Editorial

Um referendo para acolher 1294 pessoas?

Depois do Reino Unido, agora é a vez de a Hungria referendar a parte da União de que não gosta

Em Fevereiro, quando Viktor Orbán avançou com a proposta de fazer um referendo ao sistema de quotas de refugiados na União Europeia, o britânico Guardian escrevia que a promessa do primeiro-ministro húngaro “confirmava o receio de Bruxelas de que o referendo convocado por David Cameron para conseguir uma mudança de políticas na Europa poderia ser contagiado”. Com a vitória do “Brexit”, ainda mais força ganham aqueles que na Hungria estão em campanha pelo “não”. No caso húngaro, a pergunta do referendo é: “Quer que a União Europeia tenha direito a decretar a instalação obrigatória de cidadãos não húngaros na Hungria sem aprovação do Parlamento?”

A consulta popular, que foi esta terça-feira marcada pelo Presidente para 2 de Outubro, é o culminar de uma guerra que o país abriu contra a política de refugiados da União. Depois de ter fechado as fronteiras da Sérvia e da Croácia com arame farpado, de juntamente com a Eslováquia ter apresentado uma queixa contra a União Europeia no Tribunal de Justiça da UE, de ter colocado seis a dez mil polícias e soldados a patrulhar a fronteira com a Sérvia, o referendo é apenas o culminar de uma onda que está a ser criada por Orbán não só para travar como também para hostilizar os imigrantes.

Até porque os húngaros estão a ser chamados a votar sobre um sistema de quotas obrigatório e que implica a distribuição de 160 mil requerentes de asilo pelos vários países da União, sendo que neste sistema caberia à Hungria acolher 1294 refugiados, que actualmente estão na Grécia e na Itália. Para um país que tem dez milhões de habitantes é quase ridículo. Com a campanha agressiva que está a ser feita por Viktor Orbán, é provável que o “não” até possa vencer. Mas, neste cenário, pelo menos deveriam ser consequentes como foi o Reino Unido. Não se pode querer pertencer a uma União e escolher ficar só com a parte que nos interessa e descartar o resto. Sendo que o resto se chama solidariedade.