Flores, cocaína & máfia

Um negócio de flores na Holanda serviu como fachada para uma rede de tráfico internacional de droga e para a mafia se expandir por todos os continentes.

Para os comerciantes do Royal FloraHolland, o famoso mercado de flores de Amesterdão, Vincenzo Crupi não passava de um homem de negócios apostado em fazer da Holanda um dos maiores exportadores mundiais de flores de corte. Para a polícia, Crupi seria, na verdade, um homem suspeito de pertencer à máfia calabresa ‘Ndrangheta, e que alegadamente terá feito chegar a Itália carregamentos de droga no valor de milhões de dólares, enfiados em camiões no meio de perfumados bouquets. Os aromas chegaram de tal forma às narinas da polícia que, em finais do ano passado, os escritórios de Crupi no Royal FloraHolland foram colocados sob escuta. 

As polícias italiana e holandesa agiram em parceria numa investigação que já resultou num processo de 1700 páginas e da qual, pela primeira vez, a Reuters revela alguns detalhes. Vigiado e sob escuta, o italiano de 52 anos foi apanhado em longas conversas sobre os negócios da máfia italiana.

Dizem as gravações que Crupi terá mantido conversas sobre tráfico de estupefacientes e de armamento, e ainda fez comentários sobre a luta intestina e mortífera entre as cúpulas da máfia italiana no Canadá. “Estão a matar-se uns aos outros”, terá Crupi confessado ao telefone no regresso de uma das suas viagens a Toronto. 

Crupi começou o seu negócio no mercado de flores de Amesterdão há duas décadas. Em Setembro do ano passado, pela calada da noite, foi detido pela polícia no sul de Roma, quando regressava a casa. O Ministério Público italiano, de acordo com uma das fontes do processo, quer incriminá-lo até final deste ano por tráfico de droga e ligação à máfia. Para as autoridades e para os procuradores, este caso lança uma nova luz sobre o funcionamento da ’Ndrangheta, a máfia da Calábria, e a forma como disseminou os seus tentáculos pelo Sudoeste italiano e por dezenas de países em cinco continentes. Ao abrigo desta investigação, já foram detidos mais de 50 suspeitos.

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Vincenzo Crupi e Vincenzo Macri (este na foto da direita) estão sob investigação por alegadamente pertencerem à máfia e controlarem o tráfico de cocaína a partir do mercado de flores de Amesterdão reuters

Crupi nega qualquer envolvimento. Como disse à Reuters Giuseppe Belcastro, um dos seus advogados, ele é tão-somente um honesto empresário. “Está desde sempre no negócio das flores”, acrescentou Belcastro, cujo escritório se situa muito perto do Vaticano. “O negócio das flores funcionava em pleno e dentro de toda a legalidade, e podemos prová-lo”, rematou.

Procuradores e polícia discordam. Asseguram que a ’Ndrangheta tem-se sabido manter low profile nos negócios internacionais e que Crupi é claramente a pessoa que melhor incorpora esse espírito. Mais: a empresa de Crupi era o álibi perfeito para a expansão fora de portas da ’Ndrangheta, procedendo à lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de droga.

“As conversas [gravadas com recurso a escutas] confirmam a total participação” de Crupi, e de outros, nas redes internacionais da máfia, lê-se no mandado de captura de Crupi, emitido pelas autoridades de Régio da Calábria, a capital da Calábria, no Sul de Itália. Um porta-voz da cooperativa que gere o mercado FloraHolland, onde Crupi tinha a sede da empresa, afirma que nunca se aperceberam de Crupi ser um suspeito mafioso. 

Durante grande parte do século passado, a máfia da Calábria viveu de extorsões e raptos. Até finais de 1980, início de 1990, quando passou a apostar no tráfico de cocaína. O grupo criminoso era então constituído por 160 clãs patriarcais. Os lucros do tráfico de droga rapidamente levaram a ’Ndrangheta a superar a sua rival de sempre, a siciliana Cosa Nostra, tanto em riqueza como em poder. As autoridades italianas dizem que a ’Ndrangheta é hoje o maior importador de cocaína em toda a Europa.

“É a marca registada, ou a garantia, da gravidade deste negócio criminoso”, garante David Ellero, que chefia a secção de investigação de crime organizado da Europol, em Haia. 

Uma linha de sangue

Crupi cresceu no seio de uma família com conhecidas ligações à máfia de Siderno, uma cidade situada no “dedo do pé” da bota italiana, segundo o que revelaram as entrevistas conduzidas pelos procuradores a vários informadores que operavam na empresa de Crupi. 

De acordo com dois antigos empregados, com quem a Reuters falou, Crupi terá começado o negócio das flores em Aalsmeer, muito perto de Amesterdão, quando se mudou para a Holanda no início dos anos 1990 ou talvez até mais cedo.

Vincenzo Macri, com 51 anos e genro de Crupi, juntou-se ao negócio em 2002. Como se pode ler na documentação apresentada em tribunal, Macri já tinha cumprido uma sentença de 13 anos nos Estados Unidos por tráfico de droga. Dizem os antigos empregados que a Macri cabia o papel de cobrador das dívidas de clientes.

Para os negociantes de flores do mercado FloraHolland, Crupi e Macri não passavam de meros empresários. Viviam na mesma rua de subúrbio, e, de acordo com a polícia e antigos trabalhadores da empresa, cedo erguiam e tarde recolhiam a casa. Por vezes, jantavam em restaurantes da moda e passeavam por Itália, mas nada demasiado ostensivo. “Estavam muitas vezes acordados até às quatro da manhã e seguiam directos para o FloraHolland”, confirmam fontes da polícia que dirigiram a investigação pelo lado holandês. 

“Não conduziam Ferraris nem exibiam relógios de marca no pulso. Olhando para eles, não se lhes notava nada de particularmente estranho. Pareciam pessoas banais. Mas não o eram.” 

O que os empregados do FloraHolland desconheciam é que estes dois homens — alegam os procuradores — faziam parte do clã Commisso, sediado na cidade costeira de Siderno e um dos mais poderosos braços da ’Ndrangheta.

Tanto Crupi como Macri tinham relações com pelo menos um dos três líderes que, em conjunto, chefiaram a ’Ndrangheta até meados dos anos 1970. Segundo uma sentença de tribunal datada de 1970, proferida pelo juiz Guido Marino, Antonio “Tio ’Ntoni” Macri era o “símbolo vivo da omnipotência do crime organizado”. Concetta, filha de ’Ntoni, está casada com Crupi. E Vincenzo Macri, filho de ’Ntoni, é o genro e braço direito de Crupi.

Em 1975, ’Notni, que tinha então 72 anos, foi morto depois de um jogo de bocce, uma tradição em Itália. Esta morte fez disparar uma guerra entre clãs e em apenas três anos morreram 233 pessoas nesse fogo cruzado, explica John Dickie, um historiador que estuda o tema da máfia. Só em Siderno, uma cidade com uma população de menos de 20 mil pessoas, cerca de cinco mil estiveram no funeral do “Tio ’Ntoni”.

Vincenzo, o mais novo da família Macri, está fugido. Maria Candida Tripodi, que diz ter sido contratada por um membro da família para advogada de defesa de Macri, afirma que o seu cliente está inocente. “Nunca falei directamente com ele, mas conheço a sua argumentação, ou nem teria sequer sido contratada para o defender”, diz. “Sei que ele vai negar as acusações.”

Já Belcastro, advogado de Crupi, refere-se a Siderno e ao seu cliente nos seguintes termos: “[Siderno] é uma cidade muito pequena, por isso até é normal que [Crupi] conheça alguém com um passado criminoso, o que não faz dele um criminoso.”

Foi através deste advogado que a Reuters tentou ainda contactar Concetta, casada com Crupi, mas sem sucesso.

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A rede de contrabando

Fresh BV era como se chamava a empresa de Crupi e Macri no mercado FloraHolland. Tinham um site onde se promoviam como um dos “maiores fornecedores para o mercado italiano”, operando uma rede de camionagem: “Uma distribuição da qual nos orgulhamos, quer pela velocidade quer pelo método.”

Em meados de 2000, a Fresh BV enviava um camião por dia carregado de flores para Itália, como confirmam antigos empregados. De acordo com a polícia, o negócio diminuiu nos últimos anos, mas ainda assim a empresa conseguia pôr na estrada vários camiões por semana. 

O mercado FloraHolland ocupa o equivalente a 400 campos de futebol. Velocidade é um trunfo no negócio das flores frescas, pelo que a qualquer hora do dia e da noite entravam e saíam camiões de longo curso de Aalsmeer. Com o porto de Roterdão e o aeroporto de Schiphol nas imediações, a empresa de Crupi não podia estar mais bem posicionada para receber os carregamentos de droga vindos da América do Sul e proceder à sua distribuição por toda a Europa, alegam as autoridades e o Ministério Público.

Enquanto investigava Crupi, a polícia italiana pediu ajuda à congénere holandesa para pôr os escritórios da Fresh BV sob escuta. E, de acordo com as transcrições que constam no processo, os informadores no terreno ouviam Crupi e Macri falar vezes sem conta sobre negócios da máfia. Do processo consta que os dois homens terão discutido com uma família do crime napolitana a venda e o transporte por barco da cocaína; que Macri queria montar um esquema semelhante de tráfico na Venezuela; que falaram sobre o primeiro aniversário do filho de um alegado membro do clã; que poderiam fazer passar um carregamento roubado de chocolates Lindt, no valor de milhões de euros; e sobre a guerra sangrenta entre as cúpulas da ’Ndrangheta no Canadá. Os procuradores estão convencidos de que Cupri e Macri suspeitavam de poder estar sob escuta e por isso dialogavam em dialecto da Calábria. Só se referiam a outros patrões da máfia pelas suas alcunhas, como por exemplo “Chubby, o filho da Grace”, “O Bandido” ou “O Escolhido”. O próprio Crupi referia-se muitas vezes a Macri como “pumadoro”, expressão em dialecto para “tomate” (do italiano “pomodoro”). O Ministério Público alega que Crupi, Macri e outros lideravam uma organização que “de forma sistemática e regular se dedicava a importar enormes quantidades de cocaína da Holanda para consumo no mercado italiano”. Para os procuradores, eles não passavam do braço fiel da ’Ndrangheta nos negócios além-fronteiras. Mas não eram eles os verdadeiros patrões que, à custa de intimidação e imposição de uma feroz lealdade, conseguem controlar os clãs. 

As primeiras detenções relacionadas com esta investigação remontam a Agosto de 2014, quando a polícia surpreendeu um homem de nacionalidade albanesa que estaria a levantar um carregamento de droga de um camião de flores cujo motorista trabalhava para a família Crupi. Numa outra operação policial, outro motorista dos Crupi terá recebido 11 quilos de cocaína das mãos de um homem, em Roterdão, e tê-los-á feito chegar a Itália escondidos num falso compartimento do camião, como testemunha a polícia, socorrendo-se também das gravações captadas por um aparelho de escuta na cabine do condutor. Nas gravações, o motorista diz que acaba de “apanhar os bolbos das túlipas negras”, a que a polícia se refere como sendo um código usado para a droga. Em Dezembro de 2014, este mesmo condutor foi preso numa zona de armazéns no Norte de Itália, onde teria tido o encontro com o suposto comprador da droga, igualmente detido. No mandado emitido para Crupi, pode ler-se que estes carregamentos “eram apenas a ponta do icebergue”. 

Uma lei especial

Foi precisamente para conseguir chegar ao mundo da Cosa Nostra e da ’Ndrangheta que a legislação italiana convencionou como crime a pertença a uma organização mafiosa. Segundo a lei italiana, uma sentença de prisão pode ir até 24 anos, caso fique provado que essas actividades se estendem além-fronteiras. Nenhum outro país incorpora este tipo de legislação e este facto é, dizem os procuradores italianos, um dos mais sérios impedimentos para levar a cabo investigações relacionadas com actividades da máfia fora de solo italiano. 

“Como as autoridades estão nesta luta [contra a máfia] há décadas, a Itália tem a melhor legislação antimáfia, bem como os melhores investigadores”, confirma Ellero, da Europol. “Sai-se de Itália e voltamos à estaca zero.” 

É esta a razão pela qual muitos operacionais da máfia optaram por se ramificar para o estrangeiro, asseguram os procuradores. “É certo que pertencer à máfia é crime, mas isso só funciona dentro do país. Já a máfia está por todo o lado”, diz Antonio de Bernardo, procurador por Régio da  Calábria que lidera a investigação contra Crupi.

Antecipando o quanto a máfia liga a datas e rituais — festas de aniversário, baptismos, casamentos e funerais —, a SCO, uma unidade da polícia de elite italiana, pôs sob escuta um carro que Crupi alugou em Siderno e que o levaria, e à sua mulher, aos festejos do primeiro aniversário do sobrinho no Hotel President, em Siderno. De regresso a casa, e segundo o processo em tribunal, Cupri foi apanhado a falar com um famoso membro da ’Ndrangheta.

Em Setembro, Crupi estava de volta a Itália. Foi quando a polícia montou cerco e o  prendeu. Desde então que tem estado detido, à medida que a investigação avança. Até final deste ano, tanto os procuradores de Roma como os de Régio da Calábria querem levar Crupi, Macri e muitos outros a julgamento por tráfico de droga e por pertencerem à máfia. 

Mas na Holanda muitos dos antigos colegas de Crupi ainda estão estupefactos com a ideia de ele ser um mafioso. “A ser verdade”, diz um antigo empregado da empresa de Crupi, “então é ainda melhor actor do que Robert de Niro e Al Pacino juntos”. 

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Chocolate quente

A rede comandada por Vincenzo Crupi tornou-se útil para traficar mais do que drogas, dizem os procuradores. Como por exemplo um carregamento de chocolates Lindt, no valor de milhões de euros. Entre Abril e Agosto de 2014, um carregamento de Lindor Maxi Boule Latte - aquelas famosas bolinhas de chocolate embrulhadas num papel vermelho-vivo - foi roubado perto de Lodi, em Itália. Eram 175 toneladas de chocolate no valor de 5 milhões de euros mas que poderiam atingir os 12 milhões se revendidos. E movimentar tal quantidade de chocolate colocava sérias questões de logística.

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175 toneladas de chocolate Lindt, no valor de 5 milhões de euros, foram roubadas e revendidas pela rede de Crupi, segundo as autoridades italianas e holandesas reuters

De acordo com as gravações recolhidas pelas autoridades, Crupi terá sido abordado por um revendedor de flores de Roma, com cadastro por tráfico de droga, para "tratar" do produto. Este revendedor, diz a polícia, trabalhava para quem roubou os chocolates e percebeu como o esquema montado por Crupi seria perfeito para fazer "desaparecer" aquelas toneladas. Em Março do ano passado, numa rusga da polícia holandesa aos escritórios da Fresh BV, foram encontradas algumas toneladas de chocolates, mas a informação foi mantida em segredo. E em Dezembro, quando um camião carregado de 15 toneladas de chocolate saiu dos escritórios da Fresh BV, a polícia interceptou-o e apreendeu a mercadoria. 

Numa outra operação policial, outras 20 toneladas de chocolates foram apreendidas a sul de Roma, mas já não com a "mão" de Crupi. Os investigadores apresentam ainda provas de que vários contentores frigoríficos carregados com 25 paletas de chocolates roubados terão sido enviados para o Canadá, e um outro carregamento, do qual se desconhece a dimensão e que nunca foi apreendido, terá ficado armazenado em Siderno.

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Guiseppe Belcastro, um dos advogados de Crupi, diz que o seu cliente nega ter tentado transacionar bens roubados. O caso mantém-se sob investigação e não tem julgamento agendado. A Lindt & Sprungli, fabricante das ditas bolinhas de chocolate, confirmou o roubo, mas não presta qualquer comentário sobre a investigação em curso.

Reuters/ com a colaboração de Alastair Sharp, em Toronto