Opinião

O Trump do "deixemo-nos de tretas!"

Donald Trump representa hoje a hipótese mais realista de a extrema-direita assumir a presidência da única superpotência do mundo.

Em tempos de crise e de medo, o que é preciso é gente com ideias claras! Ora aí está ele, o homem que pode vir a ser o próximo Presidente dos EUA, o multimilionário Donald Trump, cansado do “politicamente correto" (disse-o ontem), sem papas na língua! Gente que se deixou de tretas, cansada de discussões sobre o racismo, a discriminação das mulheres, a igualdade e a idêntica dignidade das culturas humanas. Tretas! Há uns 80 anos, no rescaldo de uma guerra mundial e face a uma vaga revolucionária que ameaçava todo o mundo, que não se viam ideias tão transparentes na boca de um candidato a líder mundial.

1. "A América primeiro!" O mundo tem problemas globais e os EUA estão, por vontade própria, metidos em quase todos eles? Trump promete pôr a "América primeiro!" "O americanismo, e não o globalismo, será o nosso credo", disse ele ontem no discurso de aceitação da candidatura presidencial pelo Partido Republicano. Os EUA, que reivindicam para si o direito de intervir em todos os conflitos significativos e de interferir nos processos políticos e económicos mais relevantes à escala global, podem vir a ter um presidente que quer que os EUA coloquem à frente de tudo (o que Trump acha serem) os interesses dos EUA mais do que já colocam. ONU, NATO, UE e outros atores menores, preparem-se!

2. "O candidato da Lei e da Ordem". "Os ataques à nossa polícia e o terrorismo nas nossas cidades ameaçam o nosso estilo de vida." Claro que a violência é um problema grave da sociedade norte-americana, e Trump podia ter falado dos 1.134 afroamericanos mortos pela polícia só no ano de 2015 (cinco vezes mais que os brancos); ou dos 372 massacres perpetrados no ano passado, ou, em geral, dos 13.286 mortos e dos 26.819 feridos (dados da ONU), numa proporção 30 vezes superior aos mortos por arma de fogo no mesmo ano na Grã-Bretanha, por exemplo, e muito, mas muito, acima do número de vítimas de terrorismo em França ou nos EUA.

3. Racista descomplexado. Mas não, o problema não está na proliferação de armas - pelo contrário, Trump orgulha-se do apoio que recebeu do lóbi das armas, a NRA. O problema está nos "imigrantes ilegais que deambulam livremente e ameaçam cidadãos inocentes" – "Constrói o muro! Build the wall!", gritaram-lhe os delegados para quem o multimilionário discursava. Há um ano, o homem sintetizou o que acha dos imigrantes mexicanos: “Trazem drogas para dentro do nosso país. Trazem crime. São violadores. Alguns, suponho, até podem ser boas pessoas”. Ideias mais claras não podia haver... Para quem o apoia, como o xerife de Milwaukee, imigrantes, negros e terroristas são mais ou menos a mesma coisa: "Não demorará muito", escreveu ele no Twitter em outubro de 2015, e os ativistas do movimento Black Lives Matter (a quem ele chama os "mentirosos" do Black Lies Matter) "juntarão forças ao Estado Islâmico para destruir a nossa República". Lembram-se do Eixo do Mal? Este é o dos dias de hoje.

O mundo de Trump está contaminado pela mais velha convicção dos partidários da supremacia branca: “Nós [os brancos] vamos ser uma minoria, mesmo que acabássemos com toda a imigração amanhã já", diz Richard Spencer, o jovem presidente do National Policy Institute e antigo editor da The American Conservative, porta-vozes da direita conservadora norteamericana. "Do que precisamos é de uma reorientação radical, de uma nova consciência." Por onde começar? Pela Declaração de Independência dos EUA, que lhe provoca “vómitos": "O Criador fez-nos todos iguais? Isso é ridículo. (...) É-me moralmente insultuosa a ideia de que devemos dedicar a nossa vida a algo tão estúpido quanto a ‘igualdade’ ou a ‘democracia’” (The Nation, 20.7.2016).

3. Um multimionário que é a voz do povo. O 121º americano mais rico diz acordar "todos os dias determinado a conseguir uma vida melhor para aqueles que, na nossa Nação, têm sido ignorados, negligenciados e abandonados. (...) Eu sou a vossa voz!" Numa daquelas tiradas anti-intelectuais que costumam ecoar na extrema-direita, o filho mais velho de Trump soltou esta: "Eu e o meu pai não aprendemos o que sabemos em MBAs [mestrados de gestão]. Aprendemos com a gente que tem doutoramentos em senso comum". O líder republicano no Senado, numa imitação de prece, garantiu a "todos aqueles deixados para trás por forças económicas descontroladas - nós ouvimo-vos! Àqueles atacados na vossa fé – nós ouvimo-vos! A uma Nação que vê o caos espalhar-se pela América e pelo mundo fora – nós ouvimo-vos!" (Guardian, 20.7.2016) Numa sociedade fundada sobre a desigualdade económica e étnica, sobre a legitimidade do lucro como fim último da vida, um narcisista que odeia afro e latino-americanos, que despreza e ofende mulheres, que fez fortuna à custa de milhares de trabalhadores das suas empresas, vem agora prometer – como prometeu o milionário Berlusconi, defraudador do fisco e corruptor de juízes – defender os mais desfavorecidos, descendo à "arena política para que os poderosos não possam continuar a bater naqueles que não podem defender-se", porque "ninguém conhece o sistema tão bem quanto eu, e é por isso que só eu o posso corrigir".

Trump tem muitas chances de ser eleito. Àquele mar de gente que ri da personagem e que acha que, de tanto disparate, ela não irá longe (e já chegou até aqui...), exatamente como se fazia com Berlusconi há vinte anos, responde Richard Spencer: “O verdadeiramente importante em Trump não são as suas propostas políticas. O que nele mais importa é a emoção. Ele fez despertar o sentido do ‘Nós’, um sentimento nacionalista entre a população branca. (...) Eu amo este homem” (The Nation, 20.7.2016). "Alemanha, desperta!", gritava-se nos comícios nazis dos anos 30. Até uma delegada à convenção republicana, apoiante de Ted Cruz, percebeu: “Não se pode votar em consciência num proto-fascista” (Guardian, 21.7.2016).

Marine Le Pen é a mais segura candidata à 2ª volta das presidenciais francesas de 2017. A extrema-direita reúne 15%-30% dos votos em eleições legislativas em mais de metade dos países da UE, lidera governos na Polónia, na Hungria, em Israel, é o maior parceiro de coligação governamental na Bélgica e na Suíça, participa numa infinidade de outros governos, determina políticas públicas por todo o lado. Não admira que um dos convidados da Convenção Republicana tenha sido o líder da extrema-direita holandesa, Geert Wilders. É claro que Donald Trump representa hoje a hipótese mais realista de a extrema-direita assumir a presidência da única superpotência do mundo – para muitos, depois de George W. Bush, de a voltar a assumir. Nos anos 30, com as trágicas consequências que conhecemos, tal ocorreu apenas em duas médias potências europeias e numa asiática. A escala agora é outra.

Historiador