Oposição espanhola exige a Rajoy que afaste o seu ministro do Interior

Alegada conspiração do Governo de direita para desacreditar opositores catalães e beneficiar PP incendeia últimos dias da campanha. “O presidente do Governo sabe”, diz ministro, numa conversa gravada

Rajoy e o seu ministro do Interior, na altura das gravações, em Outubro de 2014
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Rajoy e o seu ministro do Interior, na altura das gravações, em Outubro de 2014 Andrea Comas/Reuters

E a quatro dias das legislativas de domingo, eis que um acontecimento une todos os líderes da oposição contra o Partido Popular. Um diário divulgou excertos de gravações de conversas do ministro do Interior com o director do Gabinete Antifraude da Catalunha em que o governante sugere ao magistrado formas de implicar líderes de dois partidos catalães em escândalos de corrupção. Isto, semanas antes da consulta sobre a independência da Catalunha, em 2014.

Segundo o Público.es, que divulga as gravações, estas referem-se a encontros com 14 dias de intervalo. No segundo, ouve-se o ministro, Jorge Fernandéz Díaz, explicar a Daniel de Alfonso que “o presidente do Governo [Mariano Rajoy] sabe” de tudo, algo que não deve preocupar o magistrado catalão, já que “homem mais discreto não há; a sua mão direita não sabe o que a esquerda anda a fazer”.

Rajoy diz que não sabe de nada, não ouviu nem pretende ouvir as gravações e só agora descobriu quem é Alfonso. Sem saber do que fala, lá acusa o diário de esquerda (próximo do Podemos) de “manobra eleitoral”. Era a resposta esperada: afinal, foi isto que Rajoy fez sempre que um escândalo o envolveu ou ameaçou tocar-lhe desde que chegou ao poder, em 2011. Díaz, por seu turno, jura que “as únicas vítimas de conspiração” são ele próprio e o PP, face à divulgação “descontextualizada e editada” do conteúdo destas reuniões, dois anos depois de terem ocorrido, e ainda mais, na recta final da campanha.

Já Alfonso admite que Díaz lhe fez “sugestões” e confirma que as gravações são genuínas. Como disse então ao ministro, o responsável confirma que existiam apenas “indícios muito fracos” contra Roger Junqueras (irmão do vice-presidente do governo catalão) da Esquerda Republicana, e Felip Puig, histórico dirigente da Convergência da Catalunha. O que Alfonso desmente é ter sido ele a gravar as reuniões, como escreve o jornal que as obteve. Isso e ter agido em função do que lhe foi sugerido por Díaz, claro.

O líder socialista, Pedro Sánchez, deu uma conferência de imprensa para descrever como “inaceitável” que se usem recursos do Estado para “fins partidários”, no caso, “para criar a aparência de delitos” por parte de rivais políticos e, assim “fortalecer a projecção do PP na Catalunha”. Para Sánchez, o uso partidário de instrumentos de Estado é a “máxima expressão da corrupção”.

Contra as normas democráticas

Pablo Iglesias, candidato à chefia do Governo da aliança Unidos Podemos (que as sondagens colocam em segundo, atrás do PP e à frente do PSOE, de Sánchez), considera que em causa está “uma das coisas mais graves que já aconteceram na Espanha”. Iglesias ouviu as gravações e não tem dúvidas: “O caso é suficientemente grave para que haja demissões imediatas”.

“Se as gravações são verdadeiras, o ministro deve demitir-se de imediato”, pede, por seu turno, o líder do Cidadãos, o partido centrista que está em quarto lugar nos inquéritos. “Em democracia, a polícia está ao serviço da democracia e não dos partidos políticos”, sublinha Albert Rivera.

O candidato socialista à chefia do Governo lembra ainda revelações anteriores sobre o mesmo Díaz que sugerem o seu envolvimento em casos de corrupção para benefício da direita no poder, actuações arredadas “de todas as normas democráticas”. Mas Sánchez também diz que não vale a pena esperar que Rajoy tire disto quaisquer consequências.

A noção de que a corrupção é generalizada nas instituições espanholas foi um dos grandes motores do Movimento 15-M que, por sua vez, deu origem ao Podemos (e, indirectamente, ao Cidadãos) e carimbou o fim do bipartidarismo. Em Dezembro, as urnas confirmaram a nova realidade multipartidária, sem que os partidos se tenham conseguido entender para formar governo. O PP perdeu, e muito, mas, apesar da austeridade e das suspeitas de corrupção e abuso de poder, manteve-se como partido mais votado. Domingo se verá se assim continua.