O nome dele era Prince e uma parte do funk morreu

Estrela musical e autor de títulos tão emblemáticos como Purple rain e When doves cry foi encontrado morto em sua casa em Minneapolis aos 57 anos.

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"My name is Prince, and I am funky / My name is Prince, the one and only", apresentava-se no seu single My Name is Prince, de 1992. O ícone musical Prince morreu esta quinta-feira aos 57 anos, desaparecendo assim um dos mais profícuos autores das últimas décadas não só enquanto cantor mas também autor, instrumentista e performer. Um dos mais influentes artistas desde a década de 1970, é autor de Kiss, Little red Corvette, Purple rain ou When doves cry, alguns dos temas que marcam a sua história, durante a qual chegou a ser símbolo – literalmente Prince logo.svg – e a ser O Artista Anteriormente Conhecido como Prince, uma de várias facetas da sua crítica aos mecanismos da fama, da indústria e da tecnologia. 

A polícia tinha já confirmado que estava a acompanhar o caso de uma morte, que ainda não tinha identificado, na sua casa-estúdio em Paisley Park, em Minneapolis, no estado do Minnesota. A sua representante confirmou o seu falecimento à agência de notícias Associated Press, depois de o site TMZ ter anunciado a sua morte citando várias fontes sob anonimato. "É com profunda tristeza que confirmo que o lendário e icónico Prince Rogers Nelson morreu", disse a relações públicas Anna Meacham, citada pela Reuters. A causa da morte não foi revelada. O gabinete do Xerife local divulgou contudo que o músico foi encontrado inanimado num elevador de Paisley Park e que os paramédicos não conseguiram reanimá-lo, tendo-o declarado morto pouco tempo depois.

O músico tinha cancelado no início do mês alguns concertos em Atlanta da digressão Piano & A Microphone Tour. Na semana passada, Prince chegou mesmo a ser hospitalizado de emergência por alguns dias. Mas no último sábado, o orgulhoso nativo de Minneapolis deu uma festa na sua propriedade de Paisley Park, lembra o diário local Star Tribune. Era ali que gravava, a pouca distância de sua casa, lembra Pedro Abrunhosa, que gravou e tocou no local com a banda de Prince, a New Power Generation, na década de 1990. "Ocupava sempre o estúdio D", onde "tinha o seu microfone" e "produzia as suas próprias coisas". Os bilhetes para a dance party de sábado custavam dez dólares e Prince esteve presente, orgulhoso da sua nova guitarra roxa e tocando piano brevemente. A sua doença recente estava na mente dos presentes, mas Prince disse-lhes: "Esperem uns dias antes de desperdiçarem as vossas orações."

Nos últimos anos, Prince afirmou-se criativamente também com a marcação de concertos quase de surpresa, rejeitando as pressões da Internet, limitando ao máximo as entrevistas e presenças mediáticas e associando-se a serviços de streaming como o Tidal como reacção à massificação da divulgação musical na Internet. As imagens dos seus concertos, sejam fotos ou vídeos, são escassas por pedido expresso do músico. A sua marca cultural é, porém, indelével – além da criação em nome próprio, escreveu canções para inúmeros artistas e tocou temáticas variadas, da sexualidade à política. Madonna está "devastada", Mick Jagger lamenta a perda de um "artista revolucionário" de talento "infinito". Para Aretha Franklin, era "música ao máximo".

"Há um antes e depois do Purple Rain na vida de toda a gente; na música há um pré e um pós-Prince", postula ao PÚBLICO Abrunhosa, músico com "grande proximidade estética" com o trabalho do norte-americano e que o tem como uma das suas maiores influências. Em meados da década de 1990, Pedro Abrunhosa enviou uma maquete para Paisley Park, "uma espécie de santuário", e foi convidado a viajar até ao Minnesota  acabaria por gravar com a New Power Generation o seu segundo álbum, Tempo (1996), e o seu álbum ao vivo, gravado nos coliseus do Porto e de Lisboa, conta também com a banda do músico.  

"Prince é um clássico". O autor de Viagens e Silêncio, convidado para uma festa de 40 anos de Prince em Toronto em que o músico tocou – "era um multi-instrumentista notável" –, frisa a importância de Minneapolis para Prince e a importância de Prince para Minneapolis, cuja "cena musical é fascinante" e de onde é também oriundo Bob Dylan. "Tem uma grande tradição de música negra mas também uma grande tradição da música branca. Prince cruza essas vertentes. E é o James Brown e o Jimi Hendrix num só."

Para Paulo Furtado, também conhecido como The Legendary Tigerman, "foi o único músico da sua geração que compreendeu a essência da soul, do funk e de toda a música afro-americana". Fê-lo, acrescenta, "com uma capacidade de reformulação e de reinvenção impressionantes, como ainda mais ninguém fez": "A influência dele no mundo moderno e na música de hoje é enorme e é uma pena que tenha morrido tão cedo e com tanto ainda para dar." Abrunhosa concorda, falando da forma como Prince "reinventa o blues e o o funk", como "o som da bateria, as linhas de baixo, a maneira de tocar guitarra" e, em suma, da "maneira imensa como Prince vivia a música".

De Purple Rain aos Grammy

Prince Rogers Nelson nasceu em 1958 em Minneapolis. O pai era pianista e compunha canções, a mãe era cantora de jazz. Começou a trabalhar no final da década de 1970 e em 1984 lançou Purple Rain – uma afirmação criativa tripla. É um tema-chave dos anos 1980, o álbum que o impulsionou para o sucesso no mainstream e ainda o filme homónimo de Albert Magnoli que marca também a estreia de Prince como actor no cinema. Esse filme deu a Prince o seu único Óscar, de Melhor Banda Sonora Original, em 1985. Realizaria vários dos seus vídeos e alguns filmes, muitos dos quais no quinto estúdio de Paisley Park, como relata Pedro Abrunhosa. Em 1993 mudava o seu nome legalmente para o símbolo Prince logo.svg, mas mais tarde reverteria essa decisão e voltaria a ser conhecido como Prince.

 Ao longo da sua carreira editou 39 álbuns, a solo ou com a New Power Generation (anos 1990) ou as 3rd Eye Girl (década de 2010), dos quais dois editados em 2015 – HITnRUN Phase One e Two. Vendeu mais de cem milhões de discos. Recebeu sete Grammys e foi integrado no Rock and Roll Hall of Fame em 2004. Foi casado duas vezes, perdeu um filho ainda bebé e tornou-se Testemunha de Jeová e vegan. Apesar de ser cioso da sua privacidade são-lhe conhecidos vários romances com estrelas. Tinha acabado de anunciar que iria publicar as suas memórias em 2017. É uma incógnita o que sucederá agora com a obra.

His Purple Badness. LOVE.

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O músico Kalaf Ângelo classifica Prince como "importantíssimo" para a música - "Uma inspiração não só musical, mas também pela forma como reconstruiu a sua carreira e lutou pelos seus direitos. A forma heróica como Prince enfrentou as grandes editoras para reclamar os seus direitos e depois voltou ao mercado" é algo que destaca. No fundo, Prince era "um artista a defender a sua música no sentido mais puro", resumiu ao PÚBLICO. 

Em Agosto de 2013 passou pela última vez por Portugal num concerto marcado com pouquíssima antecedência com a sua banda 3rd Eye Girl, no Coliseu dos Recreios. A sua ligação a Portugal passa também pela colaboração com a fadista Ana Moura. Tinha já actuado no Estádio de Alvalade em 1993, no Pavilhão Atlântico em 1998 - horas mais tarde esteve também na discoteca Lux - e no Super Bock Super Rock em 2010. 

O Presidente dos EUA lamentou a morte de "um dos mais dotados e prolíficos músicos do nosso tempo". "Poucos artistas influenciaram de forma mais distintiva o som e a trajectória da música popular", disse Barack Obama em comunicado.

Músicos, actores ou realizadores estão a recorrer às redes sociais para manifestar o seu pesar pela morte de Prince. Um "King", apenas, para Questlove dos Roots, "His Purple Badness" para Spike Lee, num dia em que "as pombas vão chorar lágrimas púrpura", escreveu a actriz Rose McGowan. "O mundo perdeu muita magia", lamentou Katy Perry, "que génio", disse um Samuel L. Jackson "esmagado" no "pior dia de sempre" para Boy George, em que Justin Timberlake está "dormente. Atordoado". Russell Simmons postula uma frase por muitos repetida: "Rest in power, Prince." com Isabel Salema