Espanha: em busca do voto perdido, quatro políticos, a mesma missão

São as “eleições do desempate” ou do “desbloqueio”. Seis meses depois, os espanhóis serão de novo chamados a votar em legislativas. À primeira vista parece a segunda parte de um jogo que já todos viram, mas nem tudo é igual.

Os punhos de Iglesias e Gárzon, rostos da coligação Unidos Podemos
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Os punhos de Iglesias e Gárzon, rostos da coligação Unidos Podemos Andrea Comas/Reuters
Rajoy, sorridente, no arranque de uma campanha que ser positiva
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Rajoy, sorridente, no arranque de uma campanha que ser positiva Susana Vera/Reuters
Sánchez começou a campanha na praça Zerolo do bairro madrileno da Chueca
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Sánchez começou a campanha na praça Zerolo do bairro madrileno da Chueca Juan Medina/Reuters

Os candidatos são os mesmos, os programas sofreram alguns, poucos, ajustes. A luta que era a dois desde sempre agora faz-se a quatro, mas isso já os espanhóis sabem desde 20 de Dezembro. Espanha vive praticamente em campanha eleitoral desde as eleições europeias de 2014 e prepara-se para, pela primeira vez, repetir umas legislativas. Há apenas uma mudança nos boletins que os espanhóis terão pela frente a 26 de Junho, uma nova palavra que pode fazer muita diferença.

Depois de meses de negociações falhadas, todos os analistas concordavam num ponto: o eleitorado ia castigar o Podemos, cujo líder, Pablo Iglesias, apresentou em público um programa e um organograma de governo (em que era vice-presidente) antes sequer de ser recebido por Pedro Sánchez, líder do PSOE, o segundo mais votado. Depois da arrogância veio a imagem dos eleitos do Podemos, supostos porta-vozes da vontade de mudança dos espanhóis, a votar ao lado da direita do PP para chumbar, por duas vezes, um governo do PSOE.

As sondagens davam razão às análises e, numa primeira fase, o Podemos desceu nas intenções de voto. Só que o eleitorado nem sempre é previsível e agora, são mesmo os socialistas que aparecem como os mais castigados pelo fracasso em formar Governo. Iglesias deu a volta ao negociar uma coligação pré-eleitoral com a Esquerda Unida, de Alberto Gárzon. O Podemos é agora Unidos Podemos e ainda estende a mão ao PSOE. A diferença é que, desta vez, a soberba é justificada.

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Com a ajuda do sistema proporcional (método de Hondt), a junção da palavra Unido ao Podemos é mais do que a soma dos dois partidos e ultrapassou o PSOE de Pedro Sánchez em todas as sondagens – às dos principais institutos, publicadas pelos jornais mais importantes, juntou-se, na quinta-feira, o grande inquérito do CIS (Centro de Investigações Sociológicas), divulgado poucas horas antes do arranque oficial da campanha, à meia-noite.

O PP, do ainda primeiro-ministro, Mariano Rajoy, volta a ser vencedor, mas perde deputados; segue-se o Unidos Podemos e o PSOE desce para terceiro (com quase os mesmos votos mas menos dez lugares no Congresso); o Cidadãos (C’s) mantém-se em quarto, com um resultado parecido ao de Dezembro. Para além da ultrapassagem que o Podemos faz ao PSOE, há nesta mega-sondagem outro dado importante: em conjunto, os eleitos das duas formações de esquerda começam a aproximar-se da desejada maioria de 176.

A nova realidade deixa Sánchez na pior das posições. Ainda diz que está a lutar pela chefia do governo, o contrário seria suicídio, mas o que está em jogo é a sua sobrevivência enquanto líder e a relevância do próprio partido. A sua estratégia passa por ignorar sondagens e apostar tudo na mobilização do eleitorado socialista, o menos entusiasmado com a repetição das eleições. “Apelo com a razão e com a emoção ao votante socialista. Nunca como agora foi necessário o compromisso dos socialistas e progressistas”, afirmou no comício inaugural.

A “emoção” ficou sublinhada com a escolha do lugar, a praça Pedro Zerolo, dirigente socialista e activista LGBT, que morreu há exactamente um ano. Segundo o líder socialista, cumpria-se assim um desejo de Zerolo, que sempre quis ver uma campanha a começar no bairro madrileno da Chueca. Aos eleitores pediu os mesmos valores de Zerolo, “activismo e espírito reivindicativo”.

À sua dimensão, Albert Rivera, líder dos centristas do C’s, encontra-se numa posição algo semelhante à de Sánchez, combatendo para manter o seu protagonismo, neste caso como partido chave para formar governo (o único acordo alcançado no início do ano foi precisamente entre o PSOE e o C’s). O outro partido da nova política e da regeneração já não fala em vencer, como em Dezembro, quando Rivera pedia a mudança “tranquila”, por oposição à “revolucionária” do Podemos. Agora, já só quer manter-se relevante nas negociações que se seguirão ao voto.

“A mudança sensata estenderá a mão ou à esquerda ou à direita, a quem quiser mudar as coisas”, disse Rivera no início da campanha. “Se o Cidadãos não for decisivo, o PP e o PSOE não mudam uma vírgula aos erros dos últimos anos. Quando fomos decisivos, as mudanças aconteceram”, repetiu, defendendo assim a sua política de pactos, que já produziu governos de coligação com o PSOE, na região da Andaluzia, e com o PP, nas autonomias de Madrid ou Múrcia.

Dois protagonistas

Tanto Sánchez como Rivera têm nas mãos a tarefa de não permitir que esta campanha se polarize, transformando-se num filme com dois protagonistas: Rajoy e Iglesias não só surgem em primeiro e segundo lugar nas sondagens como estão no extremo um do outro e oferecem, por isso, uma narrativa mais apetecível. O grande teste a esta polarização acontece já na segunda-feira, com o único debate a quatro.

Para Rajoy, o desafio é manter uma campanha positiva e evitar ataques duros contra os rivais. Os estrategas do PP concluíram que o mais importante é não acicatar os eleitores de esquerda que possam estar desencantados depois de Dezembro e, ao mesmo tempo, despertar os conservadores que se abstiveram à primeira.

Os maiores problemas do PP chegarão depois de contados os votos, já que tudo indica que uma eventual coligação com o C’s ficará longe da maioria. Entretanto, é tempo de repetir que o voto nos populares é a escolha da “moderação e da estabilidade”.

Rajoy, que depois das eleições de Dezembro optou por se fingir de morto e nem quis ser indigitado pelo rei, vai reiterar que geriu bem a crise, defender a importância da experiência e martelar nos números que indicam uma retoma económica. “É preciso manter as rédeas das políticas de recuperação e de emprego”, afirmou no primeiro comício, num discurso destinado aos fiéis de sempre e aos eleitores que tanto votam PSOE como PP, assustando-os com uma coligação entre o Unidos Podemos e os socialistas.

Abstenção e indecisos

Sobra à dupla Iglesias-Gárzon o confortável papel de líderes da alternativa à direita da austeridade draconiana. Com vantagem nas sondagens, a campanha do Unidos Podemos já pode pedir o voto útil à esquerda sem que isso soe a ambição desproporcionada. São por isso naturais as palavras escolhidas por Iglesias para começar a campanha: “É provável que tenhamos de assumir responsabilidades muito importantes”.

Os dirigentes da coligação vão tratar Rajoy como rival e evitar atacar muito os socialistas, com quem pretendem chegar ao poder. A ideia é começar já a trabalhar nas pontes que Iglesias tanto minou, ao tratar os socialistas como o principal inimigo na luta pela hegemonia da esquerda.

Quando as urnas já provaram que só haverá governação com pactos, esta candidatura pode ganhar ao assumir a sua escolha à partida. Dirigindo-se a Sánchez, Iglesias garantiu que tem “a mão estendida para um Governo de mudança”. Uma mão que o líder socialista não pode acolher, sob pena de se autodestruir – a única certeza sobre alianças que Sánchez diz ter é que nunca votará para permitir ao PP governar. Sabendo sem o dizer que se ficar em terceiro a sua oposição interna tentará expulsá-lo da liderança antes mesmo de se sentar à mesa com Iglesias.

Em comum, os quatro principais partidos têm um inimigo chamado abstenção e apresentam-se com a mesma certeza que não haverá terceira ida às urnas (mesmo sem explicarem exactamente como é que podem garanti-lo). Com mais ou menos participação, todos os votos contam e cada dia de campanha também. Afinal, em Dezembro foram mais de 30% os eleitores que decidiram o seu voto nas duas semanas de campanha, o mesmo número daqueles que agora se dizem indecisos mas decididos a votar.

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