É o destino da própria Europa que se joga no referendo britânico

Uma história de encontros e desencontros tem agora o seu epílogo. No dia 23, o Reino Unido faz um referendo sobre a sua permanência ou saída da União Europeia.

David Cameron joga o seu lugar na História
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David Cameron joga o seu lugar na História AFP

A História insinua-se nos últimos dias do debate sobre a eterna questão europeia que sempre ensombrou o Reino Unido desde o pós-guerra até aos nossos dias. A sua relação com a Europa foi sempre difícil. Mas nunca como hoje, paradoxalmente, o destino das ilhas e do continente esteve de tal modo interligado. A História pesa no discernimento dos britânicos. Torna-se o derradeiro argumento de David Cameron, com um dramatismo que equivale ao que está em jogo. Quase tudo. No dia 9 de Maio, o Dia da Europa, o primeiro-ministro britânico foi mais longe do que nunca na sua defesa da permanência na União: "Sempre que virámos as costas à Europa, mais cedo ou mais tarde, acabámos por nos arrepender. Tivemos sempre de regressar, e sempre com um custo muito maior."

É à História da Europa na primeira metade do século XX que recorre já em desespero. Não poupa as palavras. "Podemos estar assim tão seguros de que a paz e a estabilidade no nosso continente estão garantidas para além de qualquer sombra de dúvida? É um risco que vale a pena correr? Não me atreveria a ir tão longe." O chefe do Foreign Office, Philip Hammond, tentou atenuar o peso das suas palavras, falando do risco de instabilidade e de conflito nas fronteiras europeias. Ambos insistiram num ponto: "Para o bem ou para o mal, escrevemos a história da Europa, tal como a Europa nos ajudou a escrever a nossa."

O debate subiu, portanto, até uma nova fasquia, deixando para trás os frios números da economia e do emprego. No mesmo discurso, o primeiro-ministro invocou Churchill e a sua defesa apaixonada da integração europeia, a única forma de impedir a guerra na Europa. No seu magistral apelo visionário de 1946, em Zurique, as palavras de Churchill continuam a ser actuais. Era preciso, disse ele, uma estrutura que "fosse capaz de tornar menos importante a força material de uma nação". "Nações pequenas contarão tanto como as grandes e ganharão honorabilidade através da sua contribuição para a causa comum." O velho leão britânico deixava o seu país de fora. Como ele próprio disse, era um homem moldado "pela cultura vitoriana" e o império foi sempre o seu modo de vida. Não estava preparado para aceitar outra coisa.

Nos anos do pós-guerra, enquanto a profecia de Churchill ganhava vida do lado de cá da Mancha, o Reino Unido conseguiu chegar quase sempre atrasado ao processo de integração europeia. Percebeu tarde que a Commonwealth, herdeira do império, não era uma alternativa à Comunidade Europeia. Não percebeu imediatamente o papel que os Estados Unidos tencionavam desempenhar na Europa. Ao contrário de na I Guerra, não se retiraram para o seu continente protegido. Vieram para ficar, passaram a agir como uma potência europeia, incentivaram a integração, primeiro para garantir a paz e integrar a Alemanha Ocidental no círculo das nações civilizadas, depois para fazer frente à União Soviética, cuja linha avançada dividia o continente ao meio.

Até ao fim da Guerra Fria, a sua "relação especial" com os britânicos desempenhou uma função crucial: fazer de ponte entre as duas margens do Atlântico, impedindo a Europa continental de cair na tentação de se imaginar como alternativa ao poderio americano e abrir fendas na muralha da NATO perante a ameaça soviética. Chegou a ser esse, durante algum tempo, o sonho da França. Hoje, a realidade mudou completamente e com ela a visão que a América tem da Europa. "O mundo é muito mais complexo, na medida em que a hegemonia dos Estados Undos entra em declínio e a competição geopolítica regressa em força", escreve Mark Leonard do European Council on Foreign Relations. A dimensão passou a contar, perante a afirmação "continental" de novos poderes emergentes, enquanto os defensores britânicos do "esplêndido isolamento" sonham com "uma nova era isabelina", longe das vicissitudes europeias.

David Cameron, que sabe isto tudo, já premiu o botão de pânico. Geriu a relação entre o seu país e a União Europeia olhando apenas para o seu calendário interno: tirar argumentos ao UKIP; evitar uma divisão dos tories que ameaçasse a sua liderança; vencer as eleições de Maio de 2015 prometendo referendar a União; e tentando contentar toda a gente com uma "renegociação" das condições exigidas pelo seu país para ficar. Tirou o génio da garrafa e agora, a 19 dias do referendo, não consegue fechá-lo de novo lá dentro. Do outro lado, está um Labour cuja liderança representa uma corrente que nunca manifestou grande entusiasmo pela integração europeia. Jeremy Corbyn faz campanha pelo sim à Europa, mas os seus críticos acusam-no de falta de empenho. Hoje, como muitas outras vezes, a questão europeia divide profundamente os dois partidos. A diferença é que, antes, havia sempre num deles uma ampla maioria disposta a bater-se pela Europa. Hoje, os conservadores estão infectados pelo vírus do isolamento a um ponto raramente visto, nem sequer no tempo de Thatcher, enquanto no Labour a falta de convicção é indisfarçável.

Logo a seguir à guerra, quando o líder trabalhista Clement Attlee, que foi membro do Governo de Churchill, ganhou as eleições, tinha outras preocupações: reconstruir um país destruído e garantir aos britânicos de todos os estratos sociais a justa recompensa pelo sacrifício que lhes fora pedido pela pátria. Criou o mais completo sistema de protecção social da época.

Do outro lado da Mancha a preocupação era outra. Por iniciativa francesa, foi criada a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) incluindo, para além da Alemanha e da França, a Itália e o Benelux. Convidado, o Reino Unido não se interessou. A Comunidade Europeia de Defesa, proposta pela França, morreria às mãos do Parlamento francês em 1954. Em 1955, os seis países que constituíam a CECA encontraram-se em Messina, na Sicília, para debater o passo seguinte, mudando de agulha para a integração económica. Convidaram mais uma vez o Reino Unido. Ao fim de dois dias de trabalho, o representante britânico resolveu regressar a Londres, convencido de que nunca se entenderiam. Como hoje sabemos, enganou-se. Messina delineou o Tratado de Roma que criou a Comunidade Económica Europeia. A Inglaterra ficou de fora.

Os anos 50 e 60 foram muito duros para a economia britânica, asfixiada pela reconstrução e pelos empréstimos que contraira junto dos EUA enquanto teve de aguentar sozinha a resistência a Hitler. Do outro lado da Mancha, as economias floresciam, dando início aos "30 gloriosos". Em 1959, Londres ainda tentou negociar um tratado de livre comércio (EFTA) com os países europeus que ficaram de fora da Comunidade, que não durou muito. Em 1961, o primeiro-ministro conservador, Harold Macmillan ,anunciou a sua intenção de negociar uma possível adesão. Apresentou o pedido em Bruxelas, mas Charles de Gaulle não tinha nos seus planos deixar entrar o Reino Unido.

O Presidente francês que fundou a V República olhava o Reino Unido como um cavalo de Tróia dos americanos, que poria em causa a sua ideia de uma Europa liderada pela França. A ingratidão foi um choque. O general conseguira resgatar sozinho a honra da França graças ao apoio inabalável de Churchill. Foi preciso esperar pela sua saída do Eliseu, em 1969, para que o seu sucessor, George Pompidou, abrisse às portas a Londres.

Edward Heath, outro primeiro-ministro conservador para quem o lugar do seu país era na CEE, voltou a apresentar o pedido em 1970. As ilhas chegavam atrasadas à nova realidade política europeia, as negociações obrigaram a incorporar o aquis comunitário, entretanto acumulado desde o Tratado de Roma. O Reino Unido juntou-se ao clube a 1 de Janeiro de 1973, com a Dinamarca e a Irlanda (um referendo na Noruega chumbou o tratado de adesão). Stephen Tindale, do Centre for European Reform de Londres, lembrava recentemente que, "nos anos 60 e 70 era o Labour que se opunha à Europa". Hugh Gaitskell, líder trabalhista entre 1955 e 1963, argumentava que uma adesão significava "o fim de mil anos de História". Harold Wilson, eleito primeiro-ministro em 1974, ganhou as eleições garantindo que não aceitaria a adesão "nos termos dos tories". Teve de convocar um referendo para sossegar o seu partido, que ganhou por ampla maioria (ver artigo neste destaque).

Em 1979, quando Margaret Thatcher chegou a Downing Street, não era sua intenção (nem nunca chegou a ser) fazer o caminho inverso, embora desconfiasse profundamente da transferência de soberania para um conjunto de burocratas em Bruxelas, como disse no seu célebre discurso de Brouges em 1988. Thatcher tinha a sua própria visão da Europa, detestava a ideia de federalismo, mas apoiou o Acto Único Europeu (1986), no qual se incluía pela primeira vez a possibilidade de aprovar por maioria qualificada as cerca de 300 medidas destinada a completar um novo mercado único em 1992. Garantiu o célebre rebate britânico, reavendo uma boa parte da contribuição do seu país para o orçamento comunitário, a maior de todas, porque a agricultura britânica era suficientemente competitiva para não corresponder ao modelo da PAC criado em primeiro lugar para a França. "I want my money back" tornou-se o seu grito de guerra.

No final, não conseguiu perceber as consequências da queda do Muro e da tremenda aceleração da História europeia. Os obstáculos que insistia em levantar ao avanço inevitável do processo de integração levaram ao crescente isolamento britânico e ao seu afastamento, decidido pelo seu próprio partido sem dó nem piedade. John Major conseguiu negociar o Tratado de Maastricht, que deu origem à União Europeia e estabeleceu o caminho para a moeda única, garantindo um opt-out para a união monetária e para a Carta Social. A partir daí, a revolta dos conservadores contra a limitação da soberania de Westminster e o abandono da "identidade nacional" não pararam de crescer, abrindo as portas a sucessivas derrotas eleitorais. Durante os anos de Thatcher, o Labour tinha tido o mesmo destino: a sua forte oposição à Europa condenara-o a sucessivas derrotas.

Foi só em 1994 que Tony Blair conseguir operar uma profunda ruptura com o passado, colocando o partido ao centro e a Europa como prioridade e ganhando o poder três anos mais tarde. Porventura o mais europeísta dos líderes britânicos do pós-guerra, Blair colocou o seu país no "coração da Europa", aumentando a influência britânica em inúmeros domínios, desde a "estratégia de Lisboa" até à cimeira de St. Malo com o Presidente Chirac, na qual os dois líderes se entenderam para criar uma capacidade militar europeia capaz de agir sem depender totalmente dos Estados Unidos, mas sem pôr a NATO em causa. Negociou o tratado constitucional. Ganhou muitos aliados com o alargamento a leste, de que foi um defensor acérrimo. Nem a guerra do Iraque, quando a "relação especial" falou mais alto e a Europa se partiu ao meio, lhe retiraram uma notável capacidade de influência.

Hoje, são de novo os tories que vivem uma profunda divisão sobre o lugar do seu país na Europa. A grande diferença é que não há, como sempre houve nas crises anteriores, um Labour alternativo capaz de erguer a bandeira europeia com convicção. A crise europeia, com os seus dramas e as suas incertezas, não ajuda a convencer os ingleses (escoceses, irlandeses e galeses são muito mais favoráveis) da importância vital do seu voto. A special relationship já teve melhores dias. Os EUA estão interessados, como sempres estiveram, numa Europa forte e unida, capaz de ser um parceiro na missão difícil de preservar as bases da ordem internacional liberal que criaram depois da II Guerra. Obama não poderia ter sido mais claro na sua recente visita a Londres. Fora da Europa, irão "para o fim da fila", não é afirmação que se esqueça. Cameron joga o seu lugar na História, arriscando-se a vir a ser o líder britânico que, citando o conservador Chris Patten, aceitou de livre vontade baixar o estatuto do seu país no mundo, da primeira para a segunda divisão.

Se o "Brexit" vencer, o mal estará feito para muitos e longos anos. A ironia da História é que, nunca como hoje, o Reino Unido pesou tanto no destino da Europa: a derrota do sim à permanência arrisca-se a ser também o mais forte sinal da derrota da própria União Europeia. Do seu peso estratégico, dos seus equilíbrios internos e das tendências centrífugas que hoje ameaçam dramaticamente a sua coesão.