Entrevista

Andrea Wulf: “Há 200 anos, Humboldt avisou que iríamos destruir a natureza”

Um dos maiores pensadores do século XIX foi ressuscitado por Andrea Wulf. O naturalista Alexander von Humboldt deixou uma marca profunda na forma como vemos a natureza. Para a escritora, ele é o pai esquecido do ambientalismo.

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O monte Chimborazo pintado por Frederic Edwin Church, em 1859 DR
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Alexander von Humboldt pintado por Friedrich Georg Weitsch em 1806 DR
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A escritora Andrea Wulf Antonina Gern

Quando Alexander von Humboldt morreu, em 1859, a procissão de enlutados em Berlim tinha cerca de um quilómetro e meio. O rei prussiano Frederico Guilherme II dizia que ele era “o maior homem desde o dilúvio”. Ao longo dos seus 89 anos, este Humboldt influenciou personalidades tão distintas como Charles Darwin, o escritor Johann Wolfgang von Goethe, o Presidente norte-americano Thomas Jefferson e o político revolucionário Simón Bolívar.

Homem de uma memória invulgar, capaz de unir disciplinas distantes para ler a realidade, foi ele quem olhou para a natureza como um todo. Passadas algumas décadas, Humboldt já tinha sido esquecido. É esta figura complexa que a escritora Andrea Wulf — que vive no Reino Unido — traz para a ribalta em A Invenção da Natureza - As Aventuras de Alexander von Humboldt, o Herói Esquecido da Ciência, editado recentemente pela Círculo de Leitores.

Uma das imagens mais fortes do livro é a escalada que Humboldt fez em 1802 ao monte Chimborazo, um vulcão extinto no Equador, com 6310 metros de altitude. É nesta viagem que a visão científica e poética de Humboldt se une para ver a natureza como “uma teia de vida e uma força global”, lê-se no livro da autora entrevistada pelo PÚBLICO.

Qual é a importância de Humboldt para a ciência?
Para Humboldt, a natureza era uma teia da vida. Ele é o pai esquecido do ambientalismo. Ele acreditava que o conhecimento devia ser acessível a toda a gente. Ele uniu a arte e a ciência. Hoje, temos a tendência de estabelecer uma grande barreira entre as artes e a ciência, entre o subjectivo e o objectivo. Ele disse que tínhamos de usar instrumentos científicos para compreendermos a natureza, mas também a imaginação e os sentimentos. Humboldt era realmente impulsionado pela sensação de deslumbramento. Foi isso que inspirou tantas outras pessoas que o seguiram.

O que era novo na forma dele de olhar a natureza?
Ele via a Terra como um organismo vivo. Numa altura em que os outros cientistas olhavam pelo cano estreito da classificação [das espécies], ele estava interessado em olhar a natureza em termos de zonas climáticas globais, em termos de zonas de vegetações. Quando ele escalou as montanhas, viu que as zonas de vegetação estão umas por cima das outras. Por isso, ele não olhava em termos do que é uma espécie. De certa forma, é o primeiro a olhar para a Terra como um todo.

Que tipo de ferramenta lhe dava a visão artística que tinha?
Ele teve a ideia de apresentar a informação científica de uma forma visual e gráfica. O grande desdobrável do monte Chimborazo que fez, com as espécies de plantas escritas na parte cortada da montanha, e com colunas do lado esquerdo e direito que continham informação, permitia que, numa única olhadela, se compreendesse muitas coisas. Hoje chamamos a isto infografia.

Ele também disse que as pinturas de paisagens são tão importante para compreendermos a natureza como as medições científicas. Usou a arte para tornar visível algo que poderá não o ser de outra forma.

Humboldt usava diferentes disciplinas no seu trabalho. Será que as suas conclusões sobre a natureza seriam possíveis sem esta abordagem holística?
Acho que não. Ele une coisas como registos meteorológicos com plantas e com a geologia, e isso permite-lhe ver que existem regiões [de vegetação] semelhantes ao longo de continentes, embora haja entre elas enormes oceanos. É esta abordagem interdisciplinar que faz dele um cientista tão inovador e um pensador tão visionário. Um grande problema durante o século XX é que os cientistas percorrem um caminho cada vez mais estreito no foco das disciplinas em que trabalham, em vez de trabalharem transversalmente pelas disciplinas. Essa é uma das razões das pessoas se entusiasmarem com Humboldt.

Humboldt era um produto do seu tempo ou era um homem com uma visão diferente das coisas?
Ambas as coisas. Na altura, havia os chamados ‘cientistas românticos’, que não estão contra a introdução da arte na ciência. Mas ele também tinha algo de genial. Podia lembrar-se da forma de uma folha que tinha visto 40 anos antes. Isso permitia-lhe comparar coisas entre continentes diferentes. Poderia estar numa montanha na Rússia [a observar uma planta] e lembrar-se de uma planta semelhante que tinha visto 30 anos antes, nos Andes, e fazer uma ligação de carácter global.

Humboldt não fez nenhuma descoberta revolucionária como Darwin e Albert Einstein. No entanto, influenciou muitos pensadores. Porquê?
Não há nenhuma grande descoberta ligada ao seu nome. A razão para isso é que ele não estava interessado em apenas uma coisa. Darwin passou décadas a trabalhar na sua teoria sobre a evolução. Já Humboldt, como estava interessado em muitas coisas e era uma pessoa inquieta, saltitava de um tema para o outro. Isso tem a desvantagem de não se ter tornado um especialista num só tema. Mas deu-lhe uma visão muito mais holística. Por isso, a sua importância foi a de ter influenciado muitas outras pessoas. Há pensadores, artistas, cientistas, políticos, que são influenciados por ele. Essa é a razão por que não escrevi apenas sobre Humboldt; escrevi sobre Darwin, [o escritor] Henry David Thoreau. Muitas pessoas não conhecem Humboldt, mas ele influenciou-as fortemente através das mentes de terceiros.

No seu livro, opta por ter capítulos sobre algumas destas personagens. Porquê?
Humboldt via a natureza unida a tantas coisas diferentes: a natureza e a política estão unidas, a natureza e a poesia estão unidas, a natureza e a arte estão unidas. Eu queria escolher quem foi influenciado por Humboldt e estava ligado a um desses temas. Por isso, escrevi a natureza, a revolução e Bolívar; ou a natureza, a imaginação e Goethe; ou a natureza, a poesia, a ciência e Thoreau. Queria debruçar-me sobre o leque de assuntos em que Humboldt estava interessado através das pessoas que inspirou.

Que tipo de investigação fez para o livro?
Passei muitos meses nos arquivos em todo o mundo a ler as suas cartas. Como escrevi sobre mais oito pessoas, fiz mini-biografias delas. Fui à Califórnia, onde há um arquivo das cartas do [naturalista e escritor americano] John Muir, mas também a sua biblioteca. Felizmente tinham os livros de Humboldt. E Muir escreveu neles, é como ler uma conversa entre este e Humboldt, onde fica sublinhado o que foi importante [para Muir]. O mesmo aconteceu com os livros de Humboldt que Darwin tinha, no arquivo de Cambridge. Mas também quis seguir os passos de Humboldt. Sabia que queria ver a florestas húmidas, a Venezuela, os Andes, e definitivamente Chimborazo.

A escalada ao Chimborazo foi um momento definidor. De que forma é que repeti-la a ajudou a compreender o que Humboldt sentiu?
Quando subimos o Chimborazo, tivemos muita sorte: estava um dia lindo de sol. Acho que foi a primeira vez que senti que estava no cimo do mundo. As nuvens estavam a rolar por baixo. E porque se vê tanto, apercebi-me, de repente, de que ninguém tinha estado tão alto como Humboldt [naquela altura]. Ele deteve o recorde mundial de altitude durante décadas. Hoje, vemos fotografias da Terra do espaço, isto foi o mais próximo que ele esteve de ver a Terra de uma forma una. Isto permitiu-lhe aperceber-se de como tudo se liga: esta montanha não é apenas uma montanha, mas pertence a uma cordilheira.

Qual foi a descoberta mais interessante que fez na sua investigação?
Uma coisa que achei absolutamente fantástica e profética foi que ele, em 1800, previu como os humanos iriam provocar as alterações climáticas. Há 200 anos, ele avisou que iríamos destruir a natureza. Há uma altura em que ele escreve no seu diário que um dia iremos ocupar outros planetas, e iremos destruí-los e torná-los tão devastados e estéreis como fizemos à nossa própria Terra.

Humboldt era contra a escravatura e o colonialismo, e a favor da democracia. Foi surpreendente descobrir um cientista tão vocal em relação à sua visão política das coisas?
Não. Esquecemos-nos que aquele era um tempo em que muitos cientistas estavam realmente interessados na política. Depois da Revolução Francesa temos cientistas em posições governamentais. Humboldt era um filho do seu tempo. Mas, devido às suas viagens, ele apercebeu-se de muitas outras coisas. Viu os efeitos do colonialismo na América do Sul e tornou-se muito crítico. Ele não se tornaria tão crítico se não tivesse viajado às colónias, se não tivesse visto tudo com os seus olhos, de como a plantação colonial e a monocultura destruíram o ambiente. Ele criticava muito a Igreja, porque viu como os missionários tratavam os indígenas e os escravos.

O que é que fez Humboldt ser esquecido após a sua morte?
Ele não foi esquecido na América Latina. Qualquer criança na escola sabe quem ele foi. Lá, é muito mais conhecido como um amigo de Bolívar, não tanto como um cientista. Acho que há várias razões para ele ter sido esquecido [no mundo anglo-saxónico]. Não há nenhuma grande descoberta ligada ao seu nome. Trouxe uma visão holística do mundo, e é como se tivéssemos absorvido tanto as suas ideias que o homem por trás delas foi esquecido. Por outro lado, a ideia dele de que se deve usar a imaginação quando fazemos ciência não era aceite no início do século XX. Por fim, nos países de língua inglesa, após a I Guerra Mundial, havia um sentimento antigermânico tão grande que já não se celebrava um cientista alemão.

Acha que a sua visão de usar a estética para compreender a natureza ainda é útil, hoje?
É uma das coisas mais importantes sobre Humboldt. Isso está a faltar por completo. Na última cimeira do clima, em Dezembro, senti falta deste sentido da natureza maravilhosa, de uma sensibilização forte e apaixonada pelo nosso planeta. Tínhamos centenas de funcionários públicos, diplomatas, linguistas, todos a esforçarem-se por chegar a acordos com base em projecções estatísticas, o que é muito importante. Mas este reconhecimento de que só vamos proteger aquilo que amamos, isso está a faltar. Isso é uma coisa que a arte pode ajudar a compreender muito mais do que as projecções científicas.

O que podemos aprender com Humboldt?
Que tudo está ligado. Vivemos numa teia da vida, se destruirmos o nosso planeta, então vamos ser destruídos. De uma forma estranha, Humboldt é importante para o movimento ambientalista, é importante ter este pai fundador no plano de fundo, que mostra que é daqui que vimos, que estas não são ideias acabadas de nascer, há muito tempo que se pensa nelas.