A Matemática também faz campeões de futebol e estrelas Michelin

Fomos conhecer o lugar da disciplina no dia-a-dia de um treinador, um chef de cozinha e um engenheiro civil.

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O “chef” Avillez à mesa: “Tento poupar segundos, que depois podem significar minutos ou horas” JOSE MARIA FERREIRA

20 de Março, estádio do Bessa, na cidade do Porto. Já passavam dois minutos dos 90 regulamentares quando Jonas marcou o único golo do Benfica na partida frente ao Boavista. Já em tempo de compensação, o avançado ainda tinha forças para dar aos "encarnados" mais um triunfo importante para o tri-campeonato nacional de futebol, conseguido semanas depois. "Sorte", queixaram-se os rivais. "Matemática", terá pensado Paulo Mourão. Foi ele o treinador-adjunto responsável pela preparação física dos jogadores durante a última época e a disciplina "está em quase tudo" no seu trabalho.

Opções como dosificar a carga de treino e substituir (ou manter em campo, como no caso de Jonas, um homem de 32 anos) um futebolista têm uma base numérica. "Temos dados objectivos que nos permitem quantificar determinados indicadores que nos ajudam à decisão", explica Mourão, licenciado e mestre em Educação Física, que estava a fazer o Doutoramento em Fisiologia do Futebol quando o técnico-principal Rui Vitória o levou de Guimarães para o Estádio da Luz. A disciplina é também aplicada em questões de espaços ou proporções dentro do terreno de jogo, por exemplo, e há também análises baseadas em estatísticas de desempenho dos futebolistas que implicam o uso de conceitos matemáticos mais complexos a que o técnico tem muitas vezes de recorrer. Talvez por isso, algumas mudanças possam por vezes parecer estranhas aos treinadores de bancada.

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Linguagem de "alta precisão"

"Não são só os aspectos físicos e fisiológicos do jogo que estão implicados, mas também questões de organização ou técnico-tácticas que têm esta dimensão", expõe o treinador-adjunto do Benfica. A Matemática está no dia-a-dia do futebol, mas também está presente noutras áreas, nalgumas das quais de formas que podem parecer mais óbvias, como na engenharia civil ou nas tecnologias digitais; noutras, de formas menos evidentes, como pode ser disso exemplo a cozinha. A vantagem desta disciplina é que é uma "linguagem da mais alta precisão", sintetiza António Adão da Fonseca, engenheiro civil que foi responsável pelos projectos das pontes do Infante, no Porto, ou Pedro e Inês, em Coimbra, por exemplo.

"Essa característica permite à Matemática ser usada, por exemplo, para formular uma teoria", mas também tem um elemento "especulativo" que a torna cada vez mais utilizada em áreas como o design ou a criação artística, refere Adão da Fonseca. A Física, disciplina central para um projecto de engenharia civil como uma ponte, é também Matemática, aplicada. Portanto, a utilização de fórmulas e cálculos para garantir que uma estrutura fica de pé e resiste ao desgaste do tempo é uma parte central do trabalho de um projectista. "Mas nos projectos das pontes tive sempre de ir além do sistema decimal", comenta. Há outras decisões que um engenheiro civil tem que tomar e que implicam conhecimentos de outras áreas mais longínquas como a estética.

"Rigor de raciocínio"

O conhecimento matemático aprofundado implica um "certo rigor de raciocínio" que agrada a este antigo professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Se pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o chef de cozinha José Avillez teria investido mais no estudo da Matemática e da Filosofia. "Hoje considero que são as disciplinas mais importantes, porque nos ajudam muito a estruturar o pensamento", defende o responsável pelo restaurante lisboeta Belcanto, o primeiro português a ter duas estrelas Michelin.

Em pequeno, Avillez lembra-se de fazer contas de cabeça com muita facilidade. Tornou-se "preguiçoso" na altura de passar os cálculos para o papel e o bom aluno que foi durante uns anos tornou-se "mediano", mas quando a Matemática começou a tornar-se mais complexa. "Passei os exames nacionais do secundário mais ou menos por baixo", recorda. Na fase em que se tomam essas decisões, em plena adolescência, "não se pensa muito" na importância das matérias que se está a aprender. "Até temos alguma arrogância de pensar que não vamos precisar daquilo para nada", diz José Avillez. Uma frase que, nesta ou noutras versões, pais e professores ouvem com frequência dos estudantes.

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A ponte do Infante, no Porto, do engenheiro António Adão da Fonseca, que elogia a matemática como “linguagem da mais alta precisão”

Números à mesa

Essa ideia, percebe hoje o chef de cozinha, não corresponde à realidade. No quotidiano dos seus restaurantes, os números são aplicados em vários domínios. Por exemplo, nas receitas, quando é necessário somar gramagens e mililitros para fazer com que um prato pensado para duas pessoas possa servir 40 clientes, é necessário ter em conta as proporções e as equivalências entre unidades de medida. "Há algumas rasteiras como na Matemática e são necessárias algumas fórmulas, que nem todos os cozinheiros dominam", conta José Avillez. Essa precisão é particularmente importante quando se trata de pastelaria ou daquilo a que se convencionou chamar "gastronomia molecular", na qual há pratos quem implicam pontos de gelatina ou de espessante em que 0,1 gramas de algum ingrediente fazem toda a diferença.

Um dos aspectos com que Avillez vive "obcecado" na gestão diária dos seus restaurantes é com a melhor forma de rentabilizar os recursos de que dispõe. "Tento poupar segundos, que depois podem significar minutos ou horas", conta. É essa a forma de garantir que o prato elaborado chega no tempo exacto à mesa do cliente e com o mínimo desperdício possível. E para que isso aconteça há vários cálculos necessários e um raciocínio abstracto que tem muito de matemático, entende.

Quase sem dar por ela

Exemplos como estes mostram que os níveis de utilização quotidiana da disciplina variam em função das profissões de cada um. "Todas as pessoas têm que ter noções de percentagens, proporcionalidade e de operações simples, mas nem todos usam Matemática pesada no seu dia-a-dia", analisa o presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), Fernando Pestana da Costa. Mas há um outro domínio em que "todos somos expostos" ao seu uso, "quase sem darmos por ela", sublinha o também professor da Universidade Aberta. Fala das tecnologias digitais, que estão presentes nos computadores, smartphones ou câmaras fotográficas que quase toda a gente usa quotidianamente neste momento.

Por exemplo, o algoritmo da versão mais actual do JPEG, um dos formatos de fotografia digital mais utilizado, tem por base conhecimento matemático desenvolvido nos últimos 20 a 30 anos, "o que em Matemática é o mesmo que dizer ‘ontem’", ilustra o presidente da SPM. Só é "difícil de passar" esta mensagem sobre a omnipresença da disciplina no nosso quotidiano, entende Pestana da Costa. Ao contrário da tecnologia do século XIX, em que qualquer um podia ver a máquina a vapor a mexer e entender o seu movimento, hoje em dia a operação dos dispositivos é invisível. "Para o cidadão comum é quase um acontecimento mágico", elabora. Por isso, é mais fácil cativar as pessoas para a espectacularidade dos dispositivos do que explicar a ciência por detrás deles.

Cativar os estudantes

Esse é um caminho necessário para desmistificar a ideia da inutilidade da Matemática, como a que passava pela cabeça do chef José Avillez nos seus tempos de estudante, entende o mesmo responsável. "Às vezes é preciso concentrarmo-nos na parte abstracta da disciplina, mas é necessário manter sempre o interesse dos estudantes", considera o presidente da SPM. Para que isso aconteça, o papel dos professores é "fundamental". Daí que Fernando Pestana da Costa defenda que a formação contínua dos professores do ensino obrigatório devia incluir dimensões que não se limitem às questões metodológicas ou pedagógicas.

Para Pestana da Costa, os docentes de Matemática devem ter condições para fazerem uma frequente actualização científica. Só isso lhes permitirá estar a par com o que de novo está a ser estudado na sua área, de modo a poderem estabelecer paralelos com as utilizações mais quotidianas dos seus alunos ou a cativá-los com uma possível carreira de futuro. Será essa a forma de manter a ligação dos alunos com a matéria da disciplina, defende.