Bactéria do intestino eliminou alguns comportamentos autistas em ratinhos

Por incrível que pareça, há uma relação entre a dieta dos ratinhos, as bactérias intestinais e o autismo. Estudo pode dar pistas para tratamentos não invasivos em humanos com esta perturbação

O número de genes que distinguem os ratinhos dos humanos poderá ser inferior a dez
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Experiência mostrou influência de bactéria do intestino no comportamento social de ratinhos Osaka University/AFP

Uma bactéria intestinal pode ter influência no cérebro e no comportamento social? Um estudo publicado esta semana na revista científica Cell defende que sim. Um grupo de neurocientistas da Faculdade de Medicina de Baylor, nos Estados Unidos, concluiu que uma única espécie de bactéria intestinal pode reverter comportamentos sociais associados ao espectro autista em ratinhos. Os investigadores constataram que os animais, filhos de progenitoras alimentadas com dietas ricas em gordura, não possuíam uma bactéria intestinal e apresentavam um défice social. Depois, tentaram reverter este efeito “alimentando” os ratinhos com a bactéria em falta. E conseguiram.

A “inspiração” para a investigação dos cientistas veio de “anteriores estudos epidemiológicos que concluíram que a obesidade das mulheres durante a gravidez poderá aumentar o risco de os filhos desenvolverem perturbações do neurodesenvolvimento, incluindo transtornos do espectro autista”, explica um comunicado da editora Cell Press sobre o estudo.

Mas há mais. Outra das pistas que serviram para colocar os neurocientistas a explorar este caminho entre o intestino e o cérebro foi o facto de “alguns indivíduos com transtornos do espectro autista registarem problemas gastrointestinais recorrentes”, acrescenta o comunicado. Juntando a tudo isto as recentes investigações que indicam que as dietas podem mudar a flora intestinal e também que as bactérias intestinais podem influenciar as funções cerebrais, Mauro Costa Mattioli e os seus colegas suspeitaram que poderia existir aqui uma ligação.

A primeira coisa a fazer foi “engordar” um grupo de 60 ratos fêmeas e fazer com que procriassem, assegurando que um outro grupo recebia uma “dieta normal”. Depois de alimentadas com várias refeições ricas em gordura, era preciso esperar pelos descendentes, deixá-los três semanas com as progenitoras e em seguida colocar todas as crias sob uma dieta normal. E observar o comportamento destes ratinhos.

Passado um mês, os descendentes dos animais que foram alimentados com uma dieta rica em gordura “demonstravam défices comportamentais, tais como passar menos tempo em contacto com os seus pares e não interagir com eles”, descreve o comunicado. Sinais de ansiedade e movimentos repetitivos eram outros dos “sintomas” das crias.

Recorrendo a uma análise comparativa de material genético das bactérias do intestino dos ratinhos com mães com uma dieta rica em gordura com o dos ratinhos descendentes de mães com uma dieta normal, os cientistas conseguiram detectar e identificar as bactérias presentes no intestino dos roedores (também conhecidas como “microbiota”) para procurar diferenças entre os dois grupos. “Encontrámos uma diferença clara no microbiota entre os descendentes dos dois grupos”, confirma Shelly Buffington, uma das autoras do artigo, citada no comunicado de imprensa. E acrescenta: “Os dados da sequenciação eram tão consistentes que apenas olhando para o microbiota de um ratinho conseguíamos prever se o seu comportamento estaria afectado.”

Mas constatar as diferenças não era o suficiente. Era preciso encontrar aqui uma relação de causa-efeito — ou seja, a equipa tinha de perceber se as diferenças no microbioma (conjunto dos genomas das bactérias intestinais) eram as causas destas diferenças comportamentais. E porque os ratinhos comem as fezes uns dos outros, os cientistas colocaram todos os animais juntos para que adquirissem as bactérias dos seus parceiros nesta experiência. Após quatro semanas de “convívio” foi possível observar resultados: os descendentes dos animais alimentados com uma dieta rica em gorduras e que apresentavam défices sociais restauraram o seu microbioma e melhoraram o seu comportamento.

Os cientistas concluíram que uma ou mais bactérias seriam importantes para um comportamento social normal. Com experiências de transferência de matéria fecal para ratinhos sem microbiota, ou seja, sem bactérias nos intestinos, comprovaram que era o desequilibro na variedade das bactérias intestinais dos descendentes de animais com uma dieta rica em gorduras que provocava os défices sociais.

“Bactéria social”

Mas que bactéria? Uma sequenciação do genoma permitiu detectar um tipo de bactéria (Lactobacillus reuteri) que estava muito menos presente (nove vezes menos) nos ratinhos com défice social.

O próximo passo quase se adivinha: os investigadores cultivaram a estirpe desta bactéria e colocaram-na na água que os ratinhos bebiam. Durante 28 dias. “Descobrimos que o tratamento com esta única bactéria foi capaz de recuperar o comportamento social dos ratinhos”, refere Shelly Buffington. Porém, avisa, alguns comportamentos associados ao espectro autista, como a ansiedade, mantiveram-se após o “tratamento”. Os cientistas perceberam também que esta bactéria promovia a produção da oxitocina, uma hormona que desempenha um papel importante no comportamento social e que também é associada ao autismo em humanos.

Faltava ver o que se passava no cérebro. Também havia diferenças. A resposta do cérebro numa área específica associada à recompensa era menor nos animais com problemas. Quando a bactéria usada na água dos ratinhos entrou em cena, estes animais também restauraram as alterações na função neste circuito da recompensa.

E agora? Os investigadores acreditam que este conhecimento pode ser aplicado nos humanos, apresentando-se como uma alternativa não invasiva às abordagens farmacológicas ou de neuro-estimulação eléctrica. Não se sabe quando isso poderá acontecer e que efeitos terá. “Acreditamos que esta abordagem tem um enorme potencial”, disse ao PÚBLICO por email Mauro Costa Mattioli. Entre muitas outras questões em aberto, falta saber, por exemplo, se este efeito conseguido com o “tratamento da bactéria” é transitório ou persistente, reconhece o investigador — ou seja, se será necessário uma administração continuada da bactéria para resolver o problema.

“O conceito de que uma bactéria do intestino podia ter uma profunda influência numa função cerebral era impensável há uns anos. A ideia que uma única espécie de bactéria possa ser usada para tratamento de desordens de desenvolvimento é impensável hoje”, diz Mauro Costa Mattioli, comentando a importância da descoberta. E agora, conclui, a equipa vai continuar a explorar esta estranha ligação entre as bactérias que vivem no nosso intestino e o nosso cérebro. “Vamos investigar se noutros modelos de autismo, em ratinhos, a nossa bactéria é eficaz e também estudar o mecanismo de acção desta ‘bactéria social’”.