Úria na sala de cinema

A América foi o mundo em que Samuel Úria cresceu. Dali vêm os seus heróis musicais, e também os cinematográficos: Johnny Guitar, John Wayne, James Stewart...

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Johnny Guitar: O western “feminino” de Nicholas Ray é para Úria “o filme mais sensível e sentimental”
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John Wayne: Nos filmes de John Ford (aqui, O Homem que Matou Liberty Valance), Úria descobriu este seu herói
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James Stewart: “Quando fui ver o Vertigo”, confessa Úria, “tive vontade de chorar de cada vez que o James Stewart aparecia”

Samuel Úria lembra-se de um diner em Lisboa, um covil de celebração da cultura popular norte-americana, com um Elvis Presley à porta e cujas janelas se enfeitavam, entre outras, com imagens de Alfred Hitchcock e The Beatles – gente inglesíssima na certidão de nascimento. “De facto, eles também fazem parte do tecido da cultura americana”, defende, acrescentando que não há como ter crescido no mundo ocidental do pós-Segunda Guerra e não ser – uns mais, outros menos – filho dessa cultura que nos entra diariamente pela casa dentro. Sobretudo para um miúdo a fazer-se adolescente numa pacata cidade do interior de Portugal. Em Tondela, sublinha, “o mundo era a televisão e a televisão é a América”. “Temos todos essa pátria comum que não nos dá o green card, que tem os maiores estupores e as pessoas mais burras do mundo, e ainda assim é selectiva em quem acolhe. Não dá para não ser americano.”

Os Estados Unidos, esse país “construído por pistolas, por cima de cabarés, show-off e malta a dizer piadas”, que Úria descortina tanto no final de mandato presidencial de Barack Obama quanto nas mais variadas manifestações culturais, estiveram sempre presentes na sua vida através de uma televisão que acredita ter contribuído provavelmente mais do que a escola para o educar e moldar. Da mesma forma que o cinema, “numa zona geograficamente já um bocado isolada” como Tondela, se tornou uma fonte obrigatória de referências. Em terras pequenas, vai-se a tudo. Se há festivais de teatro, está-se presente; se há concertos, não se falta; se há ciclos de cinema, pesa na consciência não comprar bilhete. A responsabilidade, ampliada pela curiosidade, leva depois “muita gente que cresce nestes meios a ser mais obcecada do que seria normal”.

No meio de toda essa sofreguidão, Samuel Úria foi-se fascinando, por exemplo, por filmes como Johnny Guitar, de Nicholas Ray, exemplo da forma como os westerns, apesar de aparentemente quadrados e ruminadores da mesma fórmula, podiam dar azo a um cinema feminista e que o músico classifica como “o filme mais sensível e sentimental, no meio de conflitos e ciúmes”. Fundamental foi também a descoberta de John Ford, realizador que o atrai de forma irresistível, mas que não produziria certamente o mesmo encanto “sem o seu catolicismo irlandês, sem os subtextos cristãos ou judaicos”. “Para mim, seria um realizador quase banal se não reconhecesse o que há por detrás daquela matemática muito rígida com que filmava as famílias; havia sempre ali uma moral subjacente a explicar, a elevar e a conduzir os filmes.” Foi em A Desaparecida, de Ford, que Úria descobriu que um dos seus heróis, John Wayne, não era um canastrão – canastronas eram as personagens que lhe eram dadas a interpretar: “Ele transfigura-se, torna-se ameaçador, assustador, racista, sentimental e temperamental, há todo um jogo de emoções que não está ao alcance de qualquer pessoa e que faz aquele actor, que me parecia alguém com recursos limitados, envergonhar o Daniel Day-Lewis.”

John Wayne é um daqueles actores que Samuel Úria confessa transmitir-lhe um prazer físico de cada vez que vê entrar em cena no ecrã do cinema. E nessa reacção epidérmica está acompanhado por Kirk Douglas, Burt Lancaster, Laurence Olivier, Cary Grant, James Stewart ou Janet Leigh. “Houve uma altura em que repuseram alguns filmes do Hitchcock no cinema e quando fui ver o Vertigo tive vontade de chorar de cada vez que o James Stewart aparecia.” Quando fala de todos estes nomes, o músico fala sobretudo de um prazer decorrente “de um tempo perdido e que é irrecuperável, uma espécie de pureza apenas aparentemente superficial – porque havia muito conteúdo e, por vezes, muita perversidade escondida”.

Não negando algum desdém pelas referências de hoje, e mesmo admitindo que não faltam actores talentosos e com aclamação popular, Úria não encontra outros ícones feitos desta mesma massa, até pela falta de desfasamento temporal. Quando vê estes nomes no cinema, parte do fascínio provém da consciência do legado de actores que marcaram os seus pais e os seus professores, as pessoas que o rodearam e o moldaram na pessoa que é hoje. “O deslumbramento de estar quase a ver semi-deuses”, conforme descreve, cruza-se com essa ideia de que transcendem o tempo e galgam a morte. “Parecem ficções, parecem personagens do Somerset Maugham”, compara. É isso que lhe interessa – acreditar neles com o mesmo sangue e o mesmo fervor que só a ficção e a fé permitem.

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