Todos somos da família de Ambra Senatore

Aringa Rossa é o primeiro dos dois acontecimentos internacionais do novo festival DDD – Dias da Dança. Novo encontro, talvez mais poderoso do que o anterior, com uma coreógrafa que a cada nova peça se faz unha e carne com as pessoas e com as suas vidas.

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VIOLA BERLANDA

Por trás do vidro da janela do carro, a vida continua e Ambra Senatore continua a coreografá-la. Séculos de pintura religiosa italiana, toda a história do cinema, a família já numerosa (e que em parte ela trata por tu) da dança contemporânea? Nada contra, mas do que ela poderia verdadeiramente ficar a falar horas, talvez até dias, é do que vê – qualquer pessoa veria, teria era de estar de olhos abertos – na rua, no supermercado, no autocarro. Ou enquanto está ao telefone com um jornal português a garantir que não vale a pena tentar ver fantasmas, tipo uma filmografia escondida (houve quem visse Buster Keaton…), em Aringa Rossa – a peça para nove intérpretes que amanhã (Teatro Municipal Rivoli, 21h30) traz ao DDD – Dias da Dança, e que juntamente com Songs for Takashi, do regressado Raimund Hoghe, faz o pequeno brilharete internacional deste festival assumidamente militante da produção local que até dia 7 de Maio atravessa Porto, Gaia e Matosinhos.

É uma maneira de estar na vida, e uma maneira de estar na dança: “Passo tempos infinitos a observar as pessoas – sou muito, muito sensível às idas e vindas dos seres humanos na sua vida quotidiana. A maneira como se deslocam, como param, como se viram, como se cruzam, como usam o espaço – há todo um repertório aí. Acho que é o meu repertório.” Um repertório que Ambra Senatore está permanentemente a armazenar na cabeça, para memória futura. Por exemplo agora: “Estou dentro de um carro. Aqui ao lado vai uma mulher a passar com dois filhos. Um deles olha para cima; a mãe baixa-se para compor o casaco do outro. Na direcção contrária há um casal que pára para atravessar a rua: para mim isto já é uma coreografia.”

Observadora compulsiva, a coreógrafa italiana (Turim, 1976) que desde Janeiro assumiu a direcção do Centre Choréographique National de Nantes – um tsunami ainda assim não tão avassalador quanto o facto de ter sido mãe um mês antes, garante – não é propriamente uma geek da linguagem corporal. Ou pelo menos não lhe chega – “nada, nada…” – o lado técnico da coisa. “Os gestos, os movimentos, a postura – o que verdadeiramente me interessa é o que há de humano nisso, o que diz das pessoas e das suas vidas. Acho muito bonito perceber como os gestos se transmitem em família – ver o meu pai no meu irmão, por exemplo. Ou como as mulheres de determinada idade (ou de uma determinada época, não sei) se mexem – aqui em França há tantas senhoras a mexerem as mãos como a minha avó mexia. Ou como os miúdos dos subúrbios, com quem tenho trabalhado muito, trazem no corpo coisas que não parecem daqui e talvez sejam dos lugares de onde os pais ou os avós vieram.”

Passou meia hora, e se ainda estamos aqui é porque perante o trabalho de Ambra Senatore nada disto é conversa de café. Conhecer pessoas, passar meses com elas, amá-las como se fossem da família é na verdade a substância do seu trabalho como coreógrafa – um trabalho que, assegura, acontece totalmente dentro da sala de ensaios, com os bailarinos – e o método sem o qual nada do que vemos em Aringa Rossa poderia ter acontecido. Nisso, aliás, as personagens da peça são radicalmente verdadeiras: “Que tipo de grupo de pessoas é que eu queria retratar? Bom, certamente o grupo de pessoas que eu e os nove bailarinos fomos, somos, temos sido: um grupo de amigos europeus dos 28 aos 48 anos algures entre 2014 e 2016.”   

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Aringa Rossa é a primeira peça que Ambra Senatore criou para um grupo numeroso – não poder aprofundar a relação com cada um dos nove bailarinos, confessa, fê-la sofrer “um bocadinho” VIOLA BERLANDA

Jogos

Estreada na Bienal de Dança de Lyon de 2014, Aringa Rossa é a peça em que questões que estiveram quatro anos a latejar na cabeça de Ambra Senatore puderam finalmente ter direito aos seus 60 minutos de fama. “Este projecto nasceu no meu corpo durante os ensaios da minha primeira peça de grupo, Passo [apresentada em Maio de 2014 no Teatro Viriato, em Viseu, e no Centro Cultural de Belém, em Lisboa]. Justamente para suscitar uma relação de grupo, e a alegria de estar em grupo, propus aos bailarinos uma série de jogos – com regras, como todos os jogos. Enquanto os via a improvisar, não conseguia parar de pensar que um dia tinha de trabalhar sobre essas regras com um grupo maior”, explica.

Apesar da falsa pista que é o “arenque vermelho” do título – apropriação da expressão inglesa que designa justamente a estratégia narrativa de induzir o leitor/espectador em erro, para depois o apanhar totalmente desprevenido lá mais à frente –, o que os nove intérpretes reproduzem em cima do palco é o jogo social que jogamos durante a esmagadora maioria do tempo útil de vida, com todas as regras explícitas e implícitas que determinam as relações de força entre o indivíduo e o grupo elevadas à potência ficcional de uma coreógrafa que não parece ter nascido apenas para contar a vida, mas também para a encantar.

É esse poder que torna Aringa Rossa uma experiência hipnotizante – para lá da perfeição técnica dos efeitos cinematográficos de que os seus bailarinos se servem, utilitariamente, como quem para escrever se serve da gramática (o travelling, a câmara lenta, a imagem fixa, o rewind e, claro, os inúmeros arenques vermelhos…), e para lá da fantasiosa evocação dos jogos mais ou menos absurdos da primeira infância, um património comum, que fala a todos (até a um grupo de amigos europeus dos 28 aos 48 anos algures entre 2014 e 2016).

Ambra Senatore também podia ficar horas, talvez até dias, a falar disso. Porque a verdade, diz, “é que não há nenhuma história específica” que tenha querido contar – a não ser esta história contínua que somos nós uns com os outros. “Pode parecer muito vago, mas as minhas peças são sempre em torno do humano. Antes mesmo de querer contar alguma coisa, há o desejo de encontrar as pessoas fora da realidade, num espaço entre a dança e o teatro, e de dizer coisas acerca delas”, continua.

Para quem, como ela, constrói tudo na sala de ensaios a partir de uma relação pessoal directa com cada um dos intérpretes, trabalhar com um grupo maior trouxe um certo sofrimento: “Não houve tensões, é um grupo óptimo – só que as relações não podem ser tão profundas. Não é que eu queira absolutamente apaixonar-me por todos, ou ser a mãe de todos, ou a irmã mais velha de todos, mas admito que sofri um bocadinho. Parte do prazer que tenho a trabalhar neste meio tem a ver com a possibilidade de encontrar pessoas e partilhar coisas com elas – não é por acaso que não faço audições, faço questão de deixar que seja a vida a levar-me aos meus intérpretes.” É a única maneira de fazer acontecer o que ela adoraria que um dia acontecesse: “Gosto muito quando a dança é intensa e ao mesmo tempo verdadeira, simples e concreta nos corpos. Não está muito bem dito, mas se eu já tivesse sabido explicar também já teria sabido fazer – e não precisaria de continuar a tentar.”

Uma imagem fixa

Mais do que em criações anteriores, em Aringa Rossa o método confundiu-se com o resultado: “Não levo nada comigo para a sala de ensaios quando começo a trabalhar além dos bailarinos com quem quero fazer a viagem e o desejo muito forte de tratar de alguma coisa. Desta vez queria tratar da convivência entre pessoas, fazer um retrato íntimo disso. Os jogos e as regras foram importantes até certo ponto dos ensaios, depois fartámo-nos disso. E dedicámo-nos sobretudo a uma utopia, a utopia de não de decidir: de nos deixarmos levar pelos outros, ou pelos acontecimentos.”

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Exactamente por isso, todas as filiações que possamos querer encontrar – Buster Keaton, a pintura renascentista, Pina Bausch – são coisas da nossa cabeça. E talvez também da dela, mas inconscientemente: “Apercebi-me na peça anterior que havia uma grande proximidade entre o meu trabalho e o cinema. Observei-o eu, observaram-no terceiros, mas foi uma reflexão a posteriori. Para mim é claro que a dança é sempre uma sucessão de imagens em movimento – no caso de Aringa Rossa o que fiz foi fixar uma imagem, e a partir dela ficcionar centenas de possibilidades para o antes e para o depois.” Tudo o que vá para além desta relação com o cinema, insiste, é involuntário. “Também me dizem que certos quadros vivos das minhas peças reenviam para a pintura renascentista; certamente toda a pintura que pude ver nas igrejas italianas enquanto crescia terá ficado comigo, mas nunca tentei trazê-la para o meu trabalho. Não tenho pensamentos do tipo ‘vou fazer como naquele filme’, ‘quero trabalhar a partir daquela imagem’, ‘inspirei-me naquele texto’; acho aliás que o que emerge na sala de ensaios acontece mais apesar de nós do que connosco. Ao longo do processo de improvisação, procuro ferozmente não prever à partida o que vai acontecer.”

Às vezes essa incerteza mantém-se mesmo depois de o processo chegar ao fim: “Esse momento em que finalmente tenho a peça nas mãos, em que posso dizer o que ela é, descrevê-la mais exactamente, é sempre muito tardio – e nem sempre acontece antes da estreia.”

Esta podemos descrevê-la nós – embora, depois de tantos arenques vermelhos, estejamos longe de a ter nas mãos. Aringa Rossa é um jogo de tabuleiro em que as personagens às vezes avançam, e outras vezes recuam (e onde é possível que os desaires sejam mais graves do que a tragédia de ir parar à cadeia no Monopólio). É um serão de amigos (que de tanto fazerem tudo em fila indiana a certo ponto estarão desavindos). Uma família disfuncional, como todas a que alguma vez pertenceremos. Ambra Senatore não pode é saber disto, porque seria uma pena que não continuasse a tentar.