Grupo de casinos macaense investe 250 milhões em projecto turístico em Setúbal

David Chow, da Macau Legend, quer construir um resort, com hotéis e uma marina em Setúbal. Grupo está em negociações com a Amorim Turismo para participar na estrutura accionista do Casino de Tróia.

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Instalações actuais do Clube Naval deverão ser deslocalizadas Nuno Ferreira Santos
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Projecto da Macau Legend para Setúbal inclui dois hotéis, marina e apartamentos DR

A Macau Legend, do empresário macaense David Chow, está a preparar um investimento de 250 milhões de euros num projecto turístico que pretende estreitar a ligação entre Setúbal e Tróia, aproveitando a baía de Setúbal, que passa pela construção de um resort e poderá incluir a entrada no capital do Casino de Tróia, detido pela Oxy capital e pela Amorim Turismo. Este é o primeiro investimento da Macau Legend em Portugal (e na Europa) e a expectativa da Câmara de Setúbal é que a construção arranque em 2017. Numa primeira fase, o projecto vai gerar três mil postos de trabalho.

A Macau Legend – registada nas Ilhas Caimão e um dos maiores operadores de jogo e entretenimento de Macau – e a Câmara Municipal de Setúbal, assinam na manhã desta quarta-feira, em Macau, um memorando de entendimento para a concretização do resort, que inclui uma marina, dois hotéis, de cinco e quatro estrelas, vários espaços comerciais, culturais e desportivos, como um pavilhão gimnodesportivo, e blocos de habitações privadas.

A assinatura do memorando, marcada para as 10h (hora de Portugal continental), foi confirmada ao PÚBLICO pela presidente do município de Setúbal, Maria das Dores Meira, que se encontra em Macau. David Chow Kam Fai, fundador e presidente da Macau Legend, escusou-se, por enquanto, a responder às questões colocadas pelo PÚBLICO, por não ter sido ainda informada a Bolsa de Hong Kong, onde a empresa é cotada, mas uma fonte próxima do empresário confirmou o interesse em Setúbal.

“A Macau Legend tem todo o interesse em Portugal e particularmente em Setúbal”, disse a referida fonte, acrescentando que “os investimentos [do grupo] são sempre em resort integrado, com hotel, marina, zonas de entretenimento e outros equipamentos e, em Portugal e Setúbal o modelo de interesse é o mesmo”. 

O pré-projecto elaborado para Setúbal prevê ainda um terminal de ferries e táxi marítimo, com o objectivo de articular a operação turística entre a cidade e a Península de Tróia, onde se localiza o casino do grupo Amorim Turismo, que o empresário macaense pretende integrar no investimento.

O PÚBLICO apurou que a Macau Legend está em negociações para participar na estrutura accionista do Casino de Tróia, detido em 75% pela Oxy Capital e 25% pela Amorim Turismo. Jorge Armindo, presidente da Amorim Turismo, confirmou “conversações” com a Macau Legend, mas recusou fazer mais comentários sobre o projecto.

Segundo a presidente da Câmara de Setúbal, o investimento em Portugal tem “autorização do governo chinês” e está “a ser acompanhado” pelo Governo português, com quem David Chow já se reuniu, em Lisboa.

O empreendimento será concretizado em duas fases – a primeira, no valor de 150 milhões de euros, inclui a construção da marina, do hotel casino, dos apartamento e de novas instalações para o Clube Naval Setubalense (CNS) – e representa o início de uma profunda transformação daquela zona da cidade.

“É uma revolução que se vai operar na zona ribeirinha e este projecto vai ser uma âncora para renovar toda a zona de frente do rio, porque temos a certeza que, a seguir a este investidor, virão outros”, diz Maria das Dores Meira.

Os terrenos para a implantação do novo complexo turístico são propriedade pública, sob administração portuária, mas a autarca garante que esse aspecto não constituirá impedimento ao negócio. “Há coisas por resolver, os terrenos de uso portuário têm de passar para domínio municipal, mas o Governo está a acompanhar as negociações e vai haver cedência de uso com toda a urgência, talvez em Julho ou Agosto”, adianta Dores Meira.

Além disso, o processo de abordagem e negociação com a empresa chinesa tem sido desenvolvido com base num dossiê preparado pelo município em conjunto com a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS).

O investimento em Setúbal é o terceiro grande projecto de internacionalização da Macau Legend, no espaço de um ano, depois da aquisição, em Maio, do casino Savan Vegas, no Laos, e do início da construção, em Fevereiro, no ilhéu de Santa Maria, em Cabo Verde, de um empreendimento turístico, no valor de 250 milhões de euros, idêntico ao agora previsto para Portugal.

Para a autarca sadina, este novo projecto vai projectar Setúbal como “destino turístico de renome mundial”. Dores Meira revela ainda que o município tem outros investimentos turísticos em curso, designadamente a construção de um hotel junto ao Forte de Albarquel, cujo pedido prévio “já deu entrada na câmara”, a recuperação do mesmo forte, que vão “começar em Setembro” e a hasta pública para utilização privada da Bateria do Outão, que “vai ser lançada”. 

Clube Naval desconhece projecto

Na doca de recreio de Setúbal, local de implantação do investimento chinês, está instalado desde 1934 o Clube Naval Setubalense (CNS), o segundo maior da cidade depois do Vitória Futebol Clube. Tem 94 anos de existência, dez mil associados e cerca de mil praticantes, sobretudo de modalidades ligadas à água e ao rio, como natação, vela ou canoagem.

O Naval tem a posse do espaço, vedado há muitos anos, onde hoje se localizam as piscinas e o pavilhão gimnodesportivo do clube. A autarquia garante que os associados não têm nada a temer, porque serão construídas, pelo promotor macaense, novas instalações para o Naval, a alguns metros das actuais.         

“Os sócios do Naval podem ficar descansadíssimos”, assegura Dores Meira. A autarca acrescenta que o investidor macaense “vai dar uma sede nova, descida para a água [acesso à utilização do rio], tudo novo”, e que a autarquia vai acompanhar a elaboração do projecto definitivo com uma equipa especificamente “criada para isso”.

Apesar destas garantias, a direcção do CNS não se mostra disponível para aceitar a deslocalização. “Está fora de questão o clube sair daqui, do local onde se encontra desde 1934”, diz o presidente do Naval ao PÚBLICO. Hugo O’Neill acrescenta “desconhecer” o projecto, embora tenha já conhecimento da “ideia”. Segundo o dirigente, a eventual deslocalização “prejudica o clube” pelo que a direcção está em “completo desacordo” com essa hipótese e, “se assim for, o Naval é contra”.

Embora admita que o CNS não é o originário proprietário dos terrenos, e que paga uma renda pelo espaço, o presidente do clube defende que “há um direito adquirido pelo clube”.  

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