz-se apaixonada pelo coreógrafo que a fez "sair da casca". É porque não? Já não há espaço nem tempo para o ridículo aos 90 anos. É esse o mérito maior deste documentário que não inventa nem reinventa nada e se limita a contar uma história: nada do que aqui se vê é ridículo porque - já dizia o outro - o amor é tudo.