Greves em França ameaçam Euro 2016

Protestos contra a lei do trabalho nos sectores da aviação, combustíveis e energia em França põem país anfitrião do campeonato europeu de futebol do avesso.

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Manifestação em Nantes contra a lei do trabalho JEAN-SEBASTIEN EVRARD/AFP

O Euro 2016 em França vai começar sob a ameaça de greves em protesto contra o novo Código do Trabalho, que podem pôr em causa a deslocação de adeptos das selecções nacionais. O Governo de Manuel Valls, que sabe estar a braços com uma longa guerra de trincheiras com os sindicatos, sobretudo com a CGT, aposta em tentar contornar os obstáculos, satisfazendo algumas reivindicações sem ceder no essencial, esperando assim ir esvaziando o protesto e tirar-lhe força.

Os sindicatos de pilotos da Air France convocaram uma greve para a primeira semana do campeonato europeu, juntando-se aos protestos sobre a lei do trabalho reivindicações salariais: a greve está convocada de 11 a 14 de Junho e poderá ser prolongada, apesar de se esperarem 2,5 milhões de fãs de futebol para assistir aos jogos, 1,5 milhões deles vindos de fora de França.

O Euro inicia-se a 10 de Junho e dura até 10 de Julho – com este calendário, os dois sindicatos que juntos representam cerca de 75% dos pilotos da companhia aérea francesa estão a lançar uma guerra. A administração da transportadora diz, no entanto, que não vai desistir de negociar com os sindicatos.

Até é bem possível que seja encontrada uma solução, possivelmente com o Governo a forçar a mão dos negociadores. Já o fez na greve da companha nacional de caminhos-de-ferro, a SNCF, transportadora oficial do Euro 2016, ainda esta semana, obrigando a administração a manter direitos dos ferroviários. Isto fez com que alguns sindicatos desconvocassem a greve, mesmo no último momento, e diminuísse assim a adesão. Mas a paralisação continua – quinta-feira, rondou 15,2%, diz o jornal Le Parisien, com as ligações internacionais a serem mais poupadas.

O mesmo aconteceu com a greve dos controladores aéreos: alguns sindicatos desconvocaram a greve ainda na quarta-feira, e os de sindicatos ligados à CGT já na quinta, ao fim da manhã, depois de uma centena de voos terem sido cancelados por causa da greve. Mas o abandono da intenção de reduzir os postos de trabalho fez com que os cerca de 4000 controladores franceses retomassem a actividade. “Não haverá perturbações este fim-de-semana”, afirmou o secretário de Estado dos Transportes, Alain Vidalies, citado pela AFP.

 “O que o Governo está a fazer é resolver cada uma das situações”, resumiu a ministra do Trabalho, Myriam El Khomri, citada pela AFP. Sempre sem dar sinais de que desistiria dos artigos do Código do Trabalho contestados pela CGT e pelo seu líder, Philippe Martinez, Manuel Valls entreabriu uma porta para retomar o diálogo. Khomri tinha denunciado aquilo a que chamou “a política da cadeira vazia” da CGT, apelando à central sindical para que fizessem “propostas”.

Martinez rondou o anzol mas não mordeu: “O Governo diz que o diálogo é possível, que a porta está aberta… A porta pode estar aberta, mas não se pode entrar, a realidade é essa”, contra-atacou o sindicalista na televisão. Recordou ter enviado recentemente um e-mail ao Presidente da República, a pedir uma audiência. “Sei que François Hollande está muito ocupado, que se desloca muito, mas não tivemos resposta”, lamentou. Mas assegurou que há sempre tempo para “discutir”.

Apesar de liderar uma luta sindical contra o Código do Trabalho – que está a começar a ser analisado pelo Senado, onde deverá ser votado até Julho, depois de ter sido aprovado pelo Governo sem ser votado na Assembleia Nacional – num calendário que coincide com a realização do campeonato europeu de futebol, e que inclui greves em sectores estratégicos, como os transportes, os portos, as refinarias ou a produção de electricidade, Martinez vai sempre afirmando que “não quer bloquear o Euro 2016”. Mas promete “a mais forte mobilização dos últimos três meses” para a semana em que se inicia o Euro, apesar de ser um grande fã de futebol.

O clima é de grande tensão. Se a CGT radicalizou a sua forma de luta contra o novo Código do Trabalho, o patrão dos patrões, Pierre Gattaz, afirmou que os militantes da central sindical se comportavam “um pouco como como delinquentes, como terroristas”, numa entrevista ao Le Monde.

O economista Thomas Piketty fez pesar também a sua opinião sobre este conflito que atravessa França, com um longo post no seu blog, em que classifica a lei do trabalho como “um erro terrível, mais um deste mandato perdido, e talvez o mais grave”. “O Governo quer talvez fazer-nos crer que está a pagar o preço de ser reformador, e que tem de se bater sozinho contra todos os conservadorismos. A verdade é outra, neste tema como em todos os anteriores: o poder instalado multiplica as improvisações, as mentiras e os arranjos”, escreveu.

Uma sondagem divulgada nesta quinta-feira parece, no entanto, mostrar que a simpatia dos cidadãos para com as greves está a descer. Segundo o estudo Tilder/LCI/OpinionWay, citada pelo Le Parisien, 41% dos franceses acha que “provavelmente” este movimento de protesto social vai ter um impacto negativo sobre a evolução económica positiva dos últimos dois meses.

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