Mariano Rajoy aceita o encargo de tentar formar governo em Espanha

O presidente do PP não esclareceu se, e quando, se vai apresentar à votação de investidura no Congresso. De facto, permanecem os “vetos cruzados” que inviabilizaram uma solução após as eleições de Dezembro.

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Rajoy com o rei REUTERS/Angel Diaz/Pool

Mariano Rajoy aceitou o encargo de tentar formar governo em Espanha. O rei Felipe VI encerrou esta quinta-feira três dias de consultas aos dirigentes partidários. Falando na Moncloa, Rajoy declarou aos jornalistas que abrirá imediatamente negociações com as outras forças políticas. Disse ao rei: “Não conto com todos os apoios, mas que mesmo assim aceito o encargo.” Não esclareceu, porém, se será ou não candidato à investidura no Congresso. A tarefa não é fácil.

Rajoy apenas conta com os 137 deputados do PP e com a abstenção dos 32 do Cidadãos. Para garantir a investidura, necessitaria do voto positivo do Cidadãos, o que somaria 169 mandatos, faltando sete para a maioria absoluta de 176. Como está excluída a abstenção do PSOE, admite-se que tentará negociar com a Convergência Democrática da Catalunha e com o Partido Nacionalista basco. Na quarta-feira, estes dois partidos declararam tencionar votar contra um governo Rajoy. Numa segunda votação basta a maioria relativa de votos, mas terá sempre de ultrapassar a soma dos socialistas e do Unidos Podemos.

Após semanas de aparente indiferença, o presidente do Governo em funções mudou ligeiramente o tom do seu discurso. “A Espanha necessita de um governo. Não é tempo de rivalidades, agora é o momento de construir, superar as divergências e encontrar a solução que os espanhóis esperam.”

“Eso es un lío”

Felipe concluiu a terceira ronda de consultas ouvindo Albert Rivera (Cidadãos), Pablo Iglesias (Unidos Podemos), Pedro Sánchez (PSOE) e Rajoy (Partido Popular). Que foram dizer ao rei os quatro dirigentes?

Albert Rivera aceitaria entrar num governo de coligação do PP com o Cidadãos e com o PSOE, mas na condição de Rajoy se afastar. Em alternativa propôs a viabilização de um governo minoritário do PP mediante a abstenção de todos os partidos para evitar o cenário de “terceiras eleições”. Pela sua parte, abster-se-á. E mantém a pressão sobre o PSOE, que “terá de se decidir” entre a abstenção perante um governo PP e a responsabilidade de provocar outra repetição de eleições.

Pablo Iglesias disse que agora “é a vez de Rajoy”. Se ele recusasse, o PSOE deveria assumir a iniciativa de um “executivo progressista”, com o Unidos Podemos e nacionalistas. Mas declarou-se pessimista perante esta hipótese, sobretudo depois da opção de ruptura do parlamento catalão. De resto, “muitos sectores do PSOE preferem que governe Rajoy a chegarem a um acordo com o Unidos Podemos”. Iglesias é o actor que menos influenciará a actual negociação e votará sempre contra o PP. O seu objectivo é liderar a oposição.

Pedro Sánchez explicou ao rei que não facilitará, nem pela abstenção, um governo PP: “Vamos votar contra Mariano Rajoy, porque não vamos apoiar aquilo que queremos mudar.” Mas o PP tem o dever de se apresentar o mais depressa possível a uma votação de investidura, quanto mais não seja para apressar os tempos do processo. Para tal, deve acelerar as negociações com as forças que lhe são afins, do Cidadãos aos nacionalistas bascos e catalães. Pela sua parte, o PSOE não levantará nenhum obstáculo a que Rajoy faça concessões aos nacionalistas.

Rajoy pretende à viva força ter o apoio parlamentar do PSOE, no mínimo a sua abstenção, para legitimar um governo minoritário e vulnerável. O que é curioso é que também Sánchez quer, à viva força, que o PP forme governo — mas sem o seu voto.

O PSOE continua a ter duas “linhas vermelhas”: nenhum acordo com o PP e nenhum acordo com o Unidos Podemos. Quer evitar novas eleições, que poderão ser catastróficas, mas não quer ser responsável pelos cortes que Bruxelas deverá exigir ao próximo executivo. Os socialistas temem que, nesse caso, o Unidos Podemos conquiste a liderança da esquerda. Viabilizar um governo PP, ou depois negociar com ele, “seria assinar o suicídio do PSOE e ceder todo o protagonismo da oposição ao Podemos”, diz sob anonimato um dirigente ao El Confidencial.

Nos últimos dias, Iglesias não escondeu a sua táctica de fazer recair as responsabilidades sobre o PSOE: tanto no caso de favorecer um governo conservador, como perante o seu “imobilismo”, que poderá levar à quase universalmente rejeitada repetição de eleições.

Eso es un lío [uma confusão]” será, segundo o El País, a frase actualmente mais repetida por Mariano Rajoy.