Torne-se perito

Salvo in extremis, o 38.º Citemor começa esta sexta-feira (e acredita em 2017)

Dinis Machado, Tiago Cadete, Ignasí Duarte, Miguel Bonneville e Rui Catalão passam até dia 20 pelo festival de Montemor-o-Velho.

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Em MB#6, Miguel Bonneville transforma-se sucessivamente em mulher, levando Simone de Beauvoir à letra MIGUEL BONNEVILLE

Há praticamente um ano, sentados numa esplanada da Praça da República no doloroso day after da edição mais curta e mais precária de sempre do Citemor, os directores Armando Valente e Vasco Neves admitiam ao PÚBLICO que teriam de dar por encerrado o festival – e com ele um capítulo muito particular da história artes performativas portuguesas – a não ser que ele fosse salvo por “medidas de emergência”. Confirmou-se o menos mau dos cenários: o Citemor que começa esta sexta-feira foi viabilizado in extremis, com um apoio extraordinário de 20 mil euros que a Secretaria de Estado da Cultura aprovou, via Fundo de Fomento Cultural, a menos de um mês da data marcada para o início do 38.º festival.

De edição de combate em edição de combate, é assim que o Citemor vem sobrevivendo desde 2012, o primeiro ano em que, vestindo literalmente a camisola do festival, os artistas aceitaram apresentar-se sem receber (um princípio “criminoso”, considerou então a direcção) e os bilhetes passaram a não ter preço fixo, para que os espectadores pudessem pagar o que entendessem justo. Armando Valente considera agora que, apesar de todos os constrangimentos, o Citemor que decorre entre Coimbra e Montemor-o-Velho até ao próximo dia 20 evita não só a interrupção do festival como lhe permite “transportá-lo até 2017 – e até ao próximo quadro de apoio”. Os próximos concursos da DGArtes são literalmente a luz ao fundo do túnel para a direcção, que acredita poder regressar brevemente ao passado não tão longínquo em que o Citemor estava perfeitamente integrado no sistema de financiamento público à criação (só para tornar bem visíveis as dores de crescimento: o último apoio sustentado que lhe foi concedido pela DGArtes, em 2011, excedia os 140 mil euros; a edição do ano passado fez-se com orçamento zero).

Dadas as circunstâncias difíceis em que foi programado (sem perspectivas de financiamento, e à mercê da atenção especial da tutela num ano que o atraso na tomada de posse do Governo e as atribulações do Ministério da Cultura tornaram ainda mais instável), o Citemor que esta sexta-feira começa fora de casa – no Teatro da Cerca de São Bernardo (TSCB), em Coimbra – abdicou de duas das suas mais vincadas marcas identitárias, as residências artísticas e as co-produções com que sobretudo desde 1992 contribuiu activamente “para a edificação de um repertório contemporâneo” nas áreas do teatro, da dança e da performance. Mas foi ao encontro de novos criadores como Dinis Machado, que abre o festival com a sua peça mais recente, Paradigma, “folclore DIY para corpos com identidades esbatidas”, e Tiago Cadete, que leva ao mesmo TSCB o solo Alla Prima, sobre a beleza e a violência do encontro entre Portugal e o Brasil – o programa deste fim-de-semana completa-se com um concerto dos Nice Weather for Ducks no Salão Brazil.

Já em Montemor-o-Velho, a 12 e 13, o Citemor retoma a sua vocação militantemente pluridisciplinar acolhendo uma extensão do festival LOOPS.Lisboa e activa o vínculo com Espanha com a estreia nacional da Conversa Fictícia que junta num palco (no caso, o do Teatro Esther de Carvalho) o artista catalão Ignasí Duarte e Gonçalo M. Tavares. Tal como os outros com que Duarte já se cruzou ao longo desta série (Javier Tomeo, Claudio Magris, Hector Abad Faciolince, além dos portugueses Lídia Jorge e João Tordo), o escritor será desafiado a responder ao vivo, e sem guião, às perguntas que foi colocando às personagens das suas obras. Perto, na Sala B, Miguel Bonneville – artista que o Citemor tem debaixo de olho, e com que projecta trabalhar no futuro – remonta  o seu solo de 2008, MB#6, em que, levando à letra Simone de Beauvoir, se transforma em sucessivas mulheres, mesmo tendo nascido homem.  

O 38.º Citemor termina no fim-de-semana seguinte com a reposição de outra obra que Armando Valente considera ser já “de referência” no património performativo português mais recente, Dentro das Palavras, de Rui Catalão, e com mais um concerto, da one-woman-band Surma (Débora Umbelino).

Comparado com a edição de bolso de há um ano, que se fez sem dinheiro num só fim-de-semana porque também seria “criminoso” deixar morrer o Citemor, o festival deste ano é de luxo. Comparado com a que Armando Valente espera poder apresentar em 2017, será a última etapa de uma longa travessia do deserto.

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