“A educação tem que ser para todos e isso não se consegue com ensino privado”

A académica norte-americana Antonia Darder tornou-se numa voz activa contra a agenda neoliberal na Educação e em defesa dos modelos públicos de ensino. “A resposta para os problemas da educação não é a sua privatização.”

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Antonia Darder esteve esta semana em Portugal para uma conferência sobre o futuro da educação pública Daniel Rocha

O livro de Antonia Darder Cultura e Poder na Sala de Aula foi lançado há 25 anos, mas continua a ser um marco na reflexão sobre a inclusão de minorias étnicas e culturais através da educação. Depois disso, a académica norte-americana, nascida em Porto Rico, construiu uma carreira que fez dela uma intelectual influente e uma activista reconhecida. Actualmente ocupa a Leavey Presidencial Endowed Chair em Liderança Moral e Ética, na Escola de Educação da Universidade Loyola Marymount, nos EUA. Esta semana esteve em Portugal para uma conferência sobre o futuro da educação pública, promovida pelo Sindicato dos Professores da Grande Lisboa.

A conferência em que participou acontece num contexto em que o país está a sair de um debate acerca da liberdade de escolha das famílias, a propósito de um corte no financiamento de alguns colégios privados. Como vê a relação entre escolas públicas e privadas?
O ensino público é fundamental para uma sociedade democrática, porque cria um espaço em que as crianças podem encontrar-se e aprender a participar na vida cívica. Todavia, aquilo a que estamos a assistir, através das políticas neoliberais, é que os espaços públicos nas nossas sociedades estão a minguar. A resposta para os problemas da educação não é a sua privatização. O ensino público permite às pessoas terem uma palavra sobre aquilo que acontece, o que não acontece no ensino privado.

Qual deve ser o papel das escolas privadas num sistema de educação?
Sempre houve escolas privadas, que genericamente eram o local da educação da elite. Depois começou a passar-se a ideia de que era possível alargar esta educação de elite aos mais pobres, mas a verdade é que não se trata da mesma educação. A questão com que estamos a lidar hoje, especialmente tendo em conta o movimento de privatização do ensino, é perceber em que medida é que podemos realmente proteger os nossos direitos democráticos dentro da educação.

Em que sentido?
A minha pergunta é: estes ambientes de educação privada têm em conta as questões mais profundas da democracia e da cidadania? O ensino público deve ser humanizador e promover a liberdade de ideias. A faixa ideológica do ensino privado é muito mais estreita. Parte do motivo pelo qual o ensino público é público é a necessidade de proteger a inclusão de todos os cidadãos. A educação tem que ser para todos e isso não se consegue garantir com ensino privado.

Nos EUA, há mais de 20 anos que existe o movimento das chamadas charter schools [escolas privadas que recebem financiamento público]. Qual é a sua avaliação dessa experiência?
Tem havido investigação recente que não confirma a ideia de que estas escolas são melhores do que as escolas públicas a educar as crianças. Isto não significa que não haja charter schools que são boas, o que estou a dizer é que, da mesma forma que há disparidades na educação que é recebida pelas crianças em escolas públicas, também há disparidades na educação que é recebida pelas crianças em escolas privadas. E não podemos esquecer que há dinheiro público a ser canalizado para meios privados, em lugar de estar a ser usado para reforçar a educação pública, que sabemos que é um dos pilares da democracia.

Esta é uma discussão que está a ocorrer em vários países. Como explica esteve movimento global?
A lógica do neoliberalismo é a de que tudo deve ser visto do ponto de vista das finanças, incluindo a educação. A educação costumava ser um tema protegido dentro dos espaços públicos, mas isso mudou e agora tornou-se um produto que se pode vender e comprar. Mas, da mesma forma que acredito que ninguém devia estar a lucrar com a doença, também não devem estar a lucrar com a educação das nossas crianças. Temos uma tensão aqui que é ideológica e com a qual temos que lutar. Nem tudo pode ser construído nos termos da agenda neoliberal.

Essa agenda tem consequências no sector educativo?
Tem-se passado a ideia de que as taxas de abandono estão a diminuir, mas isso não corresponde totalmente à verdade. O que temos visto na generalidade dos países são altas taxas de abandono nas comunidades mais pobres, especialmente comunidades constituídas por pessoas de cor. Quando as crianças não recebem educação adequada, as suas oportunidades reduzem-se e é isso que acontece quando se privatiza a educação.

Como imagina o futuro da educação pública?
Precisamos de recursos suficientes e de uma boa preparação dos professores para que possam responder às necessidades dos seus alunos. Nos EUA, muitos dos alunos que estão na educação pública pertencem a comunidades muito diversas em termos culturais e, com frequência, os professores não estão preparados para lidar com isso. Há questões de racismo, de classe, de privilégios, de que não se fala. Precisamos de criar políticas e práticas que possam garantir às nossas crianças que a educação está a prepará-las para um mundo muito diverso e complexo. O que vemos com frequência é que os estudantes estão muito infelizes nas escolas, acreditam que a educação que estão a receber é irrelevante, não encontram um lugar com que se identifiquem.

Por que acontece isso?
Não perguntamos se as crianças estão felizes na escola, se estão entusiasmadas a aprender. A sua criatividade está a ser estimulada, estão a sentir que a escola é um lugar onde podem sentir felicidade e amor? Esta componente é completamente deixada fora da discussão, especialmente hoje em que tudo parece resumir-se aos resultados dos exames. Hoje parece que a escola só serve para testar.

Isso parece-lhe negativo?
Em muitas sociedades, o resultado disto são altas taxas de abandono. Em vez de o abandono estar a ser visto como um problema que se prende com a forma como os professores estão a ser preparados, com os currículos e com a estrutura da educação, colocamos as responsabilidades nas crianças, nas famílias, nas suas culturas e nas suas comunidades.

O seu trabalho principal tem a ver com educação bi-cultural. Em que consiste a sua proposta?
É necessário perceber as tensões que existem com as crianças que vêm de uma cultura que não é a cultura dominante. Para muitos como eu, que nasci em Porto Rico e emigrei ainda criança para os EUA, a minha cultura e a minha língua foram sempre reprimidas durante a minha formação. O que tentei perceber foi o impacto dessa repressão cultural e linguística nas nossas crianças e em que medida é que se tornou aceite que as crianças devem simplesmente adoptar a cultura e a língua dominantes e excluir qualquer formação nas suas línguas e cultura primárias.

Que impactos são esses?
Os imigrantes vêm de diferentes contextos culturais e chegam com conhecimento. Pode ser um conhecimento diferente e que pode não ser entendido pelos professores e pelo sistema educativo, mas eu acredito que é benéfico valorizar a sabedoria e o conhecimento que estas pessoas trazem às nossas escolas e à sociedade. Só que o que fazemos é cortar essas aprendizagens, porque simplesmente decidimos que esse conhecimento, essa cultura ou essa língua não têm importância.

Os resultados deste trabalho podem ser úteis, por exemplo, a um país como Portugal, onde a diversidade étnica e cultural é menor do que nos EUA?
O último relatório da Comissão Europeia sobre racismo e intolerância nota que em Portugal há altas taxas de abandono entre as minorias e sugere que deve haver maior monitorização da educação das crianças imigrantes no que toca à discriminação. O documento recomenda também a Portugal uma maior diversidade dos professores e mais preparação para o bilinguismo. Há certos princípios e certas formas de entender as condições sob as quais estas comunidades foram colonizadas que são comuns aos vários países.