“Resolução do Banif foi um circo, em que os lesados foram os palhaços”

A associação de lesados abriu esta quinta-feira as audições da comissão de inquérito ao Banif no parlamento madeirense. Entre histórias de quem perdeu as poupanças de uma vida e os números frios de um processo, ficam as críticas ao supervisor, ao banco e ao Santander.

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Mais do que números e da complexidade de produtos financeiros, a Associação de Defesa dos Lesados do Banif (Alboa) levou esta quinta-feira à primeira audição da Comissão de Inquérito ao banco, na Assembleia Legislativa da Madeira, histórias de quem perdeu tudo, sem saber bem como, nem porquê.

“Vocês são deputados, vocês representam pessoas, e são pessoas que estão aqui em causa”, disse, a um dado momento, Daniel Caires, um dos fundadores do movimento de ex-obrigacionistas e accionistas do Banif, apelando à comissão para que coloque de parte as diferenças políticas, e concentre-se na resolução dos problemas dos mais de três mil associados da Alboa.

Em parte, e apesar daqui e ali alguns deputados terem tentado saber quem é que estava mais ao lado dos lesados, se os social-democratas que governam a Madeira ou os socialistas que lideram os Açores, a política acabou por ficar à porta da sala de comissões. Logo no início, o deputado do PSD, Paulo Marques, pedia para que a comissão não fosse utilizada como “arma de arremesso” partidário, por respeito à “desgraça” que se abateu sobre tantas pessoas.

E foi de pessoas que se falou, com Jacinto Silva, presidente da Alboa, e Daniel Caires, a começarem pelas mais de três mil obrigações subordinadas que foram vendidas pelo banco, no valor global próximo dos 350 milhões de euros, e terminarem em casos concretos que “diariamente” chegam à associação. Como aquele de um homem de 80 anos que investiu, sem saber, numa obrigação a 10 anos.

“Pensava, como muitos pensaram, que estava a colocar o dinheiro a prazo, e mesmo depois do banco ter sido resolvido não sabia realmente o tinha acontecido às poupanças”, contou Daniel Caires. Só soube da verdade quando preencheu a ficha de inscrição na Alboa. “Estava convencido que tinha perdido o dinheiro porque o banco tinha falido, e insistiu que tratava-se de um depósito a prazo”, acrescentou.

Também Jacinto Silva falou de um caso particular, o do dele. Aqui, admitiu não se trata de “iliteracia financeira” como na maioria dos lesados, mas sim de uma “simples burla”. Foi a mulher que investiu num produto financeiro, aliciada por um telefonema de um gerente do banco. “Durante seis meses pedimos os documentos para saber onde tínhamos investido. Seis meses.” Quando finalmente entregaram a documentação já era outra coisa, não aquilo que tinham acordado.

O rol de histórias continuou. Passou pelo agricultor que estava em casa a cuidar das vacas e recebeu a visita de um gerente de uma agência açoriana para assinar um papel. Demorou-se nas investidas do Banif junto da comunidade madeirense emigrada na Venezuela. E terminou com duas conclusões: a maioria das pessoas abordadas não cumpria os requisitos definidos pelo BdP para aqueles investimentos, e o banco agiu de má-fé.

“O Banif comportou-se como uma organização criminosa, como criminosa foi o processo de resolução”, acusou o deputado socialista Jaime Leandro. O banco, completou Jacinto Silva, agiu até contra os próprios colaboradores, que foram pressionados a contrair empréstimos para comprar acções do Banif.

O modus operandi era sempre o mesmo. Os funcionários, explicou o responsável pela Alboa, contactavam os potenciais clientes quando os depósitos a prazo destes venciam, e com promessas de maior rentabilidade e de segurança garantida, convenciam as pessoas a investir em obrigações subordinadas. E como o faziam? Dizendo duas coisas: que era absolutamente seguro, afinal o Estado tinha 60% do capital do banco, e o Estado não vai à falência, e que tratava-se de simples depósitos a prazo.

“Não estamos aqui a falar de especuladores de mercado, mas de pessoas simples que apenas queriam optimatizar os juros de 3% [o que pagavam os depósitos a prazo] para 5% [a rentabilidade dos produtos financeiros], que foram enganadas e ficaram sem nada”, sublinhou Jacinto Silva, lamentando o “desespero” de algumas pessoas que vivem agora dependentes de auxílios sociais, e de outras para quem, diz, o suicídio parece ser a única solução.

E no final de tudo isto, o que fica? Fica, afirma o presidente da Alboa a vontade de que seja feita justiça e que as pessoas recuperem o que perderam. Seja pela via judicial - já foram apresentadas várias queixas em Ponta Delgada e Lisboa contra a resolução do banco e contra a TVI, que Jacinto Silva diz ter precipitado o desfecho do Banif -, seja pela negociação com o Santander.

Os empréstimos que foram contraídos no Banif para a compra de acções e produtos financeiros estão a ser cobrados pelo Santander, mas o investimento que foi feito desapareceu. “Desde a semana passada que a CMVM autorizou o Santander a negociar com os lesados, é isso que queremos”, frisou Jacinto Silva, mostrando-se satisfeito com a garantia deixada pelo chefe do executivo madeirense, Miguel Albuquerque, de sensibilizar o Presidente da República, que está de visita à Madeira, para esta questão.

As audições da comissão prosseguem na próxima semana. Os deputados querem ouvir Rui Rebelo, presidente do conselho de administração da Empresa de Electricidade da Madeira, que era acionista do banco, e dois antigos responsáveis do Banif: Jorge Tomé e Luís Amado, que também já foram ouvidos pela comissão parlamentar de inquérito que decorre na Assembleia da República.