O bairro do Castelo tem memórias para contar. E futuro?

Houve um tempo no bairro de Santa Cruz do Castelo, em Lisboa, em que a continuação das salas era a rua: gente a conversar à porta, crianças a jogar à bola na rua, almoços e jantares partilhados em pequenos becos. As pequenas dimensões das casas estimulavam o convívio típico de uma aldeia, entre as muralhas do Castelo de São Jorge. Hoje, as ruas foram tomadas por turistas em proporções desiguais: o bairro, que chegou a ter 3500 moradores, tem hoje pouco mais de 300. Já o Castelo de São Jorge é o monumento mais visitado do país: em 2015 registou mais de 1 milhão de visitantes.  

As memórias do bairro do Castelo começaram a ser recolhidas o ano passado, com a primeira edição da Traça, uma mostra de Filmes de Arquivos Familiares da Videoteca de Lisboa. A organização queria começar no bairro que representa a origem da cidade, mas a tarefa não foi fácil: havia poucos registos fotográficos, em vídeo eram praticamente inexistentes. O bairro do Castelo sempre foi maioritariamente um bairro pobre: algumas das fotografias eram os turistas que enviavam aos moradores. Mas a presença dos organizadores da Mostra no bairro acabou por agitar as águas. O Grupo Desportivo do Castelo, fundado em 1934 e um dos pilares de união social no bairro, estava à beira de fechar portas com dificuldades financeiras. A recolha de memórias acabaria por incentivar o grupo a promover novas actividades e a ganhar voz, juntamente com a recém-criada Associação de moradores Há Castelo.

A pressão turística é a grande queixa. À semelhança do que tem acontecido noutros bairros do centro histórico lisboeta, grande parte das casas hoje no bairro do Castelo foram tomadas por alojamentos locais. Quem ainda resiste teme que o bairro se torne num aldeamento turístico. Por outro lado, os moradores deixaram de ter livre acesso ao interior do Castelo (podem entrar gratuitamente, mas têm de estar na fila), perderam mobilidade de circulação dentro do bairro e vêm o comércio local desaparecer para dar lugar às lojas de souvenirs. E depois há a memória das “grandes obras”: há 20 anos, as obras de reabilitação do Castelo retiraram grande parte dos moradores de suas casas para possibilitar as intervenções. Muitos escolheram não regressar após vários anos fora. Que futuro há para o bairro do Castelo?

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