Mataram Diogo numa praxe e o pacto de silêncio ainda cala a verdade

Jovem foi espancado num ensaio da tuna há 15 anos. Antigo colega diz agora em tribunal que "o que aconteceu não foi praxe", que a "violência não é praxe". Insiste que não viu nada, mas levou revista igual à que terá sido usada para agredir aluno.

Maria de Fátima Macedo, a mãe do aluno morto, está a ser julgada por difamação
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Maria de Fátima Macedo, a mãe do aluno morto, está a ser julgada por difamação FERNANDO VELUDO/NFACTOS

Quinze anos não chegaram para quebrar o pacto de silêncio imposto na Tuna Académica da Universidade Lusíada de Famalicão sobre a morte de Diogo Macedo, em Outubro de 2001. Esta quarta-feira, José Afonso, mediador de seguros, que se disse ainda “tuno” perante o Tribunal da Maia, recusou o que a Justiça já descobriu. “O que aconteceu naquela noite não foi praxe. A violência não é praxe”, sublinhou.

“Foi então violência o que aconteceu?”, questionou Sónia Carneiro, advogada de Maria de Fátima Macedo, mãe do jovem que então morreu com 22 anos. José Afonso, conhecido na tuna como “o comuna”, negou e insistiu não saber o que provocou a morte de Diogo. Não viu nada.

“Há factos evidentes, um tribunal concluiu que a morte se deveu a agressões em praxe. Estavam lá dez pessoas e ninguém sabe o que aconteceu?”, perguntou a procuradora. José Afonso recordou que foi a universidade que foi condenada, em 2009, num processo cível. Diogo morreu após ter sido agredido numa praxe durante um ensaio da tuna, concluiu um juiz naquele processo. A tuna reuniu-se e terão acertado versões sobre o sucedido: ninguém se recorda do que fizeram ao jovem. “Um muro de silêncio”, lamentou então o magistrado. José Afonso apenas admite a reunião: “Falam de um pacto. Não sei o que é isso…”

Era caloiro porque era "fraco"

A investigação ao homicídio acabou arquivada. Diogo era aluno do quarto ano de Arquitectura, mas nunca passou de caloiro na tuna. Porquê? “Porque musicalmente era ainda fraco”, disse, num esgar, José Afonso. “Não seria porque era muito bom aluno, porque faltava aos ensaios da tuna sempre que era altura de estudar para os exames?”, questionou a advogada Sónia Carneiro. “Não”, disse José Afonso.

A Justiça nunca conseguiu encontrar os responsáveis pela morte de Diogo e agora é a mãe, Maria, quem se senta no banco dos réus, acusada de difamar Olavo Almeida, um dos jovens que foi arguido no processo-crime. Invoca o direito à revolta. Em entrevistas a um jornal e a duas televisões tratou-o como “suspeito” e “assassino”. Olavo queixa-se de ser apontado na rua como o suspeito da morte de Diogo.

Esta quarta-feira, na segunda sessão do julgamento, José defendeu Olavo. “Sabemos todos que ele é o mais injustiçado, mas nenhum de nós sabe porquê.” Depois surpreendeu a juíza. Num ápice, tirou do bolso uma revista que disse ser igual à que terá sido usada naquela noite para agredir Diogo. “Foi este boletim da universidade de 2001. Não foi uma revista grossa. Não foi uma praxe. Foi um toque que lhe deram”, assegurou. “Que coincidência, senhor Afonso. Foi esse boletim?”, interrogou a juíza. “Não, quer dizer… foi um igual.”

Na sessão anterior, Olavo admitira que o jovem fora agredido com uma revista por não se lembrar do seu nome. Foi ainda obrigado a fazer flexões. Como é que José Afonso sabe disso? Estava lá, naquela noite. Chegou mais tarde, mas teve “conhecimento de que o boletim foi usado pelo Armando [outro dos suspeitos na investigação arquivada] numa praxe”.

Afinal houve praxe? Sim. “Tive conhecimento de que o Olavo participou numa praxe e que o Diogo fez flexões mais do que uma vez” e que “houve outras pessoas que praxaram o Diogo”. Quem? Não disse.

Pais do Meco apoiam mãe

José Afonso não se lembra da alcunha de Diogo na tuna. Era o “Pêras”. Lembra-se de ter chegado ao ensaio, atrasado, e de ter “trocado umas palavras com ele”. Tinha-o “visto nos cinemas em Braga”, uns dias antes, mas ele não o vira. Foi José Afonso quem depois pediu ao contínuo da universidade para chamar uma ambulância. O relatório da autópsia narra traumatismos desde a cabeça aos testículos.

Na sala de audiência, pais e mães dos seis jovens da Universidade Lusófona que morreram durante uma praxe na praia do Meco, em 2013, contiveram-se. Viajaram 300 quilómetros para apoiar Maria de Fátima. “Tentam à força colar este caso ao do Meco e isso revolta-me. Sinto-me atingido”, ouviram de José Afonso.

Esta quarta-feira, Madalena Silva, outra testemunha, amiga de vários anos de Olavo Almeida, lançou um desafio à Justiça. “Se calhar, o caso deveria de ser reaberto para se saber o que aconteceu naquela noite.”