Opinião

Bruxelas é uma bruxa: o populismo em Portugal

À velocidade da confirmação do fiasco económico em que o Governo nos meteu, Bruxelas será o bombo da festa.

1. À medida que o povo português se vai dando conta de que o Governo Costa e a esquerda radical que o sustenta levam o país para mau caminho, a agenda populista do Bloco, do PCP e do sector bloquista do PS ganha relevo e visibilidade. O discurso anti-europeu do Bloco e do PCP rivalizam com as tiradas populistas, nacionalistas e proteccionistas da extrema-direita e da extrema-esquerda europeias. E o PS, com matizes de vários tons, e apesar de proclamar aos quatro ventos que é o campeão do europeísmo, engrossa substancialmente o discurso populista de que, como se pode ler no Livro do Profeta Jeremias, todo o mal vem do Norte.

2. O PCP nunca escondeu o seu proteccionismo nacionalista e a profunda discordância da integração europeia. Antes da queda do muro de Berlim, pugnava pelo internacionalismo comunista e aceitava, sem qualquer rebuço, a célebre tese de Brejenv da soberania limitada (limitada ante a União Soviética). Perante a liderança solar e libertadora de Moscovo e dos seus amanhãs que cantavam, não havia soberania nacional que merecesse resistir. Tratava-se evidentemente de um internacionalismo sectário: se as restrições vinham do Leste, eram libertadoras; se viessem do Ocidente, eram imperialistas. Com a queda da cortina de ferro, o PCP tornou-se um partido fortemente isolacionista, de pendor nacionalista e basicamente proteccionista. Manteve os laços com Cuba – quando Cuba era Cuba – e com essa epítome da democracia que é a Coreia do Norte. Mostra ainda uma simpatia deferente para com a Rússia, mais por nostalgia do que por convicção ideológica, e para com a China, onde o capitalismo é de Estado e as liberdades burguesas não puderam instalar-se. E é hoje um defensor empedernido do regime venezuelano, que consubstancia uma das maiores catástrofes políticas contemporâneas, e também, sem surpresa, mas com contradições evidentes, do regime angolano. A agenda do PCP é populista, mas valha a verdade não é oportunista. Com efeito, o horror que tem à União Europeia, à moeda única e a tudo o que venha de Bruxelas está em linha de coerência com o que sempre defendeu. A democracia representativa, a economia de mercado, o estado de Direito, a primazia da liberdade ou a separação dos poderes não são valores a que o marxismo-leninismo preste homenagem e, por isso, não se estranha que o PCP – mesmo correndo o risco de se confundir com Marine Le Pen, com Nigel Farage ou quem Wilders – trate Bruxelas como a origem do mal.

3. Diverso é o caso do Bloco de Esquerda, que se diz europeísta, mas de um europeísmo alternativo e supostamente revolucionário. O Bloco rejeita tudo o que a União Europeia significa enquanto espaço de valores comuns à civilização ocidental e pretende instaurar uma nova ordem europeia pautada pelo seu socialismo estatal. O Bloco, designadamente, valoriza a vontade democrática do povo grego, mas de nada lhe interessa a vontade democrática do povo sueco ou alemão. O Bloco tem um europeísmo oportunista e de conveniência: quer tudo o que sejam “direitos” e repele tudo o que possam ser “deveres”. Advoga o perdão da dívida, isto é, o seu não pagamento – no que, de resto, está acompanhado pela nomenclatura “bloquista” do PS (onde pontificam alguns nomes grados da actual solução governativa). A não haver uma profunda revolução das políticas económicas e financeiras de Bruxelas-Frankfurt, prefigura uma saída do “euro”, para retomar aquilo que julga ser a “soberania monetária”. Ou seja, se ninguém quiser seguir a política que advoga, então regressemos ao terreiro nacional e à melancolia soberanista que só ele capaz de imaginar. O Bloco de Esquerda que, no Parlamento Europeu, vota recorrentemente com as forças nacionalistas, proteccionistas, soberanistas e xenófobas, desfere todos os dias ataques a Bruxelas. Vê no semestre europeu – instrumento indispensável de coordenação económica e orçamental no quadro de um mercado único e, em especial, de uma moeda comum – um “diktat” da eurocracia e do “neoliberalismo”. O populismo do Bloco é tão mau como o do PC, por ser populismo. Mas consegue ser pior, por ser também oportunismo.

4. Pior, pior, só mesmo o populismo do PS, claramente alojado na ala “bloquista” que por lá campeia, mas hoje também instalado em algumas tiradas da máquina de propaganda do Governo Costa. O PS, perante o fracasso já notório da sua política económica, procura desculpar a pobreza de resultados com as culpas de Bruxelas. A receita do aumento do consumo interno falhou. Hoje é já claro que o incremento de rendimentos e redução de horário dos funcionários públicos se mostra discriminatório, esquecendo o desemprego e a baixa de salários que, bem antes, assolaram todo o sector privado. Quanto mais se tornar óbvia a derrocada das políticas do Governo Costa – com redução do crescimento, baixa das exportações, aumento do desemprego, subida dos juros da dívida –, maior será a tentação de lançar o pregão populista de que a responsabilidade é de Bruxelas. Já se ouve, em volume mais baixo ou mais alto, que as previsões só não se cumprem por força das imposições iníquas da União Europeia. O PS, na antecâmara do desespero, está a começar a jogar a cartada do papão populista. E aqui já não é um populismo de convicção, nem um populismo de ocasião. O caso é bem mais sério: é um populismo hipócrita.

5. De ora em diante, à velocidade da confirmação do fiasco económico em que o Governo Costa nos meteu, Bruxelas será o bombo da festa. É o momento populista da democracia portuguesa. Não precisamos de mudar o sistema partidário como tem sucedido na generalidade dos países europeus. Bastou alterar o sistema de alianças e juntar as forças populistas por convicção e por oportunismo às que estão dispostas a sê-lo contra a sua matriz e a sua tradição.

SIM. Van der Bellen. A vitória do ecologista austríaco e a derrota in extremis do candidato de extrema-direita foi um alívio. Mas a destruição do centro político permanece e a guerra ao populismo terá de continuar.

NÃO. Redução para as 35h. O favorecimento dos funcionários públicos não é justo; o custo desta redução horária será grave; a credibilidade do país está em causa. E o Governo, atordoado, brinca com a sorte do país.