Torne-se perito

O que fazer com as gravações nunca editadas de Prince?

Enquanto três dos seus álbuns chegam ao top 10 dos mais vendidos nos EUA, discute-se o que fazer com o imenso material inédito que Prince terá guardado ao longo dos anos. Haverá álbuns póstumos a caminho?

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O cantor no início da sua carreira

Era previsível. O cantor americano Prince subiu ao primeiro lugar do top de vendas de discos nos Estados Unidos, depois da sua morte na última quinta-feira, à semelhança do que tem acontecido um pouco por todo o mundo, ficou a saber-se esta segunda-feira, através da AFP.

Há já três álbuns do cantor entre os dez mais vendidos no seu país. O álbum-compilação The Very Best Of Prince, publicado originalmente em 2001, está no primeiro lugar, seguido por Purple Rain, de 1984, segundo as cifras divulgadas pela Nielsen Music. A antologia de três discos The Hits/The B-Sides, de 1993, está na sexta posição. Vale a pena notar que é muito raro o mesmo artista ocupar o primeiro e o segundo lugar do top americano de álbuns: a última vez que aconteceu foi em 2004, com o rapper Nelly a colocar os álbuns Sweat e Suit nessas posições. 

Um dos factores que ajudam a explicar o fenómeno, para além do evidente efeito da morte do músico, prende-se com o facto de ser difícil ouvir as suas canções em streamingComo se sabe, Prince tinha uma relação ambivalente com a Internet e com a música digital e apenas se pode ouvir música sua em streaming no serviço Tidal, que pertence ao rapper Jay-Z. 

Conhecido pela intensa criatividade ao longo de 40 anos de carreira, Prince, que revolucionou a música e a cultura popular a partir dos anos 1980 ao lado de Michael Jackson ou Madonna, vendeu ao longo da sua carreira mais de cem milhões de discos. E tudo indica que continuaremos a ouvir falar dele nos próximos anos a partir da provável edição de originais nunca antes lançados. Todos os que com ele privaram profissionalmente dão como certa a existência de muitas canções gravadas que nunca chegaram a figurar em discos.

Mas quem vai decidir o que fazer com esse legado? É que Prince, que morreu em circunstâncias que continuam por explicar, não tem filhos, nem mulher, nem pais, e guardou com mão de ferro as suas criações. E não se lhe conhecem afirmações concretas sobre o que fazer com esse legado. É por causa disso que existem defensores de que simplesmente não se deve mexer nessas gravações. Por respeito ao músico. É essa a opinião, por exemplo, de Sheila E., que colaborou com ele ao longo dos anos.

Uma coisa é certa. Prince tinha um apetite insaciável por compor e gravava a qualquer hora, independentemente das circunstâncias. Era capaz de voar no seu jacto particular entre continentes, quando estava em digressão na Europa por exemplo, para registar no seu estúdio uma ideia que havia tido nessa noite, para regressar no dia seguinte aos concertos. Numa entrevista de 2014 à Rolling Stone, mas publicada apenas depois da sua morte, não só confirmava um rumor persistente sobre a existência de um cofre no subsolo do seu estúdio em Minneapolis, como ia mais longe e dizia que haveria vários cofres. “Nem sempre dei às editoras as melhores canções. Há canções nos cofres que ninguém conhece”, afirmou então.

Poderá ter sido apenas uma afirmação provocatória – sabe-se como tinha uma relação conflituosa com as editoras –, mas no ano passado a BBC produziu um documentário sobre ele, retransmitido nos últimos dias, em que era referido que terá guardadas gravações de mais de duas mil músicas inéditas. De acordo com o programa, as gravações estarão no tal cofre nos estúdios de Paisley Park. No mesmo documentário, Brent Fischer, um compositor que trabalhou anos com ele, estimava que 70% do material que havia gravado nunca havia sido publicado.

Segundo ele, Prince tinha o hábito de gravar canções, ou pelo menos rascunhos delas, praticamente todos os dias. Recorde-se que, apenas nos últimos 19 meses, Prince lançou quatro álbuns de material inédito.

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