Guterres defendeu candidatura à ONU propondo “liderança e valores”

Num debate na sede da organização em Nova Iorque, o português apoiou a reforma do Conselho de Segurança.

António Guterres disse esta quarta-feira na ONU, durante o primeiro debate entre candidatos a secretário-geral, que o mundo "precisa urgentemente" de "liderança e valores".

Na sua declaração inicial no debate na sede da organização em Nova Iorque, o candidato português disse que o próximo secretário-geral tem de ser "sólido" e um "símbolo de unidade" e que "precisa de saber combater, e derrotar, o populismo político, o racismo e a xenofobia." "Esses são valores que defendi toda a minha vida", acrescentou.

Foi nestas respostas da primeira ronda de perguntas, que se centraram no tipo de liderança que os candidatos pretendem ter, que Guterres teve um dos dois primeiros aplausos espontâneos da sessão. O primeiro foi quando elogiou o actual secretário-geral, Ban Ki-moon, dizendo que não o iria criticar e que o sul-coreano tinha feito “um trabalho fantástico” ao longo dos seus mandatos.

A uma pergunta sobre que estilo de comunicação adoptará, para divulgar o trabalho da organização, caso seja o eleito, respondeu: "Precisamos de traduzir as muitas iniciativas que temos e actividades que desenvolvemos para uma linguagem que as pessoas de todo o mundo percebam. Mas uma liderança não é apenas uma questão de comunicação. É sobre substância."

Os dez candidatos presentes no debate da madrugada desta quarta-feira (ainda terça-feira em Nova Iorque), de um total de 12, foram divididos em dois grupos. Guterres faz parte do primeiro grupo, no qual estão Vesna Pusic, da Cróacia, Susana Malcorra, da Argentina, Vuk Jeremic, da Sérvia, e Natalia Gherman, da Moldávia. No segundo grupo estão Helen Clark, da Nova Zelândia, Danilo Turk, da Eslovénia, Christiana Figueres, da Costa Rica, Irina Bokova, da Bulgária, e Igor Luksic, o candidato do Montenegro, outro candidato que arrancou aplausos espontâneos. Para o debate foram enviadas mais de 1500 perguntas por organizações da sociedade civil de 70 países para serem respondidas pelas candidaturas. Destas a ONU escolheu dez.

Guterres defendeu a reforma do Conselho de Segurança. "Diria o mesmo que disse Kofi Annan: nenhuma reforma da ONU está completa sem uma reforma do Conselho de Segurança." Outros candidatos defenderam esta mudança. O português, que foi alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, considerou que o Conselho de Segurança tem problemas de representatividade por não incluir, por exemplo, membros permanentes oriundos da América Latina ou África.

"Mas isto só será possível se os países-membros assim o quiserem e se criarem o consenso necessário para que essa reforma aconteça", disse Guterres, explicando que o secretário-geral tem áreas que não são da sua competência. "Irei apoiar [a reforma], mas de nenhuma forma irei substituir os países-membros neste assunto, assim como em muitos outros", disse.

Numa ronda de perguntas sobre prevenção de conflitos, o português disse que "há mais atenção para a manutenção de paz, porque as câmaras estão lá", sabendo todos "o que está a acontecer", mas que isso não ocorre quando um conflito está na fase inicial. Para Guterres, "tem de haver um contínuo, com as mesmas prioridades e as mesmas estratégias," durante todas as fases em que a organização lida com conflitos, o que não sucede neste momento.

O candidato assumiu que esta não é uma questão fácil e que "existe um debate na comunidade internacional, porque muitos acreditam que existe o risco de interferir na soberania internacional". "E é aqui que o secretário-geral pode intervir, de forma humilde, para criar pontes entre os vários participantes e fazer entender que existe uma forma de a prevenção de conflitos ter resultados e reduzir o sofrimento humano."

Paridade de género

O antigo governante português comprometeu-se ainda a garantir a paridade entre géneros nas nomeações da organização, caso seja eleito. A resposta do antigo primeiro-ministro foi dada durante uma ronda sobre a possibilidade de a próxima secretária-geral da ONU ser uma mulher, quando existe uma campanha para eleger uma mulher secretária-geral. Vesna Pusic, da Cróacia, disse que "durante 70 anos a organização foi governada por pessoas que representam apenas 50 por cento da experiência humana" e que "está na hora de isso mudar".

António Guterres lembrou ainda os seus mandatos como alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados e os motivos por que concorre agora a secretário-geral. "Senti a frustração de ver as pessoas a sofrer e saber que não tinha uma solução para elas. Foi por isso que entendi ser minha obrigação candidatar-me a secretário-geral da ONU", concluiu.

A 21 de Julho, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) realiza a primeira votação secreta para escolher o próximo secretário-geral. O processo só estará terminado no início do Outono e o novo secretário-geral assume o cargo em 2017.