Crónica

Al andar se hace el caminho

Ao longo do dia de hoje, fui-me perdendo por estradas quase infinitas e paisagens bucólicas onde o tempo desenhou, lentamente, as suas palavras nos castanheiros. Fiz uma amiga!

Escrevo-vos a caminho de Santiago de Compostela, com os pés mergulhados no rio Minho, a tentar curar o inchaço, bolhas e picos de ouriço que, após uma semana de descanso do meu mar, ainda insistem em atormentar o meu dedo mindinho. 

A nossa jornada começou em Viana do Castelo após uma viagem de três horas de comboio. Como chegámos por volta da uma da tarde, decidimos visitar a Basílica de Santa Luzia, feroz no alto da sua escadaria mas misericordiosa ao nos oferecer uma vista soberba da cidade. Após a descida, jantámos um merecido polvo na taberna do Valentim, junto às docas. 

A alvorada era às seis e trinta da manhã mas, com snoozes e "só mais um bocadinho", apenas rumamos a Caminha por volta das oito. 

A grande parte desta viagem faz-se seguindo as setas amarelas que indicam o caminho para Santiago com as quais, depois de algum sol na "mona" e dores nos joelhos, é impossível não estabelecer uma relação pessoal: primeiro não as encontramos e ficamos ansiosos; depois, quando as vimos finalmente, sentimo-nos quase tão aliviados como ao encontrar uma casa de banho limpa no Sudoeste. No entanto, depressa nos rosnam tornando-se criaturas insensíveis, quando nos forçam a mais uma subida. 

Passando uma terra chamada Carreço, entrámos num bosque que nos cercou de natureza silvestre e nos preencheu o pensamento com o grito mudo do silêncio. Acredita, se a minha mochila não tivesse tanto peso já tinha voado com a brisa refrescante que corre como um riacho. 

Chegámos a Caminha à tardinha com todas as articulações a arder e os meus ombros tatuados com a marca das alças da mochila, mas com um sorriso de orelha a orelha. Aterrei bruscamente contra o colchão e levantei-me com a nona maior ressaca da minha vida (sim, ainda as conto pelos dedos!). Parecia um zombie a ir para o chuveiro. 

O percurso fez-se, na sua maioria, por uma ecovia que termina em Valença. Almoçámos guardados pelo Cervo Rei e caminhamos abrigados do calor pelas árvores que crescem na margem do rio. Nesses cerca de trinta quilómetros, diverti-me a criar péssimos covers de músicas comerciais e a praticar os meus passos de dança (apercebi-me umas vez mais dos meus pés de chumbo). 

Escrevi os parágrafos anteriores dia 3 de Agosto, neste momento já bebo uma caña em terras galegas numa taberna em Atios enquanto nos abrigamos duma abençoada chuva. Ao longo do dia de hoje, fui-me perdendo por estradas quase infinitas e paisagens bucólicas onde o tempo desenhou, lentamente, as suas palavras nos castanheiros. Fiz uma amiga! "E coisa mais preciosa no mundo não há!" Uma senhora que veio ao meu encontro e se queixou da seca que se alastra pelas suas vinhas, tinha os olhos castanhos como uma avelã. Falámos de gastronomia e implantes dentários e a nossa breve conversa fez-me pensar como o tempo que passamos com alguém tem um prazo de validade ao longo dos diferentes caminhos da nossa vida. 

Amanhã partimos para Redondela e levo comigo toda a força e espírito aventureiro que se banha no respirar dos meus amigos. 

18 anos, à espera de ingressar no ensino superior