Jogam-se cinco anos de guerra civil síria na "grande e épica batalha por Alepo"

Os dois lados já investiram demasiado nos combates dos últimos dias para não os vencerem. Os rebeldes tentam de tudo para levantar o cerco à cidade. Se perderem, podem entregar o país a Assad.

Uma fotografia de Setembro de 2012, período em que a cidade ficou dividida em dois.
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Uma fotografia de Setembro de 2012, período em que a cidade ficou dividida em dois. Jospeh Eid/AFP

Joga-se muito dos últimos cinco anos da guerra civil síria numa tira de terreno com pouco mais de cinco quilómetros de comprimento. A miríade de grupos rebeldes naquela que antes da guerra era a maior cidade do país avançou no fim-de-semana com tudo o que tem e trava hoje com o regime o que muitos dizem ser a mais violenta e decisiva campanha militar de que há memória no conflito. A revolução síria, ou o que resta dela, agora desfigurada pela radicalização e brutalidade, pode ficar decidida nos combates em curso pelo domínio de Alepo.

Foi tudo provocado pelo cerco à cidade. Alepo está dividida praticamente ao meio desde 2012, entre bairros controlados pelo regime a Oeste e os que estão sob o domínio dos rebeldes na parte Leste, onde vivem quase 300 mil pessoas. O Presidente Bashar al-Assad e os seus aliados conseguiram finalmente cercar esta zona no dia 17 de Julho, selando um objectivo antigo do regime que só pôde ser cumprido com a intervenção da Rússia e um maior investimento iraniano, que compensa o debilitado exército sírio com as suas milícias vindas do Líbano, Afeganistão e Iraque.

O regime completou o cerco a partir do Norte da cidade, obtendo uma linha desimpedida de visão sobre a estrada de Castello e cortando a última via que os rebeldes tinham para circular entre os seus domínios urbanos e os vastos – mas relativamente inconsequentes – territórios do Leste da cidade. Os rebeldes ficaram em cheque. Perder o seu território mais importante e simbólico significa perder quase toda a relevância e deixar que o regime de Bashar al-Assad dite todas as condições num eventual cenário de transição no pós-guerra.

Os rebeldes começaram a grande campanha para quebrar o cerco no domingo, executando um plano que já estaria a ser pensado antes de estar sequer finalizado o bloqueio à cidade. A ofensiva, como outras na cidade dominada por extremistas, começou com uma vaga de grandes explosões suicidas, seguidas da marcha de centenas de homens e veículos pesados. Podem estar em acção perto de dez mil rebeldes, dezenas de bombistas suicidas, cem tanques e um sem número de lançadores de rockets, segundo revelou uma fonte rebelde à Reuters.

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É a “grande e épica batalha por Alepo”, uma frase repetida nas redes sociais, que se tornaram elas próprias num campo de batalha decisivo ao longo da guerra civil síria e na campanha militar de Alepo. Lá, opositores e apoiantes do regime trocam informações contraditórias sobre baixas num e noutro lado, imagens de ofensivas falhadas, cadáveres dos seus inimigos e, dependendo da filiação, vídeos das grandes explosões causadas por bombas russas ou camiões apetrechados de explosivos que os rebeldes conduzem até às tropas leais a Assad. Já podem ter morrido centenas de pessoas nos dois lados.

Nesta quarta-feira era ainda difícil saber quem estava a ganhar. Os rebeldes avançam sobre um ponto crítico, o Bairro Ramoussa, tentando romper o cerco não a partir do Norte, mas desde o Sul, o que, em caso de vitória, cortaria as linhas de abastecimento de Assad e cercaria os domínios do regime, invertendo a situação. Mas a realidade altera-se rapidamente e os territórios que os rebeldes conquistaram nos primeiros dias da ofensiva pareciam ter quase todos caído para o regime ao final da tarde desta quarta-feira.

A oposição ainda conseguiu na terça-feira explodir uma grande bomba subterrânea no coração de Ramoussa – conseguiram chegar lá por um túnel escavado há dias – atarantando por momentos as tropas do regime. Esta quarta-feira, num exercício semelhante, um grande camião cheio de explosivos e guiado por um bombista suicida atingiu o importante complexo residencial “Projecto 1070”, a partir de onde se podem atingir posições de Assad e que parece por enquanto dividido por igual entre rebeldes e regime.

Mas estes dois grandes impactos não mudaram muito. A aviação russa tem salvado o regime desde os ares, mesmo que por estes dias Alepo acorde sob uma neblina negra, criada pelos pneus que ardem em contínuo na cidade para a esconder dos pilotos. Os bombardeamentos são tão intensos que os rebeldes não têm tempo para consolidar os avanços. “Há um ataque por minuto”; lamentava um opositor no Twitter, insistindo que o regime já tinha perdido mais de metade de Ramoussa, um dado que não se parecia comprovar pelas imagens do terreno.

Revolução jihadista?

A ofensiva de Alepo pode durar semanas e ao longo dela põe-se a possibilidade de o cerco cair e reerguer-se várias vezes. Mas o consenso entre observadores da guerra síria é claro: ambos os lados já investiram demasiado para não vencerem. A derrota seria particularmente pesada para o lado rebelde. Provar-se-á que não são uma força militar viável, os seus combatentes ficarão divididos e será apenas uma questão de tempo até residentes e combatentes de Alepo se renderem por fome, sede ou cansaço. A guerra ficaria decidida.

“Continuariam a existir bolsas de rebeldes, mas ficariam tão divididas e desligadas umas das outras que o regime poderia negociar tréguas caso-a-caso”, argumenta Kheder Khaddour, do think-tank da Carnegie para o Médio Oriente. “Isto permitiria ao regime continuar como o actor mais poderoso em quaisquer negociações futuras”, completa. Ou, como explicava ao Guardian um alto-responsável da oposição exilada e apoiada pelo Ocidente, quando o cerco em Alepo se fechou: “Isto significa que Assad já não está em risco. Isto significa que ele já venceu.”

Há um outro senão para os rebeldes, como argumenta Faysal Itani, investigador do Atlantic Council. Uma vitória contra o regime em Alepo não é necessariamente prova de que os ideais da revolução síria estão vivos e de boa saúde. Há muito que os principais grupos armados na cidade são também as duas organizações mais extremistas do país, com excepção do grupo Estado Islâmico: no topo, a Frente Fateh al-Sham, ex-Frente al-Nusra mas ainda muito ligada à Al-Qaeda; e, no seu encalço, a Aharar al-Sham, igualmente extremista na sua visão do islão.

Pelo meio da aliança existe uma série de grupos moderados, muitos apoiados e armados pelos Estados Unidos, mas dificilmente se lhes poderia ser atribuída uma vitória em Alepo. Os louros iriam para os quasi-jihadistas, que gozariam o prestígio de serem coroados como “as principais forças de oposição sírias”, um argumento repetido à exaustão por Moscovo e Damasco. Nas palavras de Itani: “Estes grupos combinam um alto-desempenho militar com um fulgor do ânimo local, emergindo como a vanguarda da insurgência de Alepo.”